Esta terça-feira, pela segunda vez consecutiva, houve protestos em Díli. Desta vez foram mais de 2.000 manifestantes, o dobro do dia anterior, a manifestar-se contra a compra de carros para cada um dos 65 deputados do país. A aquisição destes Toyota Land Cruiser Prado, um SUV de grandes dimensões e de sete lugares, tinha ficado inscrita no orçamento do Estado para este ano.
Muitos dos manifestantes eram estudantes de quatro universidades e numa bandeirola que trouxeram podia ler-se “parar os ladrões, parar os corruptores”. Noutra faixa estava escrito “precisamos de prosperidade, não do vosso luxo”.
Durante a ação foram queimados pneus e uma viatura oficial e lançaram-se pedras, informações avançadas pela AFP. A polícia respondeu com gás lacrimogéneo. Já no primeiro dia tinham sido lançadas pedras contra o parlamento, levando à utilização de gás lacrimogéneo e balas de borracha pela polícia.
Para Justino Menezes, superintendente-chefe da polícia timorense, nesse dia os manifestantes tinham sido 500, acrescentando que houve “atos criminosos”, nomeadamente danos em quatro viaturas.
Depois desse primeiro dia de manifestações, vários dos partidos recuaram no apoio à medida, passando a pedir a sua anulação. Isto levou o responsável policial a declarar à Lusa esta terça-feira: “hoje temos de encerrar a manifestação. Já não podem continuar porque o parlamento já emitiu uma declaração a cancelar a compra de viaturas”. Este acrescenta ainda que os protestos devem parar porque os deputados se queixam de não conseguir trabalhar devido ao barulho.
Sobre a repressão do protesto, José Ramos-Horta, presidente do país, afirmou que não haverá “nenhuma tolerância” para com vandalismo e apelou a que as manifestações sejam pacíficas, vincando: “quem cometer atos de violência ou de vandalismo deve sofrer as consequências”.
Xanana Gusmão, primeiro-ministro do país, por sua vez, ainda não comentou a situação. Mas o seu partido, o CNRT, de acordo com a RFI, junto com o seu parceiro de governo, o Partido Democrático, terão também desistido da compra.
No final do segundo dia de protestos, os estudantes recolheram o lixo das ruas e dançaram músicas tradicionais.
Os estudantes colocam também em cima da mesa questões como o fim das pensões vitalícias para deputados, alterações à lei da manifestação e mais financiamento para o desenvolvimento. À Lusa, Caetano da Cruz, apresentado como porta-voz dos manifestantes, falou sobre a insatisfação com o executivo no poder: “como podemos estar satisfeitos com um Governo cujas decisões são, em grande parte, quase inconstitucionais, e com deputados, desde a primeira até à sexta legislatura, que muitas vezes discutem mais os seus interesses particulares e partidários do que os interesses do povo”.
Sobre o caso da compra das viaturas, Moniz exige uma sessão do Parlamento que cancele efetivamente a compra, lembrando que há informações que esta já está em curso.
Outros estudantes como César João Batista dizem que estes deputados “não representam o povo timorense, não discutem os interesses legítimos do povo” e “aproveitam o cargo para atingir os seus direitos pessoais, de grupo e partidários, mas não se responsabilizam pelo sofrimento que o povo enfrenta”.
Timor-Leste é rico em gás e petróleo. Mais de 40% dos seus 1,4 milhões de habitantes vivem abaixo do limiar da pobreza, num país fortemente desigual. Nesta quarta-feira acontecerá o terceiro e último dos dias de protesto convocados pelos estudantes.