Sanders e Biden enfrentam teste decisivo nas primárias

03 de março 2020 - 12:07

O que esperar desta “Super Terça-Feira” das primárias democratas à corrida presidencial dos EUA? Sanders lidera à esquerda, enquanto à direita Biden recolhe apoio dos candidatos desistentes e Bloomberg estreia-se nas urnas. Artigo de Miguel Heleno, na Califórnia.

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Comício de Bernie Sanders em San Diego
Comício de Bernie Sanders em San Diego. Foto publicada na página de Bernie Sanders no Facebook.

Ao fim do primeiro mês de primárias do partido democrata, já se começam a ver alguns sinais de mudança em comparação com as eleições de há quatro anos. O caucus do Iowa e as eleições no New Hampshire mostraram um Bernie Sanders claramente mais reforçado do que em 2016 e apresentaram ao mundo Pete Buttigieg, um jovem centrista que prometia liderar ala direita dos democratas, mas que acabou derrotado e está fora da corrida.  Sem surpresas, e com apenas 155 dos cerca de 4000 delegados eleitos, já ficou claro que a verdadeira decisão será entre Bernie Sanders e Joe Biden.

A vitória no Nevada

As eleições no Nevada foram o primeiro grande resultado de Bernie Sanders nas primárias de 2020. Num estado muito conservador, onde há quatro anos Bernie perdera para Hilary Clinton, o combate adivinhava-se difícil. Desta vez com 2 candidatos fortes à direita (Biden e Buttigieg) e com a concorrência à esquerda de Elizabeth Warren, era expectável que a divisão dos votos não desse uma vitória significativa a nenhum dos candidatos. Porém, Bernie conseguiu 24 dos 36 delegados, o mesmo número que Hilary há quatro anos, e foi o vencedor da noite.

A vitória e o crescimento de Bernie no Nevada deveu-se principalmente à capacidade de organização das comunidades latino-americanas, que representam uma grande parte do eleitorado daquele estado. Com uma campanha porta a porta baseada em voluntários e uma mensagem simples em torno de temas como a saúde, educação, imigração, anti-guerra, etc, Bernie foi capaz de convencer milhares de americanos, descendentes de imigração latina, que vivem em situações difíceis nas margens das grandes cidades. Ao mesmo tempo, esta consistência no discurso e no percurso de Bernie Sanders foi também decisiva para ganhar a confiança de muita população branca mais idosa. Por exemplo, no Caucus de Carson City, capital do Nevada, muitas pessoas participavam pela primeira vez num processo de primárias. Motivadas pelas propostas e pela consistência de Bernie Sanders, foram às urnas para exigir uma mudança no partido democrata.

As eleições do Nevada só elegeram 36 delegados, mas são um excelente laboratório para o que se poderá vir a passar em outros estados com uma percentagem significativa de eleitorado latino-descente, como a Califórnia e o Texas.

A afirmação de Biden enquanto candidato da direita

As eleições na Carolina do Sul eram o teste de fogo para Joe Biden. Com Pete Buttigieg em alta após as eleições nos primeiros estados, Biden precisava de se afirmar como o candidato da ala mais direita dentro do partido democrata. Nada melhor que o estado onde Hilary ganhara com 73% nas primárias de 2016 para clarificar a representação deste espaço. Na Carolina do Sul, foi decisiva a capacidade de Biden em penetrar no eleitorado afro-americano (muito representado neste estado), principalmente devido à perceção pública da sua ligação a Obama. Já Pete Buttigieg e Tom Steyer perceberam que o sonho de se tornarem os candidatos da direita ficou adiado para 2024 e que agora era altura de minimizar danos, sair de cena e apoiar Biden.

As eleições da Carolina do Sul foram também apresentadas por alguns media como uma derrota estrondosa de Sanders. Porém, longe de ter sido um bom resultado, esta interpretação é pouco rigorosa. A verdade é que, com mais candidatos à direita e à esquerda do que há 4 anos, Sanders obteve mais 10.000 votos e mais 1 delegado do que em 2016. Isso não foi suficiente para evitar que a Carolina do Sul continuasse a ser um dos estados mais à direita dentro do partido democrata, mas deu para reforçar a posição de Sanders a nível nacional e mantê-lo à frente da corrida.

Tudo pronto para a “Super Tuesday”

Esta terça-feira será dia de “Super Tuesday”, em que 15 estados irão a votos para eleger cerca de 1300 delegados. É o primeiro dia grande destas eleições primárias, que ajudará a definir o candidato democrata à Casa Branca. Numa eleição até aqui disputada entre Sanders e Biden, este será também o primeiro dia em que o milionário Michael Bloomberg vai a votos (já que apresentou a sua candidatura mais tarde). Bloomberg pode complicar as contas à direita, numa altura em que parece haver uma onda de desistências a favor de Biden, com Buttigieg, Steyer e Klobuchar a desistirem da corrida nas vésperas da “Super Tuesday”.

À esquerda, Bernie Sanders lidera a corrida e tem fortes possibilidades de vencer na Califórnia e no Texas, os dois estados mais importantes da Super Tuesday e onde perdeu para Hilary em 2016. Se tal acontecer, Bernie consolidar-se-á como o candidato mais votado nas primárias, criando uma dinâmica nova para o que resta da campanha. Para ganhar estes dois estados, Sanders está a seguir a estratégia que utilizou no Nevada: campanha porta a porta, mensagens simples e capacidade de envolver o eleitorado latino-americana. No domingo, num comício em San Jose, na Califórnia, participaram ativistas destas comunidades latinas em apoio a Bernie Sanders e as instruções de voto foram dadas em inglês e em espanhol. Bernie voltou à mensagem simples: sistema de saúde público, educação gratuita, terminar a política de guerra, combate às alterações climáticas. Está dado o mote para a Super Tuesday.