Em França, as agências imobiliárias têm um novo alvo: Portugal. Entre a atração de reformados que queiram vir para a Península Ibérica, nómadas digitais ou famílias francesas que querem uma segunda habitação em Portugal, as estratégias das imobiliárias francesas para lucrar com casas portuguesas aumentam e isso tem um impacto num país que vive uma profunda crise de habitação.
Estas estratégias funcionam também porque o Estado português garante incentivos fiscais a fundos imobiliários, a nómadas digitais e até ao final de 2025, a residentes não-habituais. O Jornal de Notícias identificou mais de três dezenas de empresas francesas do setor imobiliário a operar em Portugal, que viram as suas receitas disparar depois da pandemia. Um fundo em particular já adquiriu 4.435 imóveis em Portugal a diversos bancos. Esse número contrasta com apenas cerca de duas mil habitações públicas entregues nos últimos anos pelo Governo português.
Segundo Paula Duarte, responsável da imobiliária francesa Nestenn em Portugal, “o cliente francês procura cada vez mais um produto imobiliário diferenciador” em áreas como Lisboa, Cascais, Comporta ou Porto. Ou seja, a procura de clientes franceses com mais poder de compra por habitação de luxo – esse “produto imobiliário diferenciador” – significa que do lado da oferta haverá também um maior interesse em produzir habitação de luxo em vez de habitação a preços acessíveis para combater a crise de habitação.
Alguns destes fundos milionários usavam também estratégias populares em França, como a aquisição de casas a cidadãos de terceira idade por valores abaixo da média de mercado com a garantia de que os mesmos pudessem habitar nessas casas até falecerem. O Jornal de Notícias também sinaliza que estas empresas compram habitações para especular sobre os seus valores, arrendando-as a curtas durações para depois as vender a preços mais elevados.
Na MIPIM, a maior feira imobiliária do mundo, que se realiza em Cannes, Portugal teve lugar de destaque, com as empresas francesas que atuam no mercado português a declarar o seu interesse de aumentar a presença em Portugal e apontando o quadro fiscal como uma das vantagens para os investidores franceses.