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Quando a Greve Geral de Seattle e a gripe espanhola colidiram

Os trabalhadores de Seattle transformaram um mundo de guerra, doença, morte e sofrimento numa grande celebração dos vivos, ainda que por apenas cinco dias. Por Carl Winslow.
Trabalhadores de Seattle em greve em 1919.
Trabalhadores de Seattle em greve em 1919.

11 de novembro de 1918. Acabou a guerra. Grandes comemorações têm lugar em toda a parte – isto é, na França, na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Irromperam manifestações espontâneas de alívio e felicidade e milhões saíram às ruas de Paris, Londres e Nova York.

Em Seattle, o Star (jornal diário de Seattle) anunciava: “Acabou a guerra!” A cidade soube do armistício na noite de domingo, 10 de novembro; de imediato, as pessoas ocuparam as ruas. De manhã, o presidente da Câmara foi acordado para ver as ruas cheias, a sua planeada proclamação de um feriado tornara-se irrelevante; o seu desejo de uma manifestação patriótica, adequada e ordeira foi ultrapassado.

Os foliões comemoravam não apenas o fim da guerra, mas também o que pensavam ser o fim da chamada gripe espanhola. Ao longo desse dia, apareceram bandas improvisadas, com pessoas a baterem em tampas de latas de lixo e nas suas lancheiras de metal e buzinas de automóveis a tocarem. Os trabalhadores abandonavam os estaleiros, os estivadores saíam dos cais e o centro da cidade estava apinhado. As autoridades de saúde da cidade também foram surpreendidas. Não eram vistas máscaras faciais; o distanciamento social foi desconsiderado desafiantemente. Tinham os seus próprios planos em andamento, talvez com alguma imprudência, o de revogar os seus éditos, as suas restrições às multidões e do uso obrigatório das máscaras e, assim, de pronunciar triunfantemente a vitória sobre a gripe.

Ordenou-se que os marinheiros, primeiros transmissores da gripe e também as suas primeiras vítimas, engrossassem a multidão para garantir que a celebração era oficial e devidamente patriótica. As celebrações de novembro também sugeriam um nível de descontentamento subjacente, um prelúdio para outra guerra que se aproximava, para um retorno da “normalidade” na cidade mais estratificada e propensa a greves do país – acima de tudo para a grande “Greve Geral de Seattle.”

“A guerra para acabar com todas as guerras”, repetiam os jornais sem qualquer embaraço. No entanto, 10 milhões de vidas foram perdidas no massacre na Frente Ocidental; milhões mais ficaram mutilados, tanto emocionalmente quanto fisicamente. Na Europa Central e do Leste, havia vastas faixas de devastação, o coração do continente estava em ruínas e havia novos exércitos, desta vez de catadores e sem-abrigo, criaturas sem esperança. O Seattle Star apresentava em destaque de meia página um Jesus triunfante com a legenda “Paz na Terra”. A seguir vangloriava-se irracionalmente sobre a vitória, as “uniões sagradas”, as “casas para heróis”, a “democracia a todo o vapor”. “Vencemos a guerra!”

Os trabalhadores de Seattle, no entanto, nunca haviam realmente apoiado esta guerra, a menos que se restringisse ao “apoiar as tropas”, o mantra de todas as guerras. Ainda assim, festejaram; especialmente porque significaria o fim das longas jornadas de trabalho, dos baixos salários, do alistamento militar; das acusações de “sedição” e das leis sobre “sindicalismo criminoso”; dos esquadrões vermelhos, rusgas e sentenças de prisão. A matança – quase 5 milhões de americanos participaram na Primeira Guerra Mundial e 53 mil foram mortos em combate – não se restringiu às trincheiras. Na frente doméstica, a gripe matou 675 mil pessoas e mais de 1.500 mortes foram registadas em Seattle.

A gripe chega a Seattle

No inverno de 1918, grande parte da cidade – as escolas e a maioria dos locais públicos – ainda estava a reabrir. Não se percebia se a epidemia tinha, de facto, terminado com o segundo pico imediatamente antes do Natal. Começavam as fortes chuvas. Os primeiros madeireiros andavam à deriva; a estes juntavam-se outros – homens errantes e sem-abrigo nas ruas cruéis da cidade, à espera da primavera e do regresso ao trabalho. Isto era comum em Seattle no inverno. Agora, no entanto, apareciam recém-chegados, alguns ainda de uniforme, a querer trabalhar. Alguns estavam doentes. O Union Record, o jornal diário da cidade que era propriedade dos sindicatos, informou que a “paz” no exterior estava a levar à fome no eixo doméstico. Um homem, um representante do sindicato do Metal Trades Council (MTC), disse aos jornalistas que tinha sido abordado “por 15 soldados numa noite, todos em busca de alimentação e alojamento.”

Tinha demorado algum tempo até a gripe chegar a Seattle. Esta cidade de trezentos mil habitantes, situada no extremo noroeste do país, só era acessível depois de se atravessarem duas cordilheiras e ficava a vários dias de comboio de Chicago; ficava a várias semanas de distância da costa leste pelo canal do Panamá e ainda mais longe através do Estreito de Magalhães. Seattle era, nesse sentido, isolada, porém, no final da guerra tinha-se tornado no centro das rotas comerciais com a Ásia, estando dois dias mais próxima de Vladivostok do que a sua rival a sul, São Francisco. Era a porta de entrada para o Alasca e a sua indústria pesqueira. O trigo dos grandes campos da região do Palouse era transportado a partir das suas docas.

Seattle tornara-se um entreposto imperial. A zona do estuário de Puget prosperava com a construção de navios de guerra e os acampamentos armados. O Camp Lewis, ao sul de Tacoma, era a maior base desse tipo no Oeste. Bremerton, do outro lado da baía, era o porto de origem da frota do Pacífico Norte da Marinha dos Estados Unidos. Era ali que se treinavam os marinheiros; navios de guerra, destinados ao “teatro” asiático, eram construídos nos seus estaleiros. A verdadeira guerra, obviamente, estava a um oceano de distância na direção oposta. Apesar disso, os estaleiros de Seattle – a “indústria básica” da cidade – produziram mais navios para a guerra (noventa no total, em casco de aço) do que qualquer outro estaleiro do país. Os estaleiros eram “a vida” da cidade, “palpitando em todas as indústrias, afetando todos os trabalhadores”. Estes estaleiros empregavam cerca de trinta e cinco mil homens; outros quinze mil trabalhavam nos estaleiros de Tacoma.

A gripe espanhola, apesar do nome, não surgiu em Espanha, mas sim no Kansas em 1917, implantando-se no Camp Riley. Alastrou-se bastante até ao final do verão seguinte. Começou por disseminar-se em direção ao leste, passando de acampamento em acampamento, tendo chegado à Europa com as Forças Expedicionárias Americanas que ali chegavam. A gripe varreu a Europa, acrescentando uma nova dimensão de horror às trincheiras da Frente Ocidental.

Soldados norte-americanos acamados devido à gripe espanhola. Forte Riley, Kansas. Foto: wikimedia commons.

A gripe acabou por retornar aos Estados Unidos, com os soldados e marinheiros, matando ferozmente. Certamente que os oficiais de saúde pública de Seattle sabiam-no e já o esperavam, mas, como em outros lugares, foram apanhados desprevenidos quando a gripe realmente apareceu. Chegou no final de setembro através de marinheiros infetados em Boston que haviam sido destacados para Filadélfia, depois 334 destes marinheiros partiriam de Filadélfia para o estuário de Puget. À chegada, muitos estavam gravemente doentes.

“Caso a doença surja aqui”, anunciou o comissário de saúde de Seattle, Dr. J.S. McBride, no dia 28 de setembro, “e não é improvável que surja, faremos um esforço para isolar os primeiros casos e, assim, tentar evitar que se torne numa epidemia.” O isolamento começaria com locais de diversão, teatros, eventos desportivos, restaurantes e bares. Também foi apresentada como uma oportunidade de fechar a famosa Skid Row, com os seus albergues, bares, bordéis e outros locais de diversão questionável, incluindo a sede dos Industrial Workers of the World (IWW, ou Wobblies). A indústria, no entanto, continuaria a produzir, e até era incentivado que assim fosse – os “interesses” da cidade desejavam impacientemente permanecer abertos, livres das restrições dos tempos de guerra, determinados a restaurar a “loja aberta”.

McBride e a sua equipa vigiaram os primeiros sinais da gripe; estes surgiram inicialmente nas instalações da Marinha em Bremerton, depois em Camp Lewis com súbitos relatos de centenas de casos de uma gripe severa. Estes, insistiram inicialmente as autoridades, eram simplesmente casos de gripe sazonal, embora observassem que, em alguns casos, essa gripe rapidamente se transformava em pneumonia. Bremerton reportou catorze mortes. Ordenou-se que os marinheiros evitassem grandes multidões. Os visitantes foram banidos. O Camp Lewis foi colocado em quarentena.

Ainda assim, em Seattle, McBride e a sua equipa focaram-se nos lugares errados, mesmo quando centenas de cadetes da Escola Naval da Universidade de Washington haviam descrito sintomas de uma gripe leve. Por alguma razão, não foi dada a devida atenção à universidade. A sua preocupação era com a cidade; McBride continuou a declarar Seattle livre da gripe. Mais tarde, no dia 4 de outubro, foi reportado o falecimento de um cadete, centenas doentes, quatrocentos hospitalizados. Tinha sido desperdiçado tempo precioso. Naquela noite, notificaram-se dois casos de gripe na cidade – ambos resultando em morte.

Na manhã seguinte, McBride reuniu-se com o presidente da Câmara Ole Hanson, um agente imobiliário; juntos, anunciaram à população que a gripe havia chegado a Seattle. McBride ordenou a proibição de todos os eventos públicos e privados, declarou que os elétricos e os teatros tinham de ser bem ventilados e ordenou à polícia que aplicasse de forma estrita a norma do anti-cuspe. Pediu à população para cumprir uma quarentena voluntária. Nos dias seguintes, no entanto, foram ordenados encerramentos – inicialmente das missas, depois dos locais de entretenimento, finalmente das escolas públicas.

Os encerramentos repentinos apanharam a população de surpresa, o que provocou alguma resistência. O diretor-geral das escolas, Frank Cooper, acreditava que estas medidas eram imprudentes: “Considero ser mais perigoso ter crianças a correrem livremente pelas ruas do que tê-las na escola, onde estarão sob uma rigorosa supervisão médica”.

Multidões de pessoas continuaram a congregar-se no bairro dos teatros da cidade, entre elas um grande número de marinheiros, apesar dos esforços da polícia para assegurar que os espaços de diversão permaneciam encerrados. A polícia organizou um “Esquadrão da Gripe” para fazer cumprir as ordens, mas os resultados não foram muito eficazes. Aqueles que conseguiam, deixavam a cidade, alguns para retiros nas montanhas, outros para mais longe. Os pais da escritora Mary McCarthy fugiram para Chicago, onde foram ambos infetados, morrendo antes do final do ano, deixando os seus filhos órfãos. McCarthy acabou por voltar a Seattle e ficou a cuidar de uma tia idosa.

As autoridades de Seattle isolaram os estaleiro por precaução, embora tenha sido uma decisão mais relacionada com o patriotismo de guerra do que com uma preocupação com a saúde dos trabalhadores. Afinal, os estaleiros, longe de serem lugares saudáveis, eram bem conhecidos como sendo locais de trabalho duros em que “os homens saíam cobertos de fuligem e tinta vermelha, exaustos de manusear estrondosas máquinas de britagem. Quase todos os dias, um trabalhador do estaleiro que fosse mais azarado acabava por ser transportado na carrinha dos mortos.” A gripe viria a aumentar estes episódios. Ainda assim, McBride queria que esses trabalhares se mantivessem a trabalhar. Ele acreditava que o podia fazer, especialmente porque muitos deles laboravam ao ar livre, pelo que seriam menos suscetíveis à doença comparativamente com outros trabalhadores fabris.

Ainda assim, McBride procurou inocular toda a mão de obra com um dos soros desenvolvidos. “Não deixem que questões de dinheiro ou outros homens interfiram com o vosso trabalho.” Quando os pedidos vieram de outros trabalhadores, ele respondeu: “Seattle precisa de todo o soro que pudermos produzir e não compartilharemos com ninguém até que os nossos trabalhadores do estaleiro e outros cidadãos tenham sido devidamente inoculados”.

Os trabalhadores estavam céticos; a guerra, o vírus e a brutalidade do trabalho tinham produzido um fatalismo generalizado, um realismo diante da calamidade visível em todos os setores. O número de doentes e mortos aumentou e, em meados de outubro, quatro mil casos haviam sido reportados; nenhuma prova parecia sugerir que os soros tinham surtido efeito.

Hanson e McBride estavam resolutamente confiantes de que o isolamento e os encerramentos funcionariam. Hanson manteve-se firme nas suas convicções de que a gripe espanhola era apenas uma variação da gripe sazonal, uma “constipação”. Acreditava que duraria não mais do que uma semana. Estavam errados. A gripe não seria contida rapidamente em nenhuma grande cidade americana.

Em poucos dias, a gripe atingiu todas as zonas de Seattle, apesar do “sul de Yesler” e do Rainier Valley, onde se localizam as favelas de Seattle e as habitações baratas dos trabalhadores, terem sofrido o pior. Frustradas, as autoridades responsabilizaram as populações incumpridoras pela persistência da gripe. Continuaram a trabalhar para garantir que as ordens de encerramento fossem ampliadas e cumpridas. No dia 28 de outubro, McBride emitiu novas ordens, incluindo o uso obrigatório de máscaras. Estas foram usadas com relutância; acabariam por vir a ser os símbolos da Seattle sitiada. Os condutores dos elétricos receberam ordens para proibir a entrada das pessoas que não estivessem a usar máscara. Hanson disse aos passageiros que era melhor encontrarem uma máscara e usá-la “ou então amanhã de manhã vão a pé para o trabalho”. No final de outubro, no entanto, o número de novos casos de infeção estabilizou e depois começou a cair.

Cidade da greve

Os trabalhadores do estaleiro de Seattle acreditavam que se tinham sacrificado injustamente pela guerra. As horas de trabalho haviam sido longas, o seu trabalho esgotante. Hulet Wells, o ex-presidente socialista do Seattle Central Labor Council (CLC), também presidente do Partido Socialista do estado, enquanto aguardava a sua sentença por se ter oposto ao recrutamento militar, encontrou trabalho no Skinner & Eddy, o maior dos estaleiros de Seattle. Lá encontrou uma

balbúrdia vociferante… uma selva de máquinas estranhas, correntes giratórias e arrotos de fogo… O amontoado de formigas humanas cozinhado junto com todos os especialistas que cabiam numa estaleiro moderno. Em todos os lugares havia um barulho ensurdecedor, as caldeiras borbulhavam, as plainas gritavam, longas varetas brancas e quentes eram comprimidas nas máquinas de parafusos. Ali estava o chão inclinado, onde homens negros desenhavam uma tatuagem com marretas pesadas, e aqui um martelo de forja dava os seus golpes calculados… [junto com] as cenas dilacerantes dos feridos, as sirenes das ambulâncias e os moribundos ou mortos a serem descartados para o caos das estradas portuárias.

Estaleiro da Skinner and Eddy. Foto de Libcom.org.

Em 1917 e 1918, os sindicatos da cidade iam sentindo cada vez mais a pressão do governo federal e do departamento de transporte marítimo. Os trabalhadores dos estaleiros tinham trabalhado segundo os padrões estabelecidos a nível nacional pelos conselhos de trabalho de Washington, DC, mesmo acreditando que os prejudicavam. Era indiscutível que os preços eram mais elevados na Costa Oeste – sobretudo em Seattle – do que no Leste. Os sindicatos estavam especialmente empenhados em aumentar os salários dos trabalhadores não qualificados e semi-qualificados, uma necessidade imediata com vista a reduzir as divisões nas oficinas. No entanto, as suas reivindicações salariais foram repetidamente rejeitadas. Os trabalhadores de Seattle, herdeiros de uma década de intenso conflito, acreditavam na altura do fim da guerra terem sido traídos pelo governo. Acreditavam que lhes tinhamsido contadas mentiras pelo presidente, pelo departamento de transporte marítimo e pelas autoridades de saúde da cidade. Estavam amargurados, zangados e ansiosos por uma luta. Votaram a favor da greve em dezembro. A greve de janeiro foi inevitável.

Os homens saíram às ruas na manhã de 21 de janeiro de 1919. Havia mulheres espalhadas por entre as suas fileiras, assim como trabalhadores negros, embora fossem poucos e o seu estatuto sindical pouco claro. Praticamente todos os sindicatos internacionais da AFL neste tipo de ofícios proibiam mulheres e negros. A. E. Miller, presidente do MTC, anunciou uma greve “absolutamente limpa”, o que significava que 35 mil trabalhadores tinham feito greve e ninguém os tinha substituído. Estes trabalhadores mostraram “uma esplêndida solidariedade e grande entusiasmo”, sem se deixar abater pela chuva do inverno. Tacoma e Aberdeen rapidamente seguiram-nos. Discursando em nome dos trabalhadores, John McKelvey desafiou os proprietários. Os “milionários do estaleiro estão a receber todo o crédito pelos navios que construímos. Ah, sim, eles são construtores de navios. Se eles acham que podem construir navios, vão em frente e construam-nos!”

O Union Record trazia notícias da luta dos grevistas aos seus cinquenta mil assinantes, apoiando-a sem reservas. Ao lado da entrada da sua primeira página, no dia 2 de janeiro, “45.000 homens nas ruas na zona do estuário”, foi publicado um artigo intitulado “Grandes lucros obtidos pelas empresas de construção naval de Seattle”, revelando os custos, vendas e lucros das empresas. O editorial do dia, “Uma Grande Greve”, esclareceu: “Toda a questão dos salários está ligada ao tremendo aumento do custo de vida de Seattle”.

Primeira página do Seattle Union Record que anuncia a greve. Foto: wikimedia commons.

A greve, no entanto, não foi apenas um sintoma – real o suficiente por si só – mas também uma indicação de frustrações e insatisfações mais profundas. A onda de greves dos anos de guerra – “uma epidemia de greves” – foi nacional e internacional, inspirada em parte pelo sindicalismo. Seattle era tanto um centro de greves como um centro radical, um bastião do socialismo da classe trabalhadora; o compromisso dos seus sindicatos com o controlo operário era profundo e o apoio à Revolução Russa foi generalizado. Kate Sadler, a “Joana d’Arc” dos trabalhadores, tinha liderado a delegação de Seattle ao Congresso Mooney. Crystal Eastman, no Liberator, contou que Sadler liderou os “selvagens” da sua cidade, que insistiram numa greve geral o mais tardar no 1.º de maio para libertar este sindicalista de São Francisco injustamente acusado. “A Rússia conseguiu!” seria a entrada de um folheto escrito pelo jovem Harvey O’Connor (ilustrado com um trabalhador musculado e um capitalista gordo num caixão – vinte mil folhetos foram distribuídos).

Ao mesmo tempo, eram cada vez mais os desempregados, sem-abrigo e jovens desmobilizados em Seattle e a gripe ainda não tinha desaparecido por completo. Em resposta, o MTC encheu o Hipódromo com milhares de pessoas para anunciar a criação de um “Conselho de Soldados, Marinheiros e Trabalhadores”. A reunião prosseguiu apesar das autoridades, que cercaram o local com polícias militares. Milhares também se reuniram em Tacoma, com soldados de Camp Lewis que já não estavam a cumprir quarentena a participarem.

Era cada vez mais claro que os sindicatos não sabiam com quem negociar: o conselho nacional ou os empregadores locais. Em ambos os casos, os empregadores recusaram-se a ceder, assim como os membros da direção do Leste, as empresas transportadoras e os seus aliados nos sindicatos nacionais da AFL. Assim, o MTC recorreu ao Seattle Central Labor Council (CLC), a federação de 110 sindicatos locais – a organização que, em provocação à AFL, foi construída a partir das bases , que defendia sindicatos industriais, apoiava greves de solidariedade, cooperava com o IWW e era liderada por socialistas – enviando um pedido para se realizar uma greve.

“A ideia de uma greve geral varreu as fileiras do trabalho organizado como uma tempestade” escreveu O’Connor. No dia 22 de janeiro, numa assembleia do CLC, no Labor Temple, os trabalhadores metalúrgicos apresentaram os seus argumentos, instando os trabalhadores de Seattle a juntarem-se a eles numa greve geral. O objetivo seria não só ver as suas reivindicações realizadas, mas também de apresentar uma demonstração de força face à campanha renovada dos empregadores pela loja aberta. Estes trabalhadores acreditavam que o destino do movimento organizado de trabalhadores estava em jogo. Representantes dos sindicatos locais da cidade e militantes comuns encheram o Labor Temple. Segundo O’Connor, “todas as referências à greve geral foram aplaudidas até ecoarem; as cautelas dos conservadores… foram vaiadas” ou interrompidas por gritos, palmas e canções.

O CLC propôs um referendo sobre a greve, que foi aprovado por unanimidade. O entusiasmo daquela noite trouxe consigo a retórica elevada, emoção e até lágrimas. Depois veio uma cornucópia de reivindicações; os apetites aumentaram, os delegados revelaram os seus próprios lamentos e desejos, esperando que estes também pudessem ser considerados. Os trabalhadores metalúrgicos, no entanto, insistiram que as reivindicações da greve fossem limitadas às dos trabalhadores dos estaleiros já existentes – o que eles queriam era uma “demonstração clara do poder económico do trabalho organizado.”

A reunião terminou em alvoroço quando o delegado Fred Nelson desenrolou uma faixa ilustrando um soldado e um marinheiro de uniforme com um trabalhador de macacão e o slogan “Juntos venceremos”. Seguiu-se “uma tempestade de aplausos que durou vários minutos”, diminuindo apenas quando o delegado Ben King dos Painters, recém-retornado do Congresso Mooney em Chicago, relatou que “dormiu entre soldados e marinheiros e todos eles estão connosco”. Os aplausos “irromperam mais uma vez”.

A primeira greve geral da América

No dia 6 de fevereiro de 1919, os trabalhadores de Seattle – todos eles – avançaram. Ao fazê-lo, assumiram literalmente o controlo da cidade. Pararam a cidade – um estranho silêncio impôs-se nas ruas normalmente movimentadas e à beira-mar, onde “nada se mexia para além das marés”. O Union Record do CLC noticiou 65 mil sindicalizados. Foi uma greve geral, a primeira do tipo nos Estados Unidos. Terão possivelmente participado cem mil trabalhadores – aos grevistas juntaram-se trabalhadores não-sindicalizados, trabalhadores desempregados e os seus familiares. As autoridades da cidade sentiam-se impotentes – de facto não havia poder algum que pudesse desafiar os trabalhadores. Havia soldados na cidade e muitos mais no Camp Lewis, já para não mencionar os milhares de recém-recrutados delegados armados, mas soltá-los numa cidade pacata? A polícia normal tinha sido reduzida ao papel de espectadora; os generais hesitaram.

Trabalhadores de Seattle preparam a greve de 1919. Foto de Libcom.org.

Trabalhadores comuns, sindicato por sindicato, elegeram a liderança da greve, um comité de greve. O comité de greve elegeu um comité executivo. Reunidos praticamente ininterruptamente, asseguraram a saúde, o bem-estar e a segurança da cidade. O lixo foi recolhido, os hospitais foram abastecidos, os bebés foram amamentados e as pessoas foram alimentadas, incluindo cerca de trinta mil por dia nas cozinhas dos grevistas.

As ruas estavam seguras, possivelmente como nunca antes, patrulhadas por uma guarda não-armada de trabalhadores. Foi noticiado que o crime diminuiu. No entanto, os ricos, aqueles que não puderam ou não quiseram fugir para Portland ou para a Califórnia, começavam a armar-se. O Seattle Star perguntava: “sob qual bandeira?” – a vermelha, branca e azul, ou a vermelha. O presidente da Câmara, Hanson, argumentou que seria esta última e alertou que uma revolução estava em marcha. A AFL avançou, denunciando os grevistas e enviando centenas de emissários. A greve geral não foi uma revolução. Foi uma ação coordenada em apoio aos trabalhadores dos estaleiros da cidade. Ainda assim, nunca havia ocorrido nada do género. Os grevistas deixaram os seus empregos no meio de uma grande onda de greves nos anos da Primeira Guerra Mundial e durante uma crise internacional que foi de facto revolucionária em alguns lugares – uma crise que evoluiu à sombra da revolução na Rússia.

Não admirava, portanto, que a ideia de uma revolução estivesse no ar – aterrorizando alguns, inspirando outros. Além disso, ninguém sabia ao certo até onde é que a greve poderia chegar. A greve era simples e direta para muitos, uma poderosa declaração de solidariedade e nada mais. Mas outros, de facto, queriam mais: a vitória total para os trabalhadores do estaleiro, por exemplo. Alguns queriam muito mais, mas certamente ninguém poderia saber, naquela manhã fria de fevereiro, com alguma certeza exatamente o que estava por vir. Daí o editorial de 6 de fevereiro do Union Record, escrito por Anna Louise Strong:

NA QUINTA FEIRA ÀS 10h. Serão muitos aqueles que exaltarão e alguns que temerão. Ambas as emoções são úteis, mas em quantidades razoáveis. Estamos a executar a ação mais tremenda jamais feita pela FORÇA DO TRABALHO neste país, uma ação que nos levará – NINGUÉM SABE PARA ONDE! Não precisamos de histeria. Precisamos da marcha de ferro do trabalho.

As ruas de Seattle estavam silenciosas e alguns achavam que isso representava um problema. “Os Grevistas de Seattle são Demasiado Educados”, referia o Appeal to Reason, o jornal socialista do Centro-Oeste americano. Mas esta não era uma interpretação correta. Os grevistas temiam provocações e tinham boas razões para tal – essa tática tinhasido repetidamente usada na guerra contra os Wobblies. No entanto, nos locais onde os trabalhadores se reuniam, nas “estações de alimentação”, nas estruturas dos sindicatos, nos mercados cooperativos ou nos bairros onde os trabalhadores e as suas famílias moravam, era uma história diferente.

As “estações de alimentação” eram montras de auto-organização. Podem ter sido autorizadas pelos comités de greve; mas, no terreno, dependiam da criatividade das pessoas comuns. Milhares de voluntários assumiram as tarefas da greve, incluindo a gestão das cozinhas, a organização da distribuição de leite e o policiamento da cidade. O processo de distribuição de leite era complexo. “As leitarias abastecidas pelos produtores que fornecidos pelos produtores de leite eram apenas onze, tão circunscritas que seria impossível para as mães de Seattle conseguirem leite, a menos que tivessem automóveis”. Deste modo, os motoristas das carrinhas do leite “escolheram 35 locais espalhados por toda a cidade, asseguraram o uso do espaço nas lojas e começaram a montar estações de leite nos bairros”. Strong perguntou se as cozinhas davam refeições de graça. “Muitas delas”, foi a resposta. “Não recusamos ninguém, sindicalizado ou não sindicalizado, se essas pessoas não puderem pagar.” A greve pode muito bem ter sido a única ocasião, antes disso e desde então, em que ninguém em Seattle passou fome.

Refeitório durante a greve de Seattle. Foto: wikimedia commons.

Nos sábados à noite, os grevistas organizavam um baile, e às segundas-feiras organizavam grandes comícios. No bairro de Georgetown, a multidão era tão grande que o prédio afundou ligeiramente e teve de ser evacuado. A reunião foi reconvocada e com

grande entusiasmo… foi decidido fazer das reuniões um evento semanal regular… foi uma decisão unânime que a greve se prolongasse até que um salário digno fosse obtido pelos trabalhadores dos estaleiros… Muitos dos presentes opinaram que o escopo das reuniões deveria ser ampliado de forma a incluir as esposas e filhas dos trabalhadores e torná-las em verdadeiros encontros comunitários para a discussão de questões em que todos estivessem envolvidos.

Em todos esses lugares, o tema era a greve. Era analisada, criticada, exaltada e debatida e, quando os representantes dos trabalhadores enchiam as turbulentas, emotivas reuniões do comité de greve, vinham preparados; estavam a fazer história e sabiam-no. A greve geral serviu para constatar que os trabalhadores de Seattle se tinham tornado numa classe “para si mesmos” – com consciência de classe e “presentes na criação”, como afirmou o falecido historiador E. P. Thompson. “A consciência de classe surge da mesma maneira em diferentes épocas e lugares, mas nunca da mesma maneira”, escreveu em The Making of the English Working Class.

Ficar aquém

Infelizmente, “a alegria da maravilhosa demonstração de solidariedade experienciada na quinta e na sexta-feira começou a dar lugar à apreensão”, escreveu O’Connor. No terceiro dia da greve, perceberam que o movimento laboral de Seattle estava isolado. A greve não se espalhara pela costa até à Califórnia, nem houvera um apoio a nível nacional. Não havia muito, O’Connor observou, “por onde se ajudar e dar conforto, mesmo que fosse verbalmente, aos movimentos laborais de Seattle e Tacoma. Infelizmente, Seattle era bastante particular na sua militância.” E, contra eles, a resposta das autoridades era implacável, especialmente a daqueles que se dedicavam espalhavar o medo. Freneticamente previam um desenlace terrível: o Bolchevismo, a anarquia.

Hanson, incentivado pela imprensa, denunciou a greve como sendo “não americana” e recusou-se a negociar. O Post-Intelligencer observou: “O grande facto que se destaca da confusão temporária dos negócios é que Seattle, dado um breve período de reajuste, ficaria bem, se não melhor do que antes, se toda a sua população grevista fosse repentinamente retirada da cidade.” Hanson ameaçou implementar a lei marcial se a greve não terminasse às 10 da manhã de sábado. Os “interesses” em Nova York e Washington DC, juntaram-se ao coro. A AFL denunciou a greve, com o Teamsters Joint Council a ordenar que os grevistas retornassem ao trabalho. Houve telefonemas e telegramas e um dilúvio de intimidações, ameaças e difamação dos gabinetes internacionais.

A AFL censurou o Central Labor Council e mais tarde receberia os louros por derrotar a sua “greve”. Os representantes dos gabinetes internacionais acabariam por chegar pessoalmente, ameaçando rescindir licenças, confiscar propriedades sindicais e demitir funcionários. Entretanto, os estaleiros no Leste e na Califórnia continuavam como de costume. O risco dos proprietários fecharem permanentemente os estaleiros de Seattle parecia bastante real – uma desindustrialização política, escolhida.

No sábado, 8 de fevereiro, vários sindicatos recuaram, embora não tenha constituído, de forma alguma, uma debandada. O Comité Executivo aprovou, com 11 votos a favor e 2 contra, o fim da greve. Escolheram Jimmy Duncan, presidente do CLC mas que não era delegado, para falar com o comité de greve por eles. Duncan tentou convencer os presentes de que continuar a paralisação seria inútil. Acabaria por falhar. O comité de greve, exasperado pelas ameaças de Hanson e ainda assim comprometido com a vitória, votou esmagadoramente a favor da continuação da greve, assim como fizeram os estivadores e os sindicatos dos metalúrgicos. A divisão entre o operariado, por um lado, e o comité executivo, por outro aprofundou-se cada vez mais.

Então, na segunda-feira, com mais sindicatos a cederem, Duncan regressou ao comité de greve. Duncan recomendaria que o fim da greve ocorresse na terça-feira ao meio-dia. Solicitou que os sindicatos que haviam retornado aos seus empregos também saíssem à rua para que os grevistas pudessem voltar unidos; tal como haviam saído na quinta-feira, assim retornariam na terça-feira. Os grevistas do estaleiro continuariam na rua por mais um mês.

Uma classe em conflito

Como deve esta greve ser avaliada? Harvey O’Connor escreveu: “Para a maioria dos sindicatos de Seattle, não parecia que tinham sido derrotados quando a greve terminou. Tinham demonstrado solidariedade com os seus irmãos dos estaleiros e a memória dos dias gloriosos em que a classe trabalhadora mostrara a sua força resplandecia nas suas mentes.”

Este sentimento era comum entre os trabalhadores de Seattle. As atas do CLC estavam preenchidas com mensagens de parabéns: o Metal Trades Council em Aberdeen elogiou os trabalhadores de Seattle “pela excelente conduta da bem-sucedida greve geral [e instou] um grande sindicato e uma greve de 24 horas no 1.º de maio [com vista] a demonstrar a sua solidariedade.” Do Astoria Central Labor Council veio um comunicado “cumprimentando o Organized Labor pela excelente conduta da bem-sucedida greve geral”. Os Mine Workers Locals n.º 2917, 1044, 1890 e 4309 enviaram resoluções “condenando a atitude do ‘Star’ em relação à greve e estando dispostos a não ir trabalhar, caso as condições o justificassem”. O King County Pomona Grange prometeu apoiar a causa fornecendo produtos hortícolas e financiamento aos grevistas, enquanto que dinheiro e manifestações de solidariedade eram oferecidos por empresas locais.

Outros concordaram. O Socialists’ New York Call escreveu:

Independentemente do que possa ser dito sobre a greve de Seattle, não se pode certamente afirmar que foi um “golpe cego”, como afirma o Journal of Commerce. Foi calculado e preparado e é um dos melhores exemplos de sacrifício e solidariedade que os trabalhadores demonstraram em muitos anos. É uma greve solidária da qual participam trabalhadores que não têm nenhuma queixa própria, pelo menos nenhuma com que estejam preocupados no momento. Os trabalhadores saíram em apoio a outro grupo de trabalhadores com o objetivo de ajudar estes últimos a garantir uma vitória rápida.

Max Eastman, editor do Liberator, visitara Seattle naquele inverno. A sua contribuição para a causa, se é que houve alguma, não foi registada. No entanto, foi registada a sua avaliação: “A Greve Geral nesta cidade de Seattle encheu de esperança e felicidade os corações de milhões de pessoas em todos os lugares do mundo… Vocês demonstraram a possibilidade da solidariedade leal da classe trabalhadora que é a única esperança remanescente de liberdade para a humanidade.”

A versão académica dessa história, que permanece amplamente consensual, resultad do trabalho de Robert L. Friedheim. “A primeira grande greve geral nos Estados Unidos terminou silenciosamente ao meio-dia do dia 11 de fevereiro de 1919”, escreveu, acrescentando sem quaisquer provas, “Algo timidamente, os trabalhadores de Seattle retornaram aos seus empregos nas lojas, fábricas, hotéis, armazéns e estações dos elétricos. A greve fora um fracasso e todos o sabiam. Nos dias seguintes, os trabalhadores aprenderiam que fora pior do que um fracasso – fora um desastre.” O próprio comité de greve do CLC, no entanto, e para seu grande mérito, criou um comité para produzir uma história da greve. Anna Louise Strong registou, desde logo, as suas próprias descobertas:

A vasta maioria [dos trabalhadores] expressou a sua solidariedade… e foram bem-sucedidos para lá das suas expectativas. Viram o movimento dos trabalhadores sair à rua quase como um homem só e unir as indústrias da cidade. Viram os japoneses, o IWW e muitos trabalhadores individuais juntarem-se à greve e responderam-lhes com um brilho de apreço. Viram as carroças do lixo e da lavandaria a percorrerem as ruas da cidade marcados como “autorizados pelo comité de greve”. Viram que a atenção de todo o continente se voltou para os estaleiros de Seattle. Aprenderam muito mais do que esperavam – mais do que qualquer pessoa em Seattle sabia antes. Aprenderam como se desmonta e monta uma cidade. Aprenderam o que significava fornecer leite para os bebés da cidade, alimentar 30.000 pessoas com uma organização totalmente nova. Aproximaram-se, pela primeira vez nas suas vidas, dos problemas de gestão.

No decurso dos cinco dias da greve, não houve lockouts ou despedimentos significativos. Não houve fura-greves, nem trabalhadores “de substituição” que precisassem de proteção. Nada de prisões em massa, nada de ter de procurar advogados, nada de angariar fundos para a defesa. Não houve violência – logo não havia funerais, vigílias ou viúvas com filhos para sustentar. Os líderes do comité de greve e do Central Labor Council trabalharam para que o punhado de vítimas da greve – houve poucas vítimas – retornassem ao trabalho. Continuaram a ser bastante capazes de o conseguir.

O facto é que os patrões não ousaram testar os trabalhadores, não a curto prazo. Seattle permaneceu uma cidade sindical. Obviamente, havia uma sensação de que as coisas haviam voltado ao normal, sendo a exceção a zona portuária, onde o conflito continuou como numa montanha-russa. As transportadoras marítimas impuseram a “loja aberta”, tendo esta decisão sido revertida em agosto. Agora, por fim, o ILA alcançara o controlo do trabalho e uma lista única por ordem alfabética. Os trabalhadores de Seattle permaneceram “propensos a greves”, entre os mais combativos do país, entre 1920 e 1921. Os salários permaneceram relativamente altos na cidade, bem como o custo de vida, estabilizando mas permanecendo acima das médias nacionais até 1921.

Os trabalhadores de Seattle tinham-se formado enquanto classe em conflito – em lutas que ocorriam nas florestas, no porto, nos cafés e nas lavandarias. Os trabalhadores forjaram a sua identidade de classe na longa e difícil luta pelos sindicatos industriais, pela loja fechada e na luta pelo poder dos trabalhadores. Num momento inicial, os utópicos da Cooperative Commonwealth tinham ensinado o socialismo e tentado praticar aquilo que pregavam. Mais tarde, o IWW e o Partido Socialista lutaram pelo socialismo, com o CLC, um passo de cada vez, na tentativa de implementá-lo.

A década de 1910 fora uma década de organização, cooperação e greve, as armas mais básicas do povo trabalhador em batalhas que às vezes eram vencidas e outras perdidas. A consciência surgiu nas colónias utópicas, em acampamentos de madeireiros e fábrica, em lutas de liberdade de expressão e nos portos, na guerra e em dissidência, em greves das “raparigas dos telefones”, das empregadas de mesa, das empregadas de hotel, das “barbeiras” e trabalhadores das lavandarias, em cooperativas e em bairros da classe trabalhadora.

Os trabalhadores de Seattle transformaram um mundo de guerra, doença, morte e sofrimento, numa grande celebração dos vivos, mesmo que por apenas cinco dias. A greve geral foi, para os trabalhadores de Seattle, um passo gigantesco em direção a um futuro que poderia ser deles. Esta aspiração era certamente válida em termos da sua própria experiência. Os trabalhadores insistiram que a sua visão não era, de todo, um “castelo no ar” inventado por pregadores e políticos. Um mundo melhor era possível. Ainda o é.


Cal Winslow é historiador, investigador em Políticas Ambientais na Universidade da Califórnia. É diretor do Mendocino Institute e autor de Radical Seattle: The General Strike of 1919, de Labor’s Civil War in California entre vários outros livros. É editor de E.P. Thompson and the Making of the New Left.

Texto publicado originalmente na revista Jacobin.

Tradução de Karim Quintino para o Esquerda.net.

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