Rússia 1917: como uma revolução venceu uma pandemia

08 de junho 2020 - 23:28

Numa altura em que se continua a combater o novo coronavírus por todo o mundo, recordamos a memória de como na Rússia, após a revolução de 1917, o tifo representou uma grande ameaça. Mas medidas revolucionárias implementadas por pessoas comuns interromperam a sua disseminação, escreve Charlie Kimber.

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Comboio que levava informação sobre saúde público no período pós-revolução.
Comboio que levava informação sobre saúde público no período pós-revolução.

Como é que uma sociedade que fez uma revolução lida com pandemias? Um vislumbre vem da Rússia em 1917. A classe trabalhadora, liderada pelo partido bolchevique, assumiu o poder numa revolução em outubro. Imediatamente, tiveram que lidar com ondas de doenças que varreram grande parte da Europa.

Nos quatro anos seguintes, cólera, varíola e a "gripe espanhola" tiveram efeitos devastadores. Mas a maior ameaça foi o tifo. Antes da era dos antibióticos, o tifo era fatal num terço dos infetados.

Esta doença é espalhada por uma bactéria que vive no intestino do piolho. O inseto vive na roupa do seu hospedeiro e prospera em condições de sujidade, sobrelotação, falta de saneamento e doenças.

A Primeira Guerra Mundial proporcionou um terreno fértil perfeito. Os piolhos infestaram os uniformes dos soldados, viajando com eles enquanto avançavam e recuavam. Assim se espalharam para as populações de cidades destruídas, áreas rurais devastadas e campos de prisioneiros de guerra. No leste da Europa, milhões de pessoas foram infetadas.

Após a revolução na Rússia, os exércitos "brancos" estavam determinados a esmagar a nova sociedade dos trabalhadores. E aliaram-se a forças invasoras de 14 países para iniciar uma guerra civil. Um grande número de pessoas famintas fugiu para escapar dos exércitos saqueadores, enchendo cidades que já estavam densamente povoadas e onde as habitações condignas tinham sido destruídas. Os piolhos prosperaram.

Em 1919, o líder revolucionário Vladimir Lenin teria relatado numa reunião de trabalhadores da saúde: “Toda atenção a este problema, camaradas. Ou os piolhos derrotam o socialismo, ou o socialismo derrota os piolhos.” Não foi fácil. A Rússia era um país economicamente subdesenvolvido em 1914 e tanto a guerra como a guerra civil tinham destruído a maior parte da indústria da época.

A sociedade russa, dirigida por conselhos democráticos de trabalhadores chamados sovietes, enfrentou o desafio de frente. Sob o controlo dos trabalhadores, os serviços de saúde tinham sido nacionalizados e centralizados – e eram agora gratuitos. Isto foi crucial no desenvolvimento de um plano para sobreviver ao tifo. A primeira tarefa foi aumentar massivamente a prestação de cuidados de saúde.

Cartaz soviético sobre hábitos de higiene.

O jornalista Jakob Friis viajou para a Rússia no meio da pandemia e entrevistou o Dr. Pervukhin da organização responsável pelos medicamentos.

Condições

Ele disse-lhe: “Como consequência da nacionalização das farmácias, as nossas escassas reservas de medicamentos são distribuídas de forma equitativa. Apesar de todas as dificuldades externas, as condições de saúde melhoraram durante o ano passado.”

“Novas fábricas de medicamentos foram montadas e grandes reservas foram confiscadas aos especuladores. Teria sido impossível para qualquer governo capitalista proteger tão bem a saúde popular. Superámos a gripe espanhola melhor do que o mundo ocidental. Estamos numa posição de combater epidemias com muito mais força do que nos velhos tempos.”

Friis era membro do Partido Trabalhista Norueguês que depois de 1917 se juntou ao Comintern, a organização internacional de partidos revolucionários. Dele – e do seu entrevistado bolchevique – poderia ter sido esperado um relato floreado. Mas grande parte de seu testemunho é consubstanciada por um artigo escrito por um professor americano em 1993. K. David Paterson escreveu: “foram feitos grandes esforços para educar o público. Carruagens ferroviárias com exposições especiais percorriam as áreas sob controlo soviético. Em novembro de 1919, as equipas de desinfeção tratavam diariamente de 40 a 50 mil passageiros nas estações de comboio de Moscovo. Por fim, o governo soviético montou cerca de 250 mil camas para pacientes com tifo e ergueu cerca de 300 postos de isolamento e desinfeção ao longo das ferrovias e canais navegáveis.” “Centenas de destacamentos de banho e desinfeção foram criados nas forças armadas para despiolhar as tropas." Laboratórios foram criados para pesquisar e generalizar medidas eficazes.

Paterson continuava: “o despiolhamento exterminou imensos piolhos. Uma camada de dois centímetros de piolhos mortos cobria o chão de uma sala de desinfeção do Exército Vermelho. Despiolhar, isolar e educar, sem dúvida, contribuiu para a redução definitiva da epidemia."

Além da expansão das unidades de saúde, os bolcheviques empenharam-se em melhorar outras áreas da vida da classe trabalhadora, como habitações e escolas. Isto levou tempo. Em 1919, o jornal dos sovietes escreveu: “muitos milhares de trabalhadores ainda vivem em caves e sótãos. O anjo da morte ainda anda nos subúrbios das cidades e aponta para os alojamentos dos trabalhadores com sua mão terrível.”

Decisivamente, as medidas anti-tifo não foram impostas apenas de cima. Eles dependiam e foram implementados por uma rede de organizações de trabalhadores.

Inspecionar

Comités de trabalhadores para combater a epidemia foram criados nas cidades e nas grandes aldeias desde 1918. A sua tarefa era inspecionar alojamentos e instituições públicas, ensinar as pessoas sobre a limpeza, distribuir sabão e combater o piolho. O partido, os sindicatos, as organizações de mulheres e os grupos de jovens uniram-se na luta contra as doenças.

Os representantes desses comités – trabalhadores e camponeses – comunicavam informações científicas à população em geral. Este envolvimento da classe trabalhadora foi fundamental para derrotar as doenças.

Em 1920, Nikolai Semashko, o principal funcionário responsável pela saúde, escreveu: “podemos dizer sem exagero que as epidemias de tifo e cólera foram estancadas principalmente pela assistência dos comités de trabalhadores e camponeses. O Comissariado Popular de Saúde só pode superar as inúmeras dificuldades existentes neste país empobrecido e devastado, assegurando-se do apoio e assistência da população".

Cartaz soviético sobre a ameaça da pulga.

Alguma ajuda dos países ocidentais chegou à Rússia – mas apenas para os inimigos dos bolcheviques. A Cruz Vermelha Americana (ARC) fez grandes esforços para apoiar os exércitos brancos.

Julia F. Irwin, historiadora especializada em "humanitarismo" dos EUA, escreveu: "embora os trabalhadores da ARC possam ter negado, os seus esforços de socorro – voltados para soldados e civis anti-bolcheviques – eram, na verdade, profundamente políticos na sua conceção e execução.” "No início do século XX, assim como é na atualidade, a ajuda externa americana representava um pilar central das relações externas americanas".

O número de mortos por tifo na Rússia entre 1918 e 1922 foi provavelmente superior a dois milhões. Os mortos incluíam o pai do líder revolucionário do Exército Vermelho Leon Trotski. Mas o Estado dos trabalhadores diminuiu depois o número de mortos. escreveu Paterson: "sob os ataques persistentes das autoridades de saúde, o tifo declinou acentuadamente após 1922". No entanto, as infestações por piolhos – e tifo – retornaram quando a contra-revolução burocrática liderada por José Estaline estrangulou o poder dos trabalhadores.

Campos de prisioneiros

A intensificação da exploração de trabalhadores e camponeses, combinada com a aniquilação de todos os elementos da democracia dos trabalhadores, fez com que o tifo aumentasse – principalmente nos campos de prisioneiros. Relatos dizem que o tifo matou dezenas de milhares de presos num único campo no distrito de Kolyma em 1938. Como em todas as outras áreas da vida, a essência da revolução foi derrubada pelo estalinismo.

Nada disso deve fazer-nos esquecer o que foi alcançado nos primeiros anos após 1917. Poucos dias antes de sua morte – por tifo – em 1920, John Reed, jornalista revolucionário, escreveu um artigo que resumia a situação.

Ele disse que o poder dos trabalhadores "não significa que tudo está bem na Rússia soviética, que o povo não tem fome, que não há miséria e doença e luta desesperada e sem fim. O inverno era horrível para além da imaginação. O tifo, a febre intermitente, a gripe deflagravam entre os trabalhadores.”

“A compleição do povo, minada pela desnutrição durante mais de dois anos, não podia resistir. A política aliada consciente de bloquear a Rússia de medicamentos matou milhares de pessoas.”

“Apesar disso, o Comissariado Popular de Saúde Pública construiu um serviço sanitário colossal, uma rede de secções médicas sob controlo dos sovietes locais em toda a Rússia, em lugares onde nunca tinha havido médicos antes.”

“Todos os municípios possuíam pelo menos um novo hospital e frequentemente dois ou três.”

“Centenas de milhares de pósteres de cores vivas foram colocados em todos os lugares, informando as pessoas, por meio de fotos, sobre como evitar doenças e exortando-as a limpar as suas casas e a si mesmas.”

"Em todas as vilas e cidades existem maternidades gratuitas para mulheres trabalhadoras."

No meio da guerra e da fome, os bolcheviques adotaram uma política mais científica, eficaz e democrática para combater as epidemias do que nos países mais ricos um século depois.

É por isso que, no lugar de uma sociedade capitalista de pobreza e pandemia, lutamos pelo socialismo.



Testemunha ocular - "Os nossos filhos vão ver um mundo feliz e livre"

As janelas da sala de espera da estação estavam partidas. Os canos de água rebentaram e o chão estava coberto de gelo.

Em cima disto, e nas mesas, bancos, por toda parte, jaziam soldados, incontáveis montes cinzentos, contorcendo-se e balbuciando no delírio do tifo.

A outra sala de espera estava na mesma condição, mas num canto havia um palco decorado com faixas vermelhas e cartazes revolucionários, com uma lâmpada de querosene fraca acesa sobre uma mesa, diante da qual um jovem de uniforme fazia um discurso para o grupo de soldados que lotavam o lugar, erguendo para ele seus rostos fixos e barbudos com uma expressão de atenção tensa.

Estava a fazer agitação em nome do Partido Comunista, pedindo aos soldados que se unissem a ele e contribuíssem para a imprensa do partido.

"Ainda precisamos sofrer por muito tempo", disse ele. ‘E talvez coisas ainda piores do que sofremos agora, até que nossos camaradas europeus venham em nosso auxílio. E, no entanto, a própria revolução europeia significará novos sacrifícios da nossa parte, pois nós, que não temos o suficiente para comer, devemos alimentar os nossos irmãos, que terão ainda menos do que nós. Mas devemos prosseguir através dessa escuridão, camaradas, ainda que todos nós morramos, para que o mundo dos nossos filhos seja um mundo feliz e livre. '

E eles aplaudiram, aqueles esqueletos meio congelados, agitando os seus chapéus, com os seus olhos cavos a brilhar.”

John Reed, escrito para a revista comunista ‘Liberator’ em 1920.


Charlie Kimber é secretário nacional do Socialist Workers Party, editor do Socialist Worker e diretor das Serbome Publications Limited.

Texto publicado no Socialist Worker. Tradução de Gonçalo Russo para o Esquerda.net.