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Revoluções: Visita guiada à Guiné-Bissau, Angola e Portugal pela lente de Uliano Lucas

Museu do Aljube acolhe até 30 de setembro uma exposição de fotografias captadas por Uliano Lucas entre 1969 e 1974. Dois dos seus curadores, Miguel Cardina e Vincenzo Russo, acompanharam-nos numa visita guiada aos retratos de quem se impôs como sujeito da História. Por Mariana Carneiro.
Foto de Mariana Carneiro.

“Revoluções – Guiné-Bissau, Angola e Portugal (1969-1974)” é o nome da exposição temporária em exibição no piso 4 do Museu do Aljube - Resistência e Liberdade.

Com curadoria de Elisa Alberani, Miguel Cardina e Vincenzo Russo, esta exposição, composta por uma seleção, entre milhares de possibilidades, de 56 fotografias captadas por Uliano Lucas entre 1969 e 1974, “é a história de uma viagem feita de várias viagens”.

Em 1969, o “fotógrafo documentarista”, como se auto-intitula, viajou, juntamente com o amigo e jornalista Bruno Crimi, para a Guiné-Bissau a pedido do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC). Ambos passaram três meses, entre junho e agosto, nas zonas libertadas.

Tal como explica numa entrevista ao jornal Público, publicada a 23 de abril deste ano, Uliano Lucas “não quis fotografar uma guerra, mas um movimento revolucionário”.

“Uliano sempre disse que não quis fotografar a guerra e as suas atrocidades, ainda que, nessa altura a imprensa ocidental, a imprensa europeia”, estivesse “muito ávida da pornografia da guerra, das armas, do sangue, dos mortos”, apontou Vincenzo Russo.

No painel que apresenta esta primeira parte da exposição, Elisa Alberani, Miguel Cardina e Vincenzo Russo referem que “Crimi e Lucas acompanharam e testemunharam a vida quotidiana das populações, o nascimento de instituições democráticas, a organização militar e a preparação política e cultural dos guerrilheiros e das guerrilheiras do PAIGC, naquele caso sob a chefia de Luís Cabral”.

Durante a visita guiada, Miguel Cardina deu ênfase ao facto de Crimi e Lucas retratarem a “construção das zonas libertadas”, que era “mais evidente e consequente” no PAIGC face a outros movimentos de libertação. De acordo com o investigador, o seu trabalho constituiu um importante testemunho do “nascimento de um proto-Estado”, no âmbito do qual a Educação assumiu um papel central. Através da lente de Lucas e das palavras de Crimi, o PAIGC pôde mostrar aquilo que era: “um exército popular que atuava no território ocupado pelo colonizador”, frisou o historiador.

Vincenzo Russo reforçou a ideia da importância das fotos como “propaganda política”.

Ideia esta que também foi confirmada por Uliano Lucas na entrevista ao Público: “Para o PAIGC, nós fomos muito importantes, porque fomos os primeiros a ser a correia de transmissão de informação”.

“Tínhamos ido para lá explicando que queríamos tentar contar como nascia uma democracia africana. Era a curiosidade, sobretudo de Bruno, mas também minha. Porque, para além de se tratar de um documento fundamental para eles, era o transportar de uma história para o conhecimento de uma elite italiana, e também francesa, de como ali se estava a construir um novo modelo, uma nova democracia”, acrescentou o fotógrafo.

Vincenzo Russo assinalou ainda que as fotos deram um importante contributo para a “desmontagem do estereótipo do guerrilheiro”, e que a presença das mulheres e o seu papel na luta revolucionária assumem um destaque notório neste trabalho.

“Elas estavam presentes por toda a parte, estavam organizadas”, frisou Lucas em declarações ao jornal diário.

As fotografias registam a realidade do quotidiano nas zonas libertadas, e privilegiam os rostos de quem se impôs como sujeito da História.

“Da minha parte, isso significou que eu me anulasse totalmente como fotógrafo — apercebi-me de que só podia registar aquela realidade com uma simplicidade incrível. Foi uma intuição. Tinha de registar sem tirar aquela fotografia ‘vendável’. Tinha de ser aquela fotografia que era a vida. E muitas deixámo-las de fora”, explicou Lucas.

A reportagem de Crimi e Lucas foi publicada no Vie Nuove, o semanário do Partido Comunista Italiano, que contava com 250 mil exemplares, ou seja, pelo menos 600/700 mil leitores. Posteriormente, o seu trabalho deu ainda origem ao livro Guinea-Bissau: una rivoluzione africana, publicado em Milão pela editora Evangelista, em 1970, e que foi apresentado na ONU. Tal como sublinham Elisa Alberani, Miguel Cardina e Vincenzo Russo, a obra tornou-se, desta forma, num “importante documento diplomático”.

ANGOLA (1972)

Uma viagem a dois a Angola, agendada para dezembro de 1972, acabou por se tornar, conforme sublinhou Lucas, numa “viagem solitária”, na medida em que Crimi se confrontou com problemas de saúde.

Vincenzo Russo enfatizou que, mais uma vez, neste trabalho é retratado o quotidiano dos guerrilheiros, com uma “atenção muito cuidadosa em relação aos rostos”. O professor e autor fez referência à presença de Pepetela numa das imagens em exposição.

Algumas fotos desta reportagem foram publicadas em revistas europeias da época, e outras foram incluídas nos volumes I protagonisti della rivoluzione: Cabral, Mondlane, Neto (CEI, 1973) e La primavera di Lisbona. Anno primo della rivoluzione, publicado pela editora Vallecchi de Florença, em 1975.

PORTUGAL (1972 E 1974)

A terceira parte da exposição é dedicada a Portugal, e reúne imagens captadas em dois momentos distintos: durante a semana e meia que Lucas passou em Portugal, em 1972; e logo após o 25 de Abril. Estes registos foram publicados em jornais como o Jeune Afrique, Astrolabio, Tempi Moderni, e deram origem ao livro La primavera di Lisbona. Anno primo della rivoluzione, Firenze: Vallecchi, 1975.

Convencido de que era “preciso fotografar Portugal com todas as suas contradições”, Lucas deslocou-se, em 1972, a diferentes zonas do país, captando, tal como referiu Miguel Cardina, “um Portugal em transformação”, caracterizado pela sua ruralidade mas, também, por processos de modernização.

O historiador afirmou que, “num país que vivia em ditadura, e amordaçado pela censura”, Lucas encontra “pequenos gestos infrapolíticos”, como a frase “Viva o 1º de Maio” escrita numa parede ou uma criança que arranca cartazes coloniais.

A 27 de abril, Lucas e Crimi regressaram a Portugal. Dessa nova estadia resultaram imagens poderosas. Vincenzo Russo deu destaque ao retrato de um casal que assistia ao desenrolar dos acontecimentos, confrontado com “a incógnita perante um tempo que se estava a abrir”. De acordo com o professor, esta é uma “imagem particularmente bem conseguida a vários níveis, não só estéticos, como também de captar um certo pulsar da Revolução mais insuspeito, mas que também se nota ali”.

No que respeita ao 1º de Maio 1974, ainda que o trabalho retrate a dimensão de massas, há novamente uma atenção especial aos rostos.

“Uma exposição muito necessária”

Após a visita guiada foi ainda possível conversar com os curadores Miguel Cardina e Vincenzo Russo, e com a diretora do Museu do Aljube.

Rita Rato realçou que esta “é uma exposição muito necessária”, que nos transporta para a história da luta anti-colonial e dos movimentos de libertação, e das mulheres nas frentes desses movimentos e na construção de uma zona libertada.

De acordo com a diretora do Museu do Aljube, esta é “uma forma ainda pioneira de olhar quer para a resistência, quer para o 25 de Abril”, trazendo “outras narrativas” e demonstrando que “a independência não foi uma independência negociada, foi uma independência conquistada primeiro”.

A par da exposição, foi lançado um livro, com o mesmo nome e chancela da Edições do Saguão, que reúne um maior número de imagens deste decano da fotografia italiana.

 

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Mestranda em História Contemporânea.
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