Está aqui

Sei de um rio

Sei de um rio, com biodiversidade com garças brancas e patos bravos que podemos observar ao passar as pontes de Bucelas, mas que muitos passam sem saber, pois, não tem uma simples placa com o seu nome: Trancão. Artigo de Paula Teixeira
Hoje a limpeza do Trancão é considerada um modelo a seguir sobre despoluição dos cursos aquíferos
Hoje a limpeza do Trancão é considerada um modelo a seguir sobre despoluição dos cursos aquíferos

Quem já ouviu falar do rio Trancão? 

O rio Trancão é um afluente do Rio Tejo, o mais próximo da sua foz. É um rio que se situa na sua grande maioria no concelho de Loures nos seus cerca de 29 km, sendo também conhecido como a Ribeira de Sacavém perto da sua foz. Foz essa que fica nada mais nada menos, mesmo ao lado da mais recente freguesia Parque das Nações, após a cedência em 2012 de parte do parque Expo à Câmara de Lisboa por parte do Câmara de Loures.

Infelizmente, este rio tem má fama, que lhe vem ainda da segunda metade do seculo XX, como sendo o rio mais poluído da Europa, era um rio fastiento e infecto, poluído por várias fábricas ao longo das duas margens, uma delas a Quimigal contaminando as águas com mercúrio.

Hoje, já não tem má fama, graças à limpeza das areias do leito do rio, à criação de várias ETAR’s aquando da EXPO 98 (Frielas e Bucelas) e mais tarde, com o fim de algumas empresas de exploração agro-pecuária terem fechado a montante da vila de Bucelas. Ainda hoje a limpeza do Trancão é considerada um modelo a seguir sobre despoluição dos cursos aquíferos.

Porém, sei de um rio… esquecido…adormecido pela política local... invisível…

Sei de um rio, que até metade do século XX estava associado a terras férteis e de uma grande exploração agrícola, agricultura essa que abastecia Lisboa com os seus produtos hortícolas. Sei de um rio que era navegável com barcos que levavam produtos para Lisboa.

O Trancão era uma via fluvial fundamental no século XVIII, que servia de via de comunicação com Lisboa, foi muito importante para a construção do Convento de Mafra, pois servia para o transporte de materiais pesados. Os barcos chegavam a Santo Antão do Tojal com estátuas em pedra e sinos, esse momento ainda é recriado todos os anos na Feira Setecentista em setembro.

Sei de um rio, com muitas histórias de lavadeiras e grandes tradições nas freguesias de Bucelas, Santo Antão do Tojal e São Julião do Tojal, terras saloias, com um potencial turístico fantástico, gastronómico, cultural e de natureza às portas de Lisboa.

Sei de um rio, com biodiversidade com garças brancas e patos bravos que podemos observar ao passar as pontes de Bucelas, mas que muitos passam sem saber, pois, não tem uma simples placa com o seu nome: Trancão.

Será vergonha de uma história difícil? Porque mantemos o nosso rio tão envergonhado escondido atrás de caniçais?

Sei de um rio, com histórias bonitas para contar, sei de um rio que eu gostava de me aproximar, por lá fazer caminhadas, levar as crianças para brincar e lanchar num parque de merendas, porque não? Será assim tão menos importante essa revitalização?

Loures é um concelho em que o Urbano está lado a lado com áreas de natureza ímpares, mas já esquecida pela maioria devido a sucessivos executivos da Câmara Municipal de Loures que se esqueceram que a qualidade de vida de quem lá vive tem de ser feita dentro de um desenvolvimento sustentável, em que seja prioritário valorizar a natureza e criar espaços de lazer para a sua população em harmonia com o ambiente existente.

A Adal (Associação de defesa ambiental de Loures) tem lutado para a valorização e defesa do património natural do concelho tendo proposto e aguardando a aprovação da Autarquia que o Paul dos Caniçais seja reconhecido como Área Protegida de Âmbito Regional/Local (este Paul fica localizado entre a zona do infantado e os Tojais). Este Paul tem sido ignorado e atualmente está bastante degradado com descargas de entulho, sofás e pneus abandonados, mas mesmo assim é um local perto da zona urbana onde se podem observar: rouxinol bravo, fuinha dos juncos, estorninho preto, garça vermelha.

Esse reconhecimento a ser concretizado será uma grande vitória e mudança no concelho de Loures, na forma com que se deve valorizar o património natural existente e que durante décadas foi sendo atacado por uma construção selvagem.

Mas, não chega esse reconhecimento de área protegida, será também necessário um investimento orçamental para preservar os locais e torna-los visitáveis para um ecoturismo sustentável e de educação para a natureza. A criação de trilhos de caminhadas com passadiços, zonas de observação de aves e zonas de lazer é prioritária neste concelho.

Temos muito bons exemplos dos concelhos vizinhos, Vila Franca de Xira com o Parque Ribeirinho Moinhos da Póvoa com trilhos e ciclovia junto ao Tejo já concluída e Mafra com a criação do Parque Ecológico e Parque Intermodal da Venda do Pinheiro que conta com um Centro Interpretativo e um lago com uma componente educativa e valorização do rio Lizandro.

A criação destes espaços aumenta a qualidade de vida dos seus residentes, mas acima de tudo dá-lhes um sentimento de pertença à comunidade, proximidade à história do local onde vivemos.

Existem mais zonas do concelho de Loures que merecem a atenção do poder local quanto à preservação e valorização da natureza. O Bloco de Esquerda quer lutar pela preservação e valorização do património de natureza e cultural no concelho de Loures.

Sabemos de um rio e dos seus afluentes…olhemos o Trancão.

Artigo de Paula Teixeira, assistente social e deputada municipal, publicado em loures.bloco.org

Termos relacionados Comunidade
(...)