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"Sem um programa para o emprego não haverá um Orçamento de esquerda"

Em entrevista à Lusa na véspera da XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, a coordenadora bloquista afirma os pontos essenciais para a discussão do Orçamento de Estado para 2022.
Entrevista à coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, na sede do partido em Lisboa, 19 de maio de 2021. Foto de Miguel A. Lopes/Lusa

Na véspera da XII Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, que é antecedida por uma sessão internacionalista, Catarina Martins, entrevistada pela Lusa, afirma que, apesar de  não haver qualquer negociação ou reunião prevista com o Governo sobre o Orçamento de Estado para 2022 (OE2022), ainda há tempo para que isso aconteça.

A coordenadora do Bloco considera o emprego como condição essencial para o próximo Orçamento. “No nosso ponto de vista, a questão de como é que se vai criar emprego, e que emprego, tem de estar no centro de negociações do Orçamento do Estado. Sem um programa para o emprego não haverá um orçamento de esquerda”, avisa.

Em 2021, as negociações não chegaram a bom porto, levando o Bloco a chumbar a proposta do PS. No entanto, este ano “não há nenhuma razão para o Orçamento do Estado não ser viabilizado”, a menos que o Governo “não o queira viabilizar”, prosseguiu Catarina.

“Seria uma irresponsabilidade um Governo não encontrar as condições de viabilização do Orçamento do Estado num momento em que o país atravessa uma crise tão forte e que há toda a disponibilidade negocial no Parlamento para constituir maiorias”, considera.

Além do emprego, e a sua qualidade, condições que na ótica de Catarina Martins “vão determinar a forma” como Portugal sairá deste período, a coordenadora do Bloco elege ainda o Novo Banco e a saúde como temas que estarão nas discussões para o OE'2022. O “país precisa mesmo do Serviço Nacional de Saúde” e “não há ninguém em Portugal que negue essa necessidade”, sublinha.

Sobre o facto de ainda não terem começado os contactos para negociar o próximo Orçamento, Catarina Martins lembrou que o Governo português tem estado “muito centrado na Presidência da União Europeia.” “Achamos que é tempo de olhar um pouco mais para a situação do país e eu diria mesmo que mesmo para a União Europeia não seria mau se Portugal tivesse um projeto que devia ser o posicionamento da União Europeia”, considera.

Ministras do Trabalho e da Cultura têm uma intervenção “desastrada”

Na sua entrevista, Catarina Martins criticou as ministras do Trabalho e da Cultura. No seu entender, as governantes têm tido uma intervenção “politicamente desajustada e desastrada”.

Questionada sobre a prestação dos ministros da Governação socialista, a coordenadora do Bloco deixou bem claro que uma troca de governantes não resolve a falta de direção política. “Eu não creio que debater quem está em cada ministério no momento nos ajude a centrar nos problemas políticos. Agora, é óbvio que há áreas em que a intervenção tem sido para lá de politicamente desajustada, eu diria mesmo desastrada”, critica.

Sobre a atuação do Ministério do Trabalho e da Segurança Social afirma que tem havido uma “grande incapacidade de ter proposta, de resolver problemas, com uma série de propostas que são feitas e que depois estão mal feitas pois não funcionam”. Catarina Martins refere mesmo que esta incapacidade tem dado aso a “vários momentos às vezes até tristemente caricatos”.

Sobre a atuação da ministra da Cultura, Graça Fonseca, refere que “neste momento não consegue ter nenhum interlocutor na sua área porque, enfim, a sua medida mais emblemática foi uma raspadinha para o património”.

 

Sobre o ministro Eduardo Cabrita, Catarina Martins considera que este ficou numa “situação insustentável” depois do caso de Ihor Homeniuk, torturado até à morte por uma força de segurança tutelada pelo Ministério da Administração Interna.

Rui Rio está “colado à extrema-direita num desespero incompreensível”

Questionada sobre o Presidente do PSD, Rui Rio, a coordenadora do Bloco de Esquerda acusa-o de estar colado à extrema-direita. “Rui Rio aparece colado à extrema-direita num desespero incompreensível, o que significa que desistiu sequer de disputar a maioria no país”, critica.

Para Catarina Martins, é “claramente perigoso” para uma democracia que cresça o discurso violento, antidemocrático e de ódio como está a acontecer em Portugal, avisando, no entanto, que “uma maioria social não se disputa nesse campo”, mas sim “com soluções para o país”.

A Cheguização do PSD

Pedro Filipe Soares

Sobre o arranque do segundo mandato do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Catarina Martins considera que este é e sempre foi “um presidente de direita” e olha com alguma apreensão para a visita à Guiné-Bissau num momento em que “a situação democrática não é reconhecida internacionalmente nem pode ser”.

A coordenadora do Bloco afirma que o atual presidente “teve um papel institucional de normalização de relações institucionais depois de Cavaco Silva ter deixado uma situação de crispação que era absurda e que não ajudava ninguém no país, não ajudava a democracia”. No entanto, ao manter a sua “agenda de direita” faz com que um Governo que não negoceie à esquerda acabe “por ser mais próximo de Marcelo Rebelo de Sousa”, adverte.

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