Síria: Militarização, intervenção militar e ausência de estratégia

02 de dezembro 2011 - 21:43

O maior dilema estratégico na Síria é a forma de combinar a mobilização pacífica das massas com o aumento da oposição do exército e o confronto armado, sem o qual não se conseguirá derrotar nunca as forças do regime, nem este cairá. Artigo de Gilbert Achcar.

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Pude assistir ao encontro da oposição síria que se realizou nos dias 8 e 9 de Outubro na Suécia, numa localidade perto da capital, Estocolmo. Um conjunto de homens e de mulheres activistas, que actua na Síria e no estrangeiro, juntou-se a importantes personalidades do Comité de Coordenação Sírio (vindos da Síria para a reunião), na presença do membro mais importante do Conselho Nacional Sírio (CNS), o seu presidente, Burhan Ghalioun.

Os organizadores da conferência tinham-me convidado para falar sobre o tema da intervenção militar estrangeira na actual situação síria. O meu contributo foi acolhido com interesse e pediram-me que o pusesses por escrito. Prometi fazê-lo, mas uma agenda preenchida impedira-me de cumprir essa promessa até à data.

Depois, nestes últimos tempos, caiu-nos em cima a avalancha de acontecimentos passados no cenário sírio, bem como o agravamento do tom da discussão acerca da intervenção militar e da militarização da crise, que foram os dois temas da minha comunicação na Suécia. Estes desenvolvimentos levaram-me a desejar cumprir a minha promessa antes que fosse tarde demais. Por isso, elaborarei aqui os pontos de vista que expressei na Suécia, actualizando-os com comentários sobre os factos mais recentes relacionados com o assunto.

O meu contributo para a conferência de Outubro foi precedido de uma pergunta que um dos assistentes dirigiu a Burhan Ghalioun, acerca da sua posição, ou da posição do CNS, face aos pedidos de intervenção militar na Síria. Ghalioun respondeu que esse assunto estava fora de discussão porque nesse momento não havia nenhum país que desejasse uma intervenção militar na Síria e, portanto, «só quando nos virmos perante essa conjuntura é que adoptaremos a posição adequada».

Comecei a falar fazendo finca-pé no facto de a oposição síria ter de definir uma posição clara sobre a questão da intervenção militar estrangeira, por ser evidente que essa posição seria de grande influência para determinar se uma intervenção como essa deveria ou não realizar-se. As reticências que vemos hoje por parte dos estados ocidentais e regionais a respeito de uma intervenção directa poderiam mudar amanhã se fossem incrementados os pedidos de intervenção por parte da oposição síria.

Foi a petição de uma intervenção militar internacional, feita no início de Março pelo Conselho Nacional Líbio, que preparou o caminho para um pedido semelhante por parte da Liga Árabe e para a consequente resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Se a oposição líbia se tivesse oposto a uma intervenção militar directa em qualquer uma das suas formas (em vez de se opor apenas a uma intervenção no terreno, solicitando o apoio aéreo que acabou por ser feito), a Liga Árabe não teria pedido a intervenção, nem uma acção desse tipo teria recebido a sanção das Nações Unidas.

A Líbia e os custos da intervenção militar estrangeira

Na minha comunicação, tive em conta as lições da experiência líbia, por ter sido um dos participantes nas discussões sobre a mesma. Tal como a imensa maioria do povo árabe, expressei a minha compreensão pelo facto de os rebeldes líbios terem sido obrigados a apelar ao apoio exterior, de modo a evitarem o enorme massacre que poderia verificar-se se as forças de Khadafi conseguissem ocupar os baluartes do levantamento em Bengasi, Misrata e outras regiões, uma vez que, naquele momento, os rebeldes careciam de meios militares para poder repelir um ataque desse tipo.

Atribuímos toda a culpa a Khadafi por ter criado as condições para uma intervenção exterior, e alertámos os rebeldes líbios contra qualquer ilusão acerca das intenções das forças militares que intervinham ostensivamente em seu nome. Com efeito, a intervenção militar estrangeira em território líbio teve custos elevados que podem resumir-se da seguinte forma:

* O preço político imediato da intervenção estrangeira permitiu que Khadafi assumisse representar de alguma forma a soberania nacional e acusasse os rebeldes de serem agentes do imperialismo ocidental. Isso teve influência num segmento, embora limitado, da sociedade líbia.

* O preço político mais elevado que se pagou foi as potências interventoras terem feito o possível por sequestrar a tomada de decisões dos rebeldes líbios. O fim dos ataques contra os baluartes do levantamento e a impossibilidade de Khadafi utilizar o seu potencial aéreo não os detiveram. Foram muito mais além, destruindo as forças aéreas líbias (os estados ocidentais, especialmente a França e a Grã-Bretanha, estavam impacientes para vender armas à Líbia pós-Khadafi), bem como uma parte importante da infra-estrutura líbia e dos edifícios oficiais (os estados ocidentais, em conjunto com a Turquia, começaram a competir pelo mercado da reconstrução líbia mesmo antes de o regime de Khadafi ter caído). As potências ocidentais recusaram-se a fornecer aos rebeldes líbios as armas que insistentemente estes lhes pediam para, eles próprios, poderem libertar o país, sem uma intervenção exterior directa. Só lhe entregaram as armas (o Qatar e a França) nas últimas fases da batalha.

Estas limitadas contribuições de armas aceleraram a queda do regime de Khadafi depois de há muito tempo se ter chegado a um impasse.

* O objectivo das potências ocidentais era impor-se como principais participantes na guerra contra o regime de Khadafi para, desta forma, poderem controlar tudo. Queriam ser elas a traçar a rota da Líbia pós-Khadafi e chegaram mesmo a criar um comité internacional com este objectivo. Durante algum tempo tentaram também chegar a um acordo com a família de Khadafi, à revelia do Conselho Nacional Líbio. Como consequência, o destino da Líbia estava a ser traçado mais em Washington, Londres, Paris e Doha que na própria Líbia antes da libertação de Tripoli. Sem margem para dúvidas, esse desejo dos estados ocidentais de controlar a situação na Líbia depois de Khadafi era bastante ilusória, como receávamos. No entanto, provocou na Líbia um caos enorme, agravado pela intromissão exterior, tanto ocidental como regional.

Síria: entre a Líbia e o Egipto

No entanto, a teoria que prevalece actualmente é a de que a intervenção estrangeira impediu o esmagamento da revolta líbia que, a ter ocorrido, teria posto fim ao processo revolucionário em toda a região árabe e de que a intervenção permitiu que os rebeldes líbios libertassem o seu país das garras de um ditador brutal, com um custo ínfimo comparativamente ao preço pago pelos iraquianos na sua libertação do regime tirânico de Sadam Hussein, através de uma invasão estrangeira. A ocupação do Iraque chega finalmente ao seu termo após oito anos miseráveis, durante os quais o país chegou ao fundo do poço e pagou um preço material e humano exorbitante, enfrentando agora um futuro negro e ameaçador.

O resultado deste contraste entre a Líbia e o Iraque é o facto de, enquanto o exemplo iraquiano era encarado com enorme repulsa pelos sírios, o exemplo líbio infundiu em muitos o desejo de o emularem. Isto reflectiu-se no aumento dos pedidos de intervenção militar internacional após a libertação de Tripoli, a ponto de se ter denominado a mobilização de 28 de Outubro «A sexta-feira da Zona de Exclusão Aérea».

No entanto, engana-se profundamente quem imagina que o cenário líbio poderia repetir-se na Síria. A oposição síria tem de ter consciência de que permitir uma intervenção militar estrangeira na Síria (face a uma intervenção indirecta através do fornecimento de armas) terá custos muito mais elevados que no caso da Líbia, por várias razões, a mais importante das quais pode ser resumida da seguinte forma:

A situação militar da Síria é muito diferente daquela que existia na Líbia. Este país caracteriza-se pela existência de centros urbanos frequentemente separados por franjas de território quase desértico. Nestas circunstâncias, o potencial aéreo é essencial, sobretudo porque as áreas controladas pelos rebeldes líbios estavam quase vazias de partidários do regime. Por isso, o regime recorreu ao potencial aéreo na sua ofensiva contra-revolucionária, e o apoio aéreo exterior foi, logicamente, bastante eficaz para proteger as áreas rebeldes e limitar o movimento das forças do regime fora das zonas habitadas, tudo isso com um custo relativamente limitado para os civis. A densidade populacional síria, pelo contrário, é muito superior à da Líbia, e o mesmo acontece com a mistura de opositores e partidários do regime, que impede o regime sírio de recorrer extensivamente aos ataques aéreos. Ou seja, uma zona de exclusão aérea na Síria teria benefícios muito limitados, se permanecesse como zona de exclusão aérea no sentido mais estrito, ou teria consequências devastadoras em número de mortes e destruição, se adoptasse a forma de uma guerra aérea total contra o regime, como aconteceu na Líbia. Uma vez que as capacidades defensivas do exército sírio são muito mais importantes que as capacidades defensivas das forças de Khadafi, o grau e intensidade dos combates seria muito maior na Síria, não falando já do facto de o regime sírio não estar tão isolado como estava o de Khadafi e de qualquer intervenção militar exterior na Síria poder, por isso, incendiar toda a região, transformando-a num barril de pólvora.

Enquanto isso, nenhuma cidade síria enfrenta neste momento o perigo de um massacre em grande escala como aconteceu em Bengasi, ou mesmo um destino comparável ao da cidade síria de Hama, em 1982, quando o regime de Asad a conseguiu isolar do resto do país.

A força da revolta síria reside na sua enorme extensão e no facto de os rebeldes não terem cometido o erro de se levantarem em armas, o que, a ter acontecido, teria enfraquecido em grande medida o momentum do levantamento popular e teria permitido ao regime eliminá-lo mais facilmente.

Os rebeldes sírios confiaram até agora em formas de luta como os protestos nocturnos e as manifestações de sexta-feira (não por razões religiosas, mas porque a sexta-feira é o dia de descanso oficial e é difícil o regime impedir que as pessoas se reúnam nas mesquitas) para evitar que a maior parte dos participantes fique exposta. Este tipo de manifestações de tipo guerrilha é o método adequado quando um levantamento popular enfrenta uma repressão brutal por parte de uma força militar esmagadora.

Ao contrário do regime caricatural de Khadafi, que fez há anos uma viragem de modo a estabelecer uma forte cooperação económica, de segurança e de espionagem com diversos estados ocidentais, o regime sírio, aos olhos dos Estados Unidos, é ainda um obstáculo aos seus projectos na região, devido à sua aliança com o Irão e com o Hesbolah e ao apoio dado a uma vasta gama de forças palestinianas contrárias à capitulação defendida pelos Estados Unidos.

Reconhecer esta realidade não significa de modo algum que nos devamos abster de apoiar as exigências de democracia e de direitos humanos do povo, quer na Síria, quer no Irão. No entanto, é necessário ter em conta o modo de actuação da oposição iraniana, que rejeita totalmente a intervenção militar estrangeira nos assuntos do seu país e defende o seu direito a desenvolver energia nuclear perante as ameaças israelitas e norte-americanas que tentam impedi-lo, afirmando que o Irão está a desenvolver armas nucleares.

A oposição síria critica correctamente o oportunismo do regime, citando a sua intervenção no Líbano em 1976 contra a resistência palestiniana e o Movimento Nacional Libanês, e a sua aliança com a coligação dirigida pelos Estados Unidos em 1991 contra o Iraque. Aqueles que criticam a duplicidade do regime sírio a respeito da causa nacional não devem acreditar nesse regime quando afirma estar a combater os «agentes» das potências ocidentais, nem pedir a intervenção militar dessas mesmas potências ocidentais. A oposição nacional não deve permitir que o regime se destaque na defesa da causa nacional e deve compreender que, uma vez que o território sírio está parcialmente ocupado por Israel, com o apoio dos estados ocidentais, não deve procurar ajuda nos inimigos da Síria nem nos seus opressores. Se essas potências chegarem a intervir, vão pretender enfraquecer estrategicamente a Síria, tal como o fizeram no Iraque.

Derrubar um regime, sem que importe de que regime se trata, é um objectivo estratégico em que os meios diferem de acordo com cada caso e com cada país. A estratégia dependerá da estrutura do regime que os revolucionários tentam derrubar.

Consideremos, por exemplo, a diferença entre os casos do Egipto e da Líbia. No Egipto, o exército regular é uma instituição que era, e continua a ser, a coluna vertebral do regime. O poder de Mubarak emanava e apoiava-se no exército, mas não chegou a torná-lo «seu». Isto fez com que o levantamento popular tivesse imenso cuidado em manter o exército neutral, para conseguir derrubar o regime. Esta estratégia teve sucesso porque alimentou a ilusão das massas de que o exército como instituição, com os seus manda-chuvas, poderia servir desinteressadamente o povo. Em vez de reforçar a consciência crítica do povo e dos soldados e de os avisar que esses cabecilhas do exército lutariam para preservar os seus privilégios e controlo sobre o estado, as principais forças do movimento de oposição contribuíram actualmente para espalhar essa ilusão entre as massas. O resultado foi uma revolução egípcia incompleta; na realidade, há tantos (ou mais) elementos de continuidade no regime egípcio como elementos de mudança.

Na Líbia, por outro lado, Khadafi tinha dissolvido a instituição do exército e estruturara-o na forma de brigadas vinculadas à sua pessoa, através de laços tribais, familiares e financeiros. Por isso foi impossível confiar na neutralidade do exército e muito menos no seu apoio à revolução; mais, era inevitável que a forma de derrotar o regime líbio fosse derrotando as suas forças armadas, ou seja, através da guerra. Uma vez que o desequilíbrio do poder militar entre as forças de Khadafi e os rebeldes praticamente desarmados era esmagador, tornou-se inevitável a entrada de um factor externo na equação, fosse armando a revolta (o melhor cenário), fosse através da participação directa na guerra entre os rebeldes e o regime, com a ocupação do país (o pior cenário), ou através do bombardeamento à distância sem invasão, tal como aconteceu. O resultado foi que a mudança na Líbia acabou por ser muito mais profunda do que no Egipto devido ao colapso geral das instituições do regime de Khadafi. Na actualidade, a Líbia é um país sem estado, isto é, sem um aparelho que monopolize as forças armadas, e ninguém sabe quando será possível reconstruir-se aí um estado ou qualquer coisa que se lhe assemelhe.

Dito isto, em que aspectos a Síria se ajusta a esta equação estratégica? Na actualidade, estaria entre os casos egípcio e líbio. Na Síria, tal como na Líbia, o regime rodeou-se de Forças Especiais vinculadas a ele por laços familiares, religiosos e por privilégios. É preciso derrotá-las caso se pretenda fazer cair o regime. A este respeito, o comandante do Exército Livre Sírio, coronel Riyad al-As’ad, tinha razão quando disse a Al-Sharq Al-Awsat (a 5 de Novembro de 2011) que «está a sonhar aquele que acha que o regime sírio cairá pacificamente».

No entanto, devido ao facto de Israel ocupar uma parte do seu território, a Síria, ao contrário da Líbia, tem também um exército regular baseado no serviço militar obrigatório dos jovens, cujos soldados e oficiais de baixa patente reflectem a composição do povo sírio de onde são oriundos.

Por isso, um dos principais objectivos da estratégia da revolução síria deveria ser atrair as fileiras do exército sírio para a revolução.

O papel do exército na estratégia da oposição

Se o levantamento sírio tivesse sido encabeçado por uma liderança com visão estratégica (e aqui vemos os limites das «revoluções do Facebook»), teria tentado estender as redes da oposição entre o exército, embora insistindo no facto de os soldados não deverem desertar individualmente ou em pequenos grupos mas em número significativo. Devido a ausência de liderança e de estratégia, soldados e oficiais começaram a desertar isoladamente de uma forma desorganizada. O alcance das deserções confundiu a oposição política. Alguns criticaram os desertores por ameaçarem desviar a revolta do seu rumo pacífico, enquanto outros acolheram bem essa atitude, pedindo-lhes, no entanto, que não voltassem as suas armas contra o regime. Esta última é uma proposta suicida que os soldados desertores farão bem em ignorar.

A tarefa estratégica de atrair os soldados sírios para a revolução não deveria entrar em contradição com as manifestações populares e a sua natureza não violenta. Mais uma vez, o caso sírio combina elementos das experiências líbia e egípcia, isto é, imensas manifestações pacíficas em paralelo com escaramuças militares. A ausência de violência das manifestações populares foi, e continua a ser, uma componente básica do momentum do movimento e do seu carácter massivo, incluindo a participação feminina. Esse momentum é em si um factor decisivo para incitar os soldados a revoltar-se contra o regime.

Por isso, o maior dilema estratégico na Síria é a forma de combinar a mobilização pacífica das massas com o aumento da oposição do exército e o confronto armado, sem o qual não se conseguirá derrotar nunca as forças do regime, nem este cairá. Assim é, a menos que se espere que alguns oficiais de alta patente e do topo da hierarquia do regime saiam do país e que isto obrigue a família governante a fugir para o Irão. Se isto acontecesse, a Síria acabaria numa posição semelhante à do Egipto, onde caiu uma peça do cimo da pirâmide sem que esta tivesse desmoronado na sua totalidade.

Uma intervenção militar directa na Síria, quer na forma de invasão, quer limitada a um bombardeamento à distância, levaria ao fim das deserções no exército sírio, que uniria filas num confronto que convenceria os soldados de que aquilo que o regime vem afirmando desde o início da revolta, isto é, que enfrenta uma «conspiração externa» que pretende subjugar a Síria, é real e verdadeiro. Os pedidos formulados por Riyad al-As’ad, do Exército Livre Sírio (na entrevista citada anteriormente) de uma intervenção internacional para «a aplicação de uma zona de exclusão aérea ou marítima na Síria» e de criar «uma zona segura no norte da Síria que o Exército Livre da Síria pudesse administrar» são, no melhor dos casos, uma prova da falta de visão estratégica entre a liderança do levantamento sírio. São também produto de uma mistura de falta de visão de futuro e de reacção emocional perante a perversidade do regime, que leva alguns opositores a confiar naquilo que poderia provocar uma catástrofe histórica gravíssima na Síria e em toda a região.

Aqueles que desejam a vitória da revolta do povo sírio na defesa da liberdade e da democracia, de modo a que seja possível fortalecer a pátria em vez de a minar, devem definir uma posição o mais clara possível acerca destas questões fatídicas. Não é possível ignorá-las simplesmente em nome da unidade contra o regime, porque o destino da luta e de todo o país depende justamente dessas propostas.

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Tradução de Helena Pitta.