Ao fim do primeiro mês de primárias do partido democrata, já se começam a ver alguns sinais de mudança em comparação com as eleições de há quatro anos. O caucus do Iowa e as eleições no New Hampshire mostraram um Bernie Sanders claramente mais reforçado do que em 2016 e apresentaram ao mundo Pete Buttigieg, um jovem centrista que prometia liderar ala direita dos democratas, mas que acabou derrotado e está fora da corrida. Sem surpresas, e com apenas 155 dos cerca de 4000 delegados eleitos, já ficou claro que a verdadeira decisão será entre Bernie Sanders e Joe Biden.
A vitória no Nevada
As eleições no Nevada foram o primeiro grande resultado de Bernie Sanders nas primárias de 2020. Num estado muito conservador, onde há quatro anos Bernie perdera para Hilary Clinton, o combate adivinhava-se difícil. Desta vez com 2 candidatos fortes à direita (Biden e Buttigieg) e com a concorrência à esquerda de Elizabeth Warren, era expectável que a divisão dos votos não desse uma vitória significativa a nenhum dos candidatos. Porém, Bernie conseguiu 24 dos 36 delegados, o mesmo número que Hilary há quatro anos, e foi o vencedor da noite.
A vitória e o crescimento de Bernie no Nevada deveu-se principalmente à capacidade de organização das comunidades latino-americanas, que representam uma grande parte do eleitorado daquele estado. Com uma campanha porta a porta baseada em voluntários e uma mensagem simples em torno de temas como a saúde, educação, imigração, anti-guerra, etc, Bernie foi capaz de convencer milhares de americanos, descendentes de imigração latina, que vivem em situações difíceis nas margens das grandes cidades. Ao mesmo tempo, esta consistência no discurso e no percurso de Bernie Sanders foi também decisiva para ganhar a confiança de muita população branca mais idosa. Por exemplo, no Caucus de Carson City, capital do Nevada, muitas pessoas participavam pela primeira vez num processo de primárias. Motivadas pelas propostas e pela consistência de Bernie Sanders, foram às urnas para exigir uma mudança no partido democrata.
As eleições do Nevada só elegeram 36 delegados, mas são um excelente laboratório para o que se poderá vir a passar em outros estados com uma percentagem significativa de eleitorado latino-descente, como a Califórnia e o Texas.
A afirmação de Biden enquanto candidato da direita
As eleições na Carolina do Sul eram o teste de fogo para Joe Biden. Com Pete Buttigieg em alta após as eleições nos primeiros estados, Biden precisava de se afirmar como o candidato da ala mais direita dentro do partido democrata. Nada melhor que o estado onde Hilary ganhara com 73% nas primárias de 2016 para clarificar a representação deste espaço. Na Carolina do Sul, foi decisiva a capacidade de Biden em penetrar no eleitorado afro-americano (muito representado neste estado), principalmente devido à perceção pública da sua ligação a Obama. Já Pete Buttigieg e Tom Steyer perceberam que o sonho de se tornarem os candidatos da direita ficou adiado para 2024 e que agora era altura de minimizar danos, sair de cena e apoiar Biden.
As eleições da Carolina do Sul foram também apresentadas por alguns media como uma derrota estrondosa de Sanders. Porém, longe de ter sido um bom resultado, esta interpretação é pouco rigorosa. A verdade é que, com mais candidatos à direita e à esquerda do que há 4 anos, Sanders obteve mais 10.000 votos e mais 1 delegado do que em 2016. Isso não foi suficiente para evitar que a Carolina do Sul continuasse a ser um dos estados mais à direita dentro do partido democrata, mas deu para reforçar a posição de Sanders a nível nacional e mantê-lo à frente da corrida.
Tudo pronto para a “Super Tuesday”
Esta terça-feira será dia de “Super Tuesday”, em que 15 estados irão a votos para eleger cerca de 1300 delegados. É o primeiro dia grande destas eleições primárias, que ajudará a definir o candidato democrata à Casa Branca. Numa eleição até aqui disputada entre Sanders e Biden, este será também o primeiro dia em que o milionário Michael Bloomberg vai a votos (já que apresentou a sua candidatura mais tarde). Bloomberg pode complicar as contas à direita, numa altura em que parece haver uma onda de desistências a favor de Biden, com Buttigieg, Steyer e Klobuchar a desistirem da corrida nas vésperas da “Super Tuesday”.

À esquerda, Bernie Sanders lidera a corrida e tem fortes possibilidades de vencer na Califórnia e no Texas, os dois estados mais importantes da Super Tuesday e onde perdeu para Hilary em 2016. Se tal acontecer, Bernie consolidar-se-á como o candidato mais votado nas primárias, criando uma dinâmica nova para o que resta da campanha. Para ganhar estes dois estados, Sanders está a seguir a estratégia que utilizou no Nevada: campanha porta a porta, mensagens simples e capacidade de envolver o eleitorado latino-americana. No domingo, num comício em San Jose, na Califórnia, participaram ativistas destas comunidades latinas em apoio a Bernie Sanders e as instruções de voto foram dadas em inglês e em espanhol. Bernie voltou à mensagem simples: sistema de saúde público, educação gratuita, terminar a política de guerra, combate às alterações climáticas. Está dado o mote para a Super Tuesday.