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Saiba tudo sobre o IndieLisboa 2017

O esquerda.net faz uma antevisão do festival internacional de cinema independente IndieLisboa com uma entrevista a Mafalda Melo, uma das suas organizadoras. O festival irá decorrer de 3 a 14 de maio. Por Joana Louçã.
Crianças numa sala de aula com uma barra preta sobre os olhos, exceto uma, fotografia a preto e branco.
Uma imagem do filme "Karl Marx City", um dos filmes selecionados para uma nova categoria do festival, "Alt-Cinema", que reflete sobre a situação política mundial.

O esquerda.net entrevista Mafalda Melo, a coordenadora da programação de longas do IndieLisboa, sobre quais são os filmes a não perder e o que há de novo nesta edição, com destaque para uma nova categoria de filmes sobre a situação política mundial, o "Alt-Cinema". O Indie começa hoje e vai decorrer em Lisboa até dia 13 de maio, na Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cineteatro Capitólio e Cinemateca Portuguesa.

O Indie vai na sua 14ª edição. Desde 2004, que mudanças sentem que há no cinema independente, na vossa escolha de filmes e de foco do festival?

O IndieLisboa tem crescido de forma sustentada e chegamos a esta 14ª edição com a sensação de termos feito um bom trabalho na promoção do cinema independente, dando especial relevo ao cinema português. Ao longo destes anos temos feito questão de apostar em realizadores cuja linguagem se tem destacado, pela diferença e marca própria, e cujo trabalho se mostre coerente e continuado. Desde a prmeira edição que temos trabalhado para construir no festival um espaço de descoberta para o público que nos visita, trazendo obras com as quais o público português não teria contacto de outra forma.

O que destacas da programação deste ano?

Imperdível serão, necessariamente, as retrospetivas do trabalho de Jem Cohen e Paul Vecchiali, os dois cineastas homenageados na secção Herói Independente. Não só porque a seleção permite ter uma visão global sobre a carreira e trabalho dos cienastas, mas também porque grande partes destes filmes ainda não passaram no nosso país. As competições nacionais e internacionais são também imperdíveis, pela mostra do novo cinema que se faz pelo mundo e em Portugal.

O cinema português vive um momento brilhante. É pena que o nosso governo tarde em acompanhar este crescimento com um plano de financiamento mais justo e transparente - nomeadamente na questão que diz respeito aos concursos do ICA e à polémica em torno dos júris.

Num universo mais político, destaco o filme da Susana Sousa Dias, Luz Obscura, que volta a mergulhar nos arquivos da PIDE olhando as histórias de comunistas presos pelo regime a partir dos relatos dos seus familiares, o I Am Not Your Negro, documentário essencial sobre a história do livro de James Baldwin dedicado a Medgar Evers, Malcolm X e Martin Luther King, e Rosas de Ermera, um filme que relata uma curiosa história familiar de Zeca Afonso. [A programação por dia e secção pode consultada aqui]

O festival faz uma clara aposta no cinema nacional, em contraste com a precariedade estrutural do setor. Por outro lado, a vossa programação crescente dedicada aos mais novos no IndieJúnior demonstra a vossa preocupação com a formação de público, que está longe de ser uma estratégia nacional. De que forma achas que o festival e as suas escolhas políticas de programação têm tido um impacto no país e que críticas apontas à política estatal para a cultura em Portugal?

O cinema português vive um momento brilhante. Primeiro pela qualidade dos filmes que têm sido feitos, e creio que isso fica claro não só na nossa competição nacional mas também na de outros festivais. Segundo, pelos vários prémios que realizadores portugueses têm trazido da Europa. Dois Ursos de Ouro em dois festivais de Berlim seguidos! É pena que o nosso governo tarde em acompanhar este crescimento com um plano de financiamento mais justo e transparente - nomeadamente na questão que diz respeito aos concursos do ICA e à polémica em torno dos júris.

A questão da formação de público é para nós essencial - não só no que diz respeito às crianças (para as quais trabalhamos activamente no IndieJúnior) mas também os jovens, através do Cineclube IndieLisboa, um plano que mantemos activo o ano inteiro, trabalhando com escolas e universidades. Estamos a trabalhar para o futuro do festival, do cinema e da cultura.

O cinema, a arte estão também ao serviço da informação e da educação, no sentido em que abrem os horizontes, além de serem infinitas fontes de beleza e conhecimento. A programação reflete, também em termos políticos, a atualidade. Cabe a cada um estar atento à mesma.

O cinema, a arte estão também ao serviço da informação e da educação, no sentido em que abrem os horizontes, além de serem infinitas fontes de beleza e conhecimento. A programação reflete, também em termos políticos, a atualidade.

Este ano têm uma subsecção dedicada à reflexão sobre a situação política mundial, o "Alt-Cinema", quais foram as razões por detrás da escolha destes filmes específicos?

A secção Alt-Cinema pretende ser um espaço de reflexão sobre a sociedade, alicerçada em filmes, que pela sua vertente informativa e documental, possam abrir novas linhas de pensamento para questões históricas e sociais que marquem a sociedade contemporânea.

Creio que a selecção de filmes que fizemos fala por si mesma: Ghost Hunting, com um retrato muito próximo sobre as experiências de ex-presos políticos do regime israelita; I Pay For Your Story a trazer-nos uma abordagem impiedosa sobre os efeitos do capitalismo nas cidades, Karl Marx City que levanta um conjunto de questões sobre a segurança e o controle de informação por estruturas governamentais e o (imperdível) Uma Memória em Três Atos, uma das raras hipóteses para vermos a versão moçambicana sobre a colonialização portuguesa.

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Sobre o/a autor(a)

Doutorada em sociologia da infância
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