Já tínhamos visto, sabíamos do perigo, estava na cara que podia acontecer. Mesmo assim, torcíamos para que fosse diferente. Faz lembrar aquela cena cinematográfica do movimento em câmara lenta, em que a plateia do cinema antecipa ansiosa o desfecho anunciado enquanto as personagens ainda não têm consciência do desastre que se segue. Mas, neste caso, não foi por falta de aviso.
O PSD afirmou Suzana Garcia como candidata à Câmara Municipal da Amadora. Em jeito de curta apresentação para quem não conhece a pretendente à edilidade, ficou publicamente conhecida enquanto advogada comentadora em rubricas de programas da manhã dedicadas dedicadas ao crime, onde teceu recorrentes comentários racistas e preconceituosos e partilhou o argumentário que também já conhecíamos da retórica de André Ventura.
Depois da aventura conjunta com o Chega na região autónoma dos Açores, Rui Rio tinha negado coligações com este partido para as eleições autárquicas. Parecia um ato de contrição, mas não se engane: não foi por quaisquer convicções políticas ou ideológicas que Rui Rio rejeitou o Chega para as autárquicas, não tem a ver com as ideias, é puro jogo político. Fechou a porta das coligações com a extrema-direita para tentar sacar os candidatos pela janela - assim se explica a opção para a Amadora.
Rui Rio não quis dar a cara pela escolha extremada, mandou José Silvano fazer esse anúncio público. O coordenador autárquico do PSD, confrontado com as posições públicas de Suzana Garcia, garantiu que as declarações da candidata “não põem em causa valores essenciais do PSD” - ele lá saberá, mas conheço pessoas do PSD que não ficarão nada agradadas com esta afirmação. Logo a seguir, meteu os pés pelas mãos quando tentou traçar diferenças entre as opiniões de Garcia e Ventura sobre a castração química: basta ouvir os dois e parece que estão a ler do mesmo papel, não há nada que os separe, incluindo a dissimulação com que o fazem.
O momento “fumei, mas não inalei” aconteceu quando Silvano disse que Suzana Garcia “tem o perfil adequado ao concelho da Amadora” mas provavelmente não passaria no “crivo” de uma candidatura à Assembleia da República. A riqueza desta oratória daria um livro de análise, começando pela forma como insulta a população da Amadora - esperemos que a consideração dos amadorenses pelo PSD seja recíproca. Mas não é acaso, há uma tática política por trás desta frase.
Espero que, agora, se acabe com a narrativa falsa de que é “a Esquerda que abre caminho à extrema-direita”. O PSD de Rui Rio é que escolheu ocupar esse lugar na história
Nos tempos idos em que John F. Kennedy era presidente dos EUA, a CIA inventou uma técnica que permitia à Administração norte-americana negar o envolvimento em qualquer escândalo - chamava-se plausible deniability, pode traduzir-se livremente para ‘desculpa plausível’. Dessa forma, as culpas de qualquer acontecimento eram sempre atribuídas individualmente, ilibando os responsáveis superiores ou o coletivo. A extrema-direita elevou esta técnica a tática política, usada para constantemente pisar os limites do aceitável até ao ponto de já não existirem limites por tanto serem pisoteados. É o típico “estava a brincar!” que serve de recuo sempre que uma afirmação não é bem recebida, mas que pode ser omitido caso se tenha conseguido aceitação com uma qualquer boçalidade. Na tradução das palavras de Silvano, o PSD “está a brincar” quando apresenta candidatos de extrema-direita à Amadora, isso não define o partido - e, no entretanto, fica legitimada a guinada à direita e esses protagonistas. Depois do que aconteceu com André Ventura em Loures, cai direitinho na sabedoria do ditado popular “à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer”.
O desespero do PSD passou ao vale tudo eleitoral. Rui Rio prometeu um banho de ética, mas deitou fora a ética com a água do banho. Espero que, agora, se acabe com a narrativa falsa de que é “a Esquerda que abre caminho à extrema-direita”. O PSD de Rui Rio é que escolheu ocupar esse lugar na história.
Já vimos este oportunismo em vários partidos europeus de direita ao longo da última década, tentando recuperar espaço eleitoral perdido incorporando protagonistas e ideias à extrema-direita. Foi sempre uma capitulação ao programa político dessa direita que vive do ódio e da divisão, tornou sempre mais forte a agenda xenófoba e racista. É esta a carta de Rio a Garcia.
Artigo publicado no jornal “Público” a 9 de abril de 2021