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“Se há crimes climáticos, então há criminosos”

Nesta entrevista, Mickaël Correia defende uma ecologia como movimento coletivo que chame os criminosos climáticos pelos nomes como alternativa à que diz que “somos todos responsáveis” e que “a mudança começa dentro nós”, essa “ecologia dos pequenos gestos” que dilui as responsabilidades.
Mickaël Correia. Foto das edições La Découvert.
Mickaël Correia. Foto das edições La Découvert.

Entrevistámos Mickaël Correia cujo último livro, Criminosos Climáticos, é um soco na ecologia burguesa do “somos todos responsáveis, cada pequeno gesto conta” mostrando o rosto daqueles que nos estão a fazer sufocar.

Jornalista formado nos meios de comunicação independentes, Mickaël Correia propõe uma ecologia das relações de forças que aponta responsáveis e propõe alavancas para agir que ultrapassem o desespero ou a complacência: duas posições geralmente assumidas pela parte abastada da população. Graças aos seus trabalhos, tomamos consciência que a revolução será ecológica ou não será e que a ecologia sem revolução e desmantelamento do capitalismo fóssil é apenas macramé.

Entrevista de Nicolas Framont e Hamana B.


Fala-nos um pouco de ti: és jornalista mas tens um percurso pouco convencional para a profissão…

De facto, não passei por nenhuma escola de jornalismo. Fiz uma formação universitária ancorada na agro-ecologia e no setor agro-florestal, de um movimento chamado a “escola de Montpellier” que começou nos anos 1980, com uma abordagem sistémica dos ecossistemas. Mas as minhas origens são de uma família operária de Portugal. A minha mãe é empregada de limpeza e o meu pai era operário têxtil. Sou o único da minha família a ter-se licenciado.

Interessei-me pela agro-ecologia por acaso. O curso de Biologia agradava-me, gostava de meter a cabeça nas plantas. Não cresci no campo, venho de um meio muito urbano e industrial. Talvez esses estudos tenham sido para mim uma escapatória. Comecei uma tese que não acabei, trabalhei algum tempo como trabalhador associativo na militância ecológica, depois comecei a escrever para o jornal independente CQFD. Apanhado pelo jogo da escrita jornalística, co-criei a revista Jef Klak com amigos. Pouco a pouco, comecei a militar nos meios ecologistas e empenhei-me na ZAD de Notre-Dame-des-Landes. Finalmente, tinha vontade de sair desses meios. Politicamente falando, havia algo no qual não me identificava. Comecei a escrever Uma história popular do futebol. (…) Tive necessidade de me afastar dos meios ecologistas porque havia algo que não me convinha do ponto de vista social. Trabalhar sobre o futebol, não era um tema “legítimo” nos meios militantes, era mesmo um tema tabu. Nos meios politizados, o futebol era entendido como vetor de alienação e não como algo que podia ser sinónimo de emancipação. Tinha necessidade voltar um pouco às origens… Entretanto comecei a escrevinhar para o Monde Diplo, para o Canard enchaîné, depois para o Mediapart que me contratou.

 

Falemos de Criminels climatiques publicado este ano. Porque escreveste este livro?

A ideia era voltar, depois deste parêntesis, à questão ecológica climática. Houve uma origem científica e uma origem política. O ponto de partida científico foi o estudo de 2017 co-produzido por uma grande organização não governamental britânica, que se chama o Carbon Disclosure Project, que começou a medir o gás com efeito de estufa à escala das empresas. Este estudo mostra que 100 multinacionais emitem 70% dos gases com efeito de estufa ao nível mundial. É um número bastante alucinante e que alterava muitas coisas, politicamente, no imaginário ecologista.

Quanto ao ponto de partida mais político foram as discussões que tinham com camaradas feministas, nomeadamente Aude Vidal. Ela acaba de escrever um livro que se chama Ecologie, individualisme et course au bonheur e que é uma crítica da ecologia individualista. Está editado nas edições Le Monde à l’Envers, uma pequena editora de Grenoble e critica a ecologia dos “colibris” [movimento ecologista impulsionado por Pierre Rabhi baseado numa “mudança interior prévia à mudança da sociedade, nota da redação] que se encontrava em muitos militantes de ocupações, toda essa cultura do ioga, do desenvolvimento pessoal que, para nós, matava, à época, as dinâmicas coletivas. Segundo o que defendíamos, a dominação desse desenvolvimento pessoal ecológico impedia a existência de um cultura das relações de força, da organização coletiva.

Este livro concentra-se sobre as três empresas mais poluentes: a Saudi Aramco (da Arábia Saudita), a China Energy (da China) e a Gazprom (da Rússia). São, respetivamente, o primeiro produtor de petróleo, o primeiro produtor de carvão e o primeiro produtor de gás do mundo.

Achava interessante, em termos jornalísticos, apontar a três inimigos, era um fio condutor interessante. Trata-se também de fazer o contraponto de toda esta ecologia sem inimigo, desta ecologia colibri na qual não se tenta apresentar as relações de dominação e toda a estrutura social que envolve a crise climática.

 

O teu livro rompe com a "ecologia dos pequenos gestos", a ecologia que dilui as responsabilidades dos mais ricos, rompe com o que por vezes encontramos na crítica anti-capitalista, que consiste em falar de grandes conceitos, grandes entidades mas não realmente as empresas. Aqui tratam-se os bois pelos nomes.

Neste livro, há efetivamente essa obsessão: Quem é Amine Nasser, o diretor-executivo da Aramco? Quem é Alex Miller, o diretor-executivo da Gazprom? Quais são as suas ligações com o clã Putin? E queria também dar prioridade ao discurso deles: quando Amine Nasser diz que o petróleo é indispensável à luta contra o aquecimento climático, quando o diretor-executivo da Total, Patrick Pouyanné, diz que, graças ao plástico, o petróleo tem dias bonitos à sua frente… Estas pessoas são de um cinismo total.

Em seguida, o que me interessa é descrever a materialidade: o que é a materialidade deste capitalismo fóssil? Quais são as suas infraestruturas? O que é um oleoduto? Uma central a carvão? O que são os complexos petroquímicos? O que isto representa concretamente num espaço dado? Tentei dar visibilidade a esta materialidade.

 

O que senti quando li este livro foi que estas empresas são muito pouco conhecidas. E fiz o paralelo com a BlackRock, a sociedade de gestão de ativos, que subitamente foi muito mediatizada aquando das mobilizações contra a reforma das pensões.

Acontece que estas empresas são públicas, ligadas a Estados. 70% dos rendimentos do Estado saudita são provenientes da Aramco. No caso da Gazprom, é o campo de Putin que arrecada este dinheiro. No da China Energy é o Partido Comunista Chinês que a comanda. A finalidade é mostrar esta ligação muito forte entre as empresas e os Estados. Um dos melhores exemplos que dou no livro é quando a Gazprom começa a construir uma plataforma petrolífera a norte do círculo ártico: militantes, nomeadamente a Greenpeace, tentaram alertar a opinião pública internacional para o facto de ser um absurdo ir perfurar num santuário de biodiversidade tão grande. A tentativa de embarcar na plataforma terminou com uma intervenção violenta das forças especiais, por ordem de Putin. Cerca de trinta ativistas cumpriram dois meses de prisão. A Greenpeace disse na época que foi o ato mais violento cometido contra eles desde o Rainbow Warrior em 1986, quando os serviços secretos franceses colocaram uma bomba no navio da Greenpeace enviado para impedir testes nucleares no Pacífico, causando a morte de um ativista. Isto mostra claramente como um Estado se coloca ao serviço de uma empresa e dos seus interesses.

Para além disso, para irrigar este capitalismo fóssil de capitais permanentemente, a indústria bancária investiu vários milhares de milhões de dólares entre o início dos acordos de Paris, em 2015, e 2019. O JPMorgan é o banco que mais financia este capitalismo fóssil. Curiosamente, este banco é um patrocinador oficial da COP26 e tinha um espaço de debate no seu interior chamado o “hub da resiliência”. Ia-se aí falar de “resiliência e responsabilidade dos consumidores”, nada daquilo que eles próprios fazem.

Há então um triângulo das Bermudas: os Estados, as empresas e os bancos. Pode-se fazer o paralelo com a França: a Total recebeu dois mil milhões de euros com os planos de recuperação do Estado francês e quase não paga impostos. O Estado francês apoia um projeto terrível no Uganda de abrir 400 novos poços na zona dos Grandes Lagos. Macron escreveu ao governo do Uganda para apoiar este projeto. O BNP Paribas é o banco que mais aumentou o apoio entre 2019 e 2020; a nível global, os bancos franceses aumentaram o seu financiamento às energias fósseis em média 19% ao ano entre 2016 e 2020. Fala-se muito dos sauditas mas é exatamente a mesma coisa que se passa em França com a Total.

 

Assim, o teu livro destrói a retórica daquela esquerda que diz que os Estados são mantidos reféns pelas finanças. Tu mostras que os dois se confundem.

O exemplo que dou disso é o da Gazprom. Gerhard Schröder foi chanceler alemão antes de ir trabalhar para esta empresa. Enquanto chanceler, apoiou a construção do Nord Stream, um grande gasoduto para abastecer toda a Europa com gás da Gazprom. Dois meses depois da sua derrota nas eleições legislativas, foi nomeado para a liderança do Conselho de Acompanhamento do consórcio que gere o Nord Stream. Não sei se é cinismo, a sua escolha explica-se provavelmente através de um leque de hipóteses. Aí se vê todo o soft power que a Gazprom desenvolveu na Alemanha. No meu livro, conto como a Gazprom veio em socorro de um clube de futebol muito popular do Ruhr.

Há um apego à Gazprom por isso, há o acordo do gás russo... tudo isto está interligado. A Gazprom foi esperta em salvar este clube de futebol do Ruhr porque uma parte das reservas de gás da Europa se concentra no Ruhr. E ao salvar este clube de futebol, a empresa revestiu-se de um verniz popular.

Há, obviamente, outros exemplos: as elites circulam entre o setor privado e a tecno-estrutura dos Estados. Há sempre aquele imaginário do Estado que tenta impor limites mas isso nem sempre é verdade. O melhor exemplo é o de Macron: desde o início da lei do clima, centenas de deputados propuseram emendas para inscrever na lei a tentativa de taxar as empresas que não respeitem uma certa quota de emissões de CO2… e isto foi censurado de facto pelo presidente da Assembleia Nacional: nem chegou a haver debate sobre esta proposta que, não obstante, é básica.

Um último exemplo a China Energy: vê-se que há forças de lóbi poderosas no seio do Estado chinês e que a China Energy impediu sempre a criação de um verdadeiro ministério da energia na China.

 

Há exemplos em França destas práticas de portas giratórias entre o setor da energia e a política?

Houve François Fillon [ex-primeiro-ministro de Sarkozy nomeado para o Conselho de Administração de um grupo petrolífero russo em 2021, nota da redação], ou ainda Jean-Baptiste Djebbari [que foi deputado e ministro dos Transportes de Macron até maio de 2022, nota da redação], que devia ter ido trabalhar para uma empresa de carros a hidrogénio mas isso foi recusado. Mas no campo de Macron não se fica por aqui: Brune Poirson [que tinha sido ministra da Ecologia e da Transição Inclusiva de Macron, nota da redação] foi para o grupo Accor Hotel como diretora de desenvolvimento sustentável, em pleno mandato! As empresas sabem jogar com isto.

 

o modos de funcionamento pouco conhecidos

Tomemos o exemplo de Davos: aí há dirigentes de empresas públicas e privadas e das instituições financeiras. Quando a Aramco fez uma grande operação financeira, toda a gente em Davos estava ao corrente. Nestes círculos, há uma sociabilidade burguesa e financeira sempre com a ideia de perpetuar o seu modelo de crescimento.

Quando The Chemistry Club, o maior grupo da indústria química, nomeou o diretor-executivo da Aramco para um prémio, foi um sinal muito forte enviado aos investidores.

 

Este termo “criminosos climáticostrouxe-te chatices?

Não foram palavras que tenha escolhido de forma anódina. Foi o investigador Christophe Bonneuil que começou a falar disso por volta de 2015: mostrou que se há crimes climáticos a serem cometidos, há pessoas que morrem por causa das situações climáticas extremas, então há criminosos.

Hoje a sabe-se que a Total estava ao corrente internamente, desde 1971, de que a sua atividade era nociva para o clima. As empresas do Big Oil norte-americanas sabiam-no desde 1965. Agora é a Agência Internacional da Energia – que está longe de ser um grupo ecologista – que diz “é preciso parar agora os projeto fósseis”. Todos os estudos dizem que é preciso deixar os recursos fósseis debaixo do solo se queremos sobreviver ao caos climático. Estas empresas sabem-no bem mas nem sequer começaram a diminuir a sua produção. São empresas que querem aumentar a sua produção em 20% até 2030. (…)

Há todo um imaginário que é preciso reconstruir: no movimento dos trabalhadores há esta ideia de que sofremos uma violência direta por parte das indústrias e organizamo-nos contra ela no nosso lugar de trabalho que é a fábrica. Atualmente é mais complicado organizar-se no trabalho mas há uma reflexão a fazer sobre as violências industriais. Elas operam também de forma indireta através da atmosfera. Esta violência cria uma condição comum: as ondas de calor que vivemos neste momento, os indianos e os paquistaneses já as viveram em maio. Há assim um internacionalismo que se pode criar.

Falas de solidariedade internacional: pode-se imaginar uma instituição internacional que levasse estes criminosos climáticos ao banco dos réus?

Sim, seria preciso isso, claro. Há processos em curso, por exemplo contra a Exxon nos EUA. Sim, é preciso julgar estes crimes e que haja reparações. Um tema que é frequentemente abordado nas Cimeiras do Clima é a questão da compensação dos países do Sul que sofrem um impacto mais forte das alterações climáticas. E a Europa faz tudo para que tal não aconteça. Ora, conseguimos agora atribuir um dado acontecimento climático às alterações climáticas. Sabe-se, por exemplo, que tal ciclone que aconteceu no Pacífico pode ser atribuído ao aquecimento climático. Num mundo ideal poder-se-ia assim dizer que a França, que está no 10 dos primeiros emissores históricos de CO2, ou que uma empresa como a Total, que emite tanto como a França, deveriam ser ligadas às catástrofes sofridas pelos países do Sul. E que cabe, portanto, a este Estado ou a essa empresa pagar as reparações.

 

É assim possível reconstituir a escala das responsabilidades. Algo muito diferente do discurso do “somos todos responsáveis”.

Sim, é uma cortina de fumo, é o mito liberal: é um discurso que permite aos verdadeiros responsáveis socializar os efeitos das suas escolhas. Os arquivos começam a ser abertos: vi os documentos de como a Total sabotou uma grande medida europeia e como essa perda nos fez ter um atraso de 30 anos na luta contra as alterações climáticas. Nessa época, o administrador-executivo da Total e o da Elf mandavam cartas a Alain Juppé, pressionavam o ministro da Indústria da época, Dominique Strauss-Kahn, para sabotar uma medida de taxação do carbono! Sabiam bem que se tratava de melhorar o seu negócio em detrimento de qualquer consideração ecológica. Podemos seguir as responsabilidades até aí.

Esta semana, o The Guardian desenterrou um memorando de 1977, enviado a Jimmy Carter (antigo presidente dos EUA) que diz “é preciso agir agora ou estamos a seguir em linha reta em direção a um catástrofe climática”: estava escrito preto no branco!

Havia já na época números. Há o mito de que depois da criação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climática da ONU o consenso se começa a solidificar e que é preciso difundir este conhecimento na população e em seguida nas elites e que assim o problema se resolverá.

 

O teu livro quebra esse mito segundo o qual “é preciso que as pessoas saibam” e que “é preciso interpelar os nossos dirigentes”…

Sim, o movimento climático está em vias de voltar a isso: a essa ideia de que é preciso prevenir as elites e que elas agirão. No entanto, agora sabemos que, desde a década de 1970, as nossas elites políticas e económicas já o sabiam. Já existiam relatórios científicos muito completos, ainda muito antes do IPCC, que solidificavam esse conhecimento!

 

Pode-se então afirmar-se que desde os anos 1970 todos os governos ocidentais sabiam o que se passava?

É ainda pior: havia mais voluntarismo político nos anos 1990 do que hoje! Na época, a Cimeira da Terro no Rio de Janeiro estava a ser preparada tal como toda uma série de conferências internacionais, uma dinâmica protagonizada pela França. Na época, Mitterrand afirmou ser necessário criar uma autoridade mundial que autorizasse subsidiariedades de soberania sobre a questão climática: uma superstrutura climática que pudesse impor aos Estados a redução do consumo de energia. A Europa também queria aplicar uma grande taxa carbono – o que a sabotou foi a Total – e até a administração de Bush pai estava de acordo!

Atualmente é impossível pensar nisso: regular o mercado. Agora estamos regulados pelo mercado! Todas as pessoas que seguiram este processo de perto diziam que eram medidas ambiciosas. Nos nossos dias parecem inimigináveis de tal forma está entranhado que é impossível impor limitações às empresas, que o que é preciso são incentivos… Pensar as limitações e a sobriedade é impossível: são palavras proibidas no campo político atual.

 

O teu livro não devia ser vendido junto com um ansiólitico? Porque a tua demonstração de que “eles sabem e continuam e querem aumentar a produção em 20% até 2030” é muito angustiante! Tanto mais que o pensamento ecologista dominante é um pensamento dos pequenos gestos e da responsabilidade cidadã!

Sim, o pensamento dominante é “não enviem mails engraçados” como nos dizia a antiga ministra da Transição Ecológica Amélie de Montchalin… Há três coisas em que refletir sobre as práticas de luta que queremos implementar.

A primeira questão é que, face a estas pessoas, é preciso usar a artilharia pesada. Sente-se isso no movimento climática: tergiversa-se menos, dada a violência da situação. Atualmente segue-se a via judicial. Há o processo contra a Exxon, processos contra a Total. Houve o primeiro processo por Greenwashing contra a Total… É lento mas é uma via a não esquecer.

A segunda questão é como literalmente criar um corpo contra isto. Como nós, enquanto potência coletiva, bloqueamos esta indústria. É o que se passa na Alemanha com o movimento Ende Gelände que organiza bloqueios muito importantes, a cada verão, da indústria do carbono, de oleodutos, de projetos em curso. A questão é saber como bloqueamos se bloqueiam estas indústrias com o seu corpo.

Por fim, há os discursos à volta da bifurcação. Bem, isso chateia-me um pouco porque são principalmente as elites que podem fazê-lo. São pessoas que têm condições materiais para desertar... Mas há algo que se passa no interior destas indústrias. Um estudo de novembro mostra que perto de 40% Os trabalhadores no seio das indústrias fósseis quer deixá-las. Sabem que o que fazem é merda. Quando os refinadores de Grandpuits entraram em greve foram os primeiros a dizer “trabalhamos aqui para encher o frigorífico mas somos os primeiros a sofrer da poluição desta indústria”.

 

Pensas que os trabalhadores destas empresas poderão ser aliados?

Sim, podem ser uma alavanca de transformação a partir de dentro. Vemo-lo muito na indústria aeronáutica: em Toulouse, constituíram-se coletivos de trabalhadores, nomeadamente durante a Covid. Tomaram consciência que produzir tantos aviões não servia para nada quando tinham um saber-fazer incrível. Estas mulheres e homens passaram a dizer que podiam também construir autocarros, eólicas… Os de Grandpuits refletem sobre como reconverter a sua refinaria. Estão num meio rural, em Seine-et-Marne, e dizem que a sua refinaria poderia tornar-se um local onde se construiria material de isolamento para ajudar o seu território a avançar nesse aspeto.

 

Estamos aí num cruzamento entre o movimento dos trabalhadores e o movimento ecologista porque a reapropriação do aparelho produtivo é uma reivindicação ancestral do primeiro!

Sim, há um cruzamento a fazer entre o movimento ecologista e o movimento do trabalho.

Nas práticas de luta podemos fazer tudo isso. Há também grandes marchas, ações simbólicas como o bloqueio da assembleia geral da Total em maio passado. Correu muito bem, vimos a cara dos acionistas da Total, a sua violência, a sua virulência. “O meu neto trabalha no petróleo, idiota!” gritou um dos acionistas para os ativistas. É uma frase reveladora! Mostra há uma reprodução social deste modelo. E mostra que o prisma geracional para pensar a questão ecologista por si só não funciona.

 

Mas os dirigentes não pensam nas consequências, estão em negação?

Sim, é o imaginário de Elon Musk: a ideia de que terão sempre dinheiro para sair, para ir para Marte… Isto já é o que se passa em algumas metrópoles como Miami por exemplo. Os ricos já estão nos seus bairros protegidos da subida das águas e das intempéries. Esta segregação dos ricos é muito antiga: já na Paris do século XIX os burgueses viviam a ocidente para evitar o fumo das fábricas e os proletários a leste.

Sobre a questão do imaginário é preciso pensar num ecologia do encerramento. O que se vai fazer com as centrais nucleares, os oleodutos, as refinarias? Como se faz o luto social de uma central a carvão? Porque não há um único candidato presidencial que diga “a Total é a empresa mais poluente de França (e de uma parte do mundo), aqui está o meu projeto de desmantelamento, de socialização, de nacionalização?” Não há quem tenha tomado esta posição. A questão foi colocada a Sandrine Rousseau e Yannick Jadot que não estavam preparados para ela. Ora, o que fazemos desta indústria e com os seus trabalhadores é importante para ter um imaginário coerente.

O outro imaginário, o da sobriedade, é bastante ardiloso. Para falar dele, é necessário voltar ao movimento dos trabalhadores e às reivindicações sobre a qualidade de vida. A sobriedade é viver numa habitação digna e viver do seu trabalho. Sem viver no luxo mas viver bem. Todas as grandes reivindicações dos trabalhadores se baseiam nisto. Há quem se tenha deixado prender pelo imaginário da sobriedade de Pierre Rabhi [um agricultor francês que defendia crenças esotéricas e uma das figuras da ideia do “regresso à terra”], esse imaginário da ruralidade. Venho de um bairro popular, o trabalho duro do campo não faz inveja a ninguém. E também é preciso ter recursos materiais para partir para o campo… Há outros imaginários para além desse…

 

Isso é muito interessante, diz-se que continua a haver trabalho ideológico a fazer porque a ecologia continua impregnada pela ecologia burguesa do desenvolvimento pessoal…

Sim, nos bairros populares, a ecologia continua a ser um marcador de classe, um marcador burguês. Há um trabalho verdadeiro a fazer. Quando estive em Roubaix, participei naquele período em que Lille era capital da cultura. Dizíamos que era preciso romper verdadeiramente com o discurso segundo o qual “vamos levar cultura aos bairros populares”. Há uma cultura própria dos bairros populares. Levar a ecologia aos bairro populares não serve de nada; há uma ecologia inerente às classes populares. Eu passei a minha infância a praticar entreajuda, trabalhos de isolamento, reparação de viaturas… Em Roubaix, há uma verdadeira cultura da garagem de rua por exemplo. É uma forma real de lutar contra a obsolescência programa, reparar as máquinas… Aqui que os ecologistas formalizaram como SEL (sistemas de trocas locais) era o que já fazíamos! Ajudas-me a colocar o papel de parede e em troca vens comer cá a casa. E o jardim operário é uma reivindicação que data do século XIX. Há assim toda uma ecologia popular a deixar estar como está e que não precisa de contribuições do exterior. Os 1% mais ricos em França poluem mais do que metade dos franceses, então para quê ir as bairros populares dizer “reduzam a vossa pegada de carbono”?

Para concluir, é preciso sair da angústia – falo disso no fim do livro – e para o fazer é preciso sair da ideia de que o clima seria uma ameaça exterior como no filme Don’t look up. Mas não, a questão climática é inerente à estrutura social. As nossas civilizações baseadas no imaginário da abundância – que é um imaginário colonial – são o problema. É assim uma questão social: 63 multimilionários em França têm um impacto de carbono equivalente a metade dos franceses e isso mostra que quando se trabalha para mais igualdade social participamos na mudança do status quo climático.

Há alianças a fazer: quando a CGT milita pelas 32 horas é para trabalhar menos mas também para poluir menos. No Reino Unido um estudo mostrou que trabalhar menos um dia por semana desde agora até 2025 equivaleria a acabar com todo o parque automóvel privado. A reivindicação é assim trabalhar menos para viver melhor e poluir menos.

É também uma questão feminista: os estudos mostram que os homens emitem mais 16% de gases com efeito de estufa que as mulheres com os seus sinais de virilidade: a cultura do carro e da alimentação cheia de carne. Em caso de catástrofe climática, as mulheres tem mais probabilidade de morrer… Lutar por mais igualmente entre os géneros e as minorias sexuais também é participar na luta contra este status quo climático. Isto vale também para o combate LGBT: nos EUA, 40% das pessoas sem abrigo consideram-se LGBT+. E esta é uma das populações mais vulneráveis às catástrofes climáticas…

E é também uma questão colonial: quando faz os seus projetos nojentos, inscreve-se numa lógica colonial. Imaginemos que uma companhia do Uganda vinha construir um oleoduto de 1.400 quilómetros de extensão no parque nacional de Ecrins, seria completamente inaceitável!

Por fim a questão antifascista: o IPCC fez modelos societais no seu último relatório. Tomaram consciência que o modelo atual vai levar ao aumento dos conflitos regionais e a um acréscimo do poder dos nacionalismos. E é este o modelo que vai provocar o aquecimento que vai fazer a vida na terra um inferno. Vimos a posição de Trump, vemos a posição de Le Pen que quer arrancar as eólicas. O discurso da extrema-direita sobre o clima anda próximo do seu discurso sobre os minaretes. As eólicas visibilizam as nossas necessidades energéticas e a nossa dependência e isso eles não o querem ver. A luta contra o aquecimento global é assim uma luta antifascista.


Texto publicado originalmente na revista Frustration.

Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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