Sessão "Europa dos Povos" discutiu respostas à inflação, crise climática e guerra

27 de agosto 2022 - 0:36

Na sessão internacionalista que abriu o Fórum Socialismo 2022, Marisa Matias, José Manuel Pureza, Idóia Villanueva (Podemos) e Paul Maskey (Sinn Féin) falaram das crises que a Europa atravessa e da necessidade de lhes responder com medidas que transformem o sistema.

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Sessão "A Europa dos Povos" realizou-se esta sexta-feira em Coimbra. Fotos de Ana Mendes

A guerra na Ucrânia, a crise climática e as desigualdades agravadas pela pandemia e a inflação foram os temas fortes das intervenções na sessão internacionalista "A Europa dos Povos", esta sexta-feira em Coimbra na abertura do Fórum Socialismo 2022 (ver programa aqui).  Para responder a essas crises, Marisa Matias defendeu a criação de "alianças amplas que nos ajudem a fazer o caminho do desarmamento controlado e da erradicação de armas de destruição massiva e para uma efetiva transição energética, capaz de salvar não só as vidas, mas o próprio planeta". Alianças em que caibam "setores laicos e religiosos, dissidentes do militarismo e partidários da paz, forças políticas e movimentos sociais, figuras públicas e massas populares, artistas, académicos, cientistas e outros profissionais".

A eurodeputada do Bloco referiu-se também ao resultado das eleições em Angola, sublinhando que uma das conclusões é que "o regime cleptocrata do MPLA perde milhares de votos, um milhão já, e tem significativas derrotas, desde logo em Luanda, o centro do regime". Mas a mudança em Angola não começou nestas eleições, prosseguiu Marisa, lembrando o dia 28 de março de 2016, quando 17 jovens angolanos saíram do tribunal de Luanda condenados a penas de prisão por associação criminosa. "O 'crime', quero lembrar, foi ler um livro e criticar abertamente o regime", que com esta reação "acabou por revelar ao mundo a sua imensa fraqueza", recordou.

"A coragem dos jovens, de todos os jovens que pacificamente se levantaram contra o regime nas ruas e nas urnas, aponta um caminho que ainda agora começou. E por isso podemos dizer aqui hoje que estamos solidários", prosseguiu.

Para responder às crises que a Europa atravessa, Marisa reclamou "medidas económicas e financeiras que permitam colocar as pessoas e a natureza à frente", eliminando os combustíveis fósseis e reintroduzindo o controlo público nos setores económicos estratégicos. Sobre o aumento da inflação em Portugal, Marisa afirmou que "ao preferir travar os salários a travar a especulação dos preços, a inação do governo só promete a quem trabalha uma vida mais difícil".

Pureza evoca Ana Luísa Amaral e denuncia "vocação necropolítica" do capitalismo

Na abertura do fim de semana de "46 debates, todos de igual importância para as lutas em que estamos e para as lutas que vêm aí", José Manuel Pureza deu as boas vindas em nome da distrital bloquista de Coimbra e sublinhou que a iniciativa decorre "num tempo de sobreposição de quatro crises maiores: a crise trazida pela catástrofe climática, a crise gerada pela pandemia, a crise provocada pela guerra e a crise imposta pela inflação".

Crises que exprimem, prosseguiu Pureza, a "vocação necropolítica cada vez mais escancarada" do capitalismo. Mas "a essa Europa que organiza a indústria, a agricultura, a política energética em função de um desenho geopolítico de retoma da guerra fria como pórtico da guerra total, a esquerda socialista contrapõe a luta pela Europa dos Povos".

E essa Europa dos Povos "tem de ser uma Europa inequívoca e coerentemente comprometida com a luta pela autodeterminação do povo da Ucrânia, claro, tanto como com as lutas pela autodeterminação dos povos do Curdistão, do Sahara Ocidental, da Palestina e de tantos outros povos, cinicamente relativizados pelos que enchem a boca com discursos abstratos contra o relativismo".

Para dar voz a essa Europa dos Povos, "a Europa dos que não desistem nunca de lutar pela democracia e pelos direitos", José Manuel Pureza evocou Ana Luísa Amaral, citando parte da intervenção que a poeta fez em 2015 no encerramento do Fórum Socialismo. E concluiu que "a nossa luta pela transformação socialista de Portugal é irmã de todas as lutas pela emancipação em todo o mundo".

Idóia Villanueva: "Não há melhor medida contra a crise do que a construção da paz"

A eurodeputada do Podemos Idóia Villanueva começou por realçar a conquista obtida há poucos dias com a aprovação da lei do consentimento "Sim é Sim" em Espanha, em que o silêncio e a passividade deixam de poder ser interpretados como sinal de consentimento nos casos de abuso sexual. Em seguida, referiu-se aos seis meses da invasão da Ucrânia e às consequências de "uma batalha que pouco tem a ver com os interesses das populações, mas sim com a luta pela hegemonia política". Para resolver "uma guerra que nunca devia ter começado", a eurodeputada defendeu que a União Europeia tem de ser firme na defesa de uma solução negociada. "Hoje, não há melhor medida contra a crise do que a construção da paz" e por isso considerou "lamentáveis" as declarações do representante da UE para os Assuntos Externos, Josep Borrell, quando disse que a guerra será resolvida no campo de batalha. Por outro lado, criticou o papel de anfitrião dos encontros entre a Rússia e a Ucrânia assumido pelo "autocrata Erdogan, o mesmo que avança na sua guerra contra o povo curdo, que viola sistematicamente os direitos humanos, o mesmo a quem a Europa paga para espancar pessoas na fronteira oriental da Europa enquanto ela olha para o outro lado".

Para Idóia Villanueva, esta guerra mostrou que é possível pôr rapidamente em marcha medidas de asilo que devem ser a norma em conflitos futuros. "Quem foge de uma guerra não pode ter a sua vida dependente da cor do passaporte ou da cor da sua pele", sublinhou. E a firmeza que a Europa teve com Putin também deve passar a ter com os grupos da extrema-direita no Parlamento Europeu que tiveram financiamento do Kremlin, ou com as violações dos direitos humanos cometidas por Israel. A eurodeputada defendeu a necessidade de um "escudo social" que proteja as pessoas das consequências económicas e que promova mudanças num sistema que a pandemia, a crise climática e a guerra comprovaram uma vez mais ser insustentável. "Queremos uma Europa que viva em paz e democracia, um projeto igualitário que garanta a segurança humana", concluiu a eurodeputada do Podemos.

Paul Maskey: "Ainda agora saímos da pandemia do covid e já entrámos numa pandemia do custo de vida"

Paul Maskey, dirigente do Sinn Féin na Irlanda do Norte e deputado eleito por Belfast ao parlamento britânico, foi o outro orador internacional convidado para a abertura do Fórum Socialismo e deu a conhecer as preocupaçoes do Sinn Féin com as consequências económicas da guerra e do aumento da inflação. "Estamos a atravessar uma crise de custo de vida. Ainda agora saímos da pandemia do covid e já entrámos numa pandemia do custo de vida, que também vai ceifar vidas" avisou Maskey, reclamando a atualidade de reivindicar "um salário digno para um trabalho digno" numa altura em que "a inflação é a maior de há 40 anos".

"As grandes empresas pagam pouco ou nenhum imposto e levam os seus lucros para fora", enquanto as pequenas empresas que são a espinha dorsal do país estão em grandes dificuldades com o aumento do custo da energia, apontou o deputado, acusando os unionistas do DUP e os conservadores britânicos de "castigarem os trabalhadores". "Somos o maior partido na Irlanda do Norte e iremos fazer a diferença caso algum dia voltemos ao governo no norte", ironizou Maskey, referindo-se ao conflito institucional dos unionistas que se recusam a formar governo nos termos do Acordo de Paz, invocando divergências com a cláusula negociada por Londres com a União Europeia na altura do Brexit. "O DUP devia acabar o seu boicote às instituições democráticas para podemos apoiar as pessoas em dificuldades" e que veem os seus os direitos "atacados pelos governos conservadores: o direito à habitação, à saúde, à educação e a conseguirem alimentar-se", concluiu Paul Maskey.