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A Revolta dos Marinheiros em 1936

Oitenta anos são passados sobre a revolta dos marinheiros, em 8 de setembro de 1936 - ano decisivo para a consolidação da ditadura de Salazar. Por Álvaro Arranja
1936 - marinheiros presos
1936 - marinheiros presos

Uma década depois do derrube da I República o regime procurava consolidar-se, esmagando a oposição com uma repressão cada vez mais organizada.

A Guerra Civil de Espanha desencadeou-se nesse ano e cedo se tornou evidente que a sorte da ditadura portuguesa, estava ligada aos acontecimentos do país vizinho. Nos inícios de Setembro, as tropas franquistas já tinham obtido alguns êxitos. Porém, era evidente que a guerra se iria prolongar e Madrid continuaria nas mãos dos republicanos. O regime de Salazar prestava, já então, um auxílio importante aos revoltosos, em armamento e outros abastecimentos, decisivos para as vitórias de Franco nas batalhas da Extremadura que uniram os exércitos do norte e do sul. O porto de Lisboa era usado para desembarque de armamento de várias proveniências, nomeadamente da Alemanha, seguindo depois em colunas terrestres para as frentes de Extremadura, Andaluzia ou Castela.

A Praga Comunista”

É neste contexto que podemos situar a revolta dos marinheiros no Tejo, em 8 de Setembro de 1936. Neste dia marinheiros dos barcos da armada portuguesa, Afonso de Albuquerque, Dão e Bartolomeu Dias revoltaram-se com o objetivo de derrubar o regime de Salazar, tendo como plano alternativo, no caso de não obterem apoio em terra (como veio a acontecer), conduzir os navios para os Açores libertando os presos políticos em Angra do Heroísmo, seguindo depois para Espanha juntando-se à frota republicana.

Navio Afonso de Albuquerque atingido pela artilharia do governo salazarista

Navio Afonso de Albuquerque atingido pela artilharia do governo salazarista

O navio Afonso de Albuquerque havia chegado uma semana antes, vindo de portos espanhóis da zona republicana, onde tinha sido enviado para recolher portugueses que pretendiam abandonar Espanha. Segundo o jornal de Lisboa "Diário de Notícias" de 9 de Setembro de 1936, “um rádio do respectivo comandante prevenira o Ministro da Marinha de que a bordo se denunciava uma estranha excitação por parte de dúzia e meia de cabos”, tendo o navio entrado na barra “escoltado por submarinos e um contra-torpedeiro”.

Durante a sua estada em Espanha, os marinheiros tinham-se manifestado abertamente favoráveis ao lado republicano, o que desencadeou a ação repressiva da polícia política (então denominada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado). Logo à chegada a Lisboa, segundo o jornal diário "O Século" de 9.9.1936, “foram presos 18 marinheiros”. Entre os presos, alguns pertenciam à ORA (Organização Revolucionária da Armada ligada ao PCP), organização clandestina dos marinheiros antisalazaristas que irá desempenhar papel de relevo nos acontecimentos.

Refletindo a posição do regime, comenta o " Diário de Notícias" de 9.9.1936 que “a insubordinação a bordo dos navios de guerra, dependia exclusivamente dos acontecimentos que se desenrolam em Espanha”. E continua no mesmo sentido, afirmando que “em Portugal os raros amigos da Frente Popular madrilena, haviam-se constituído numa espécie de associação secreta, com o fim de secundarem em terra portuguesa, a acção revolucionária do Governo de Madrid”. Mais adiante refere o mesmo jornal que “foi a praga comunista no porto de Valência que contaminou alguns tripulantes do navio Afonso de Albuquerque”.

A Revolta no Tejo

A rebelião dos marinheiros, iniciou-se na madrugada de 8 de Setembro, em três barcos ancorados no Tejo. Segundo "O Século", pelas “3h30m no Cais do Sodré, fez-se um embarque clandestino de marinheiros”. Estes embarcaram em pequenas lanchas e dirigiram-se para os navios. Nos três barcos, foram presos os oficiais de serviço.

Entretanto, segundo a imprensa da época inevitavelmente favorável a Salazar, o Governo tinha conhecimento prévio da revolta. O capitão Lourenço, diretor da polícia política (PVDE), inteira-se do embarque clandestino efetuado no Cais do Sodré, comunicando-o ao Ministro da Marinha. Pelas “quatro horas, as tropas estavam de prevenção e alguns auto-metralhadoras blindados no Terreiro do Paço” frente ao Tejo. Pelas quatro horas e quinze minutos, o tenente Tenreiro, mais tarde figura destacada do regime salazarista, dirigiu-se num rebocador ao navio Afonso de Albuquerque, sendo repelido pelos marinheiros, revelando assim a situação de revolta que aí se vivia. Uma avaria nas máquinas do Bartolomeu Dias, atrasou a saída dos navios. Só pelas 7h40m, o navio Afonso de Albuquerque iniciou a sua marcha.

Navio Afonso de Albuquerque atingido pela artilharia do governo salazarista

Navio Afonso de Albuquerque encalhado em Algés, depois de ser bombardeado

Entraram então em ação as baterias de artilharia do Forte de Almada, situadas numa zona elevada que domina todo o estuário do Tejo, controladas pelo Governo que ordenou a destruição dos barcos. Segundo o Diário de Lisboa, “o Afonso de Albuquerque iniciou a sua fuga navegando devagar e encostando-se à margem sul do Tejo. O forte não cessava de disparar. O navio conseguiu, porém, apesar de ter estado trinta minutos sob o fogo da artilharia e de ter sido atingido por algumas granadas, descer mais o rio, encostando-se à Torre de Belém”. Foi então que a artilharia do Forte do Alto do Duque, em posição dominante sobre o Tejo a partir da margem norte, reforçou o bombardeamento, forçando o navio, apanhado entre dois fogos e gravemente atingido, a render-se, não conseguindo sair do Tejo.

Entretanto outro dos barcos revoltados, o Dão, entra em movimento, navegando habilmente envolto num fumo que ele próprio provoca, para escapar ao fogo do Forte de Almada. Mais adiante o Dão vai ficar sob o fogo da artilharia dos dois fortes, um a sul e outro a norte do Tejo. O Dão, muito encostado à margem sul do Tejo, navegava devagar, atingido no convés e nos paióis. Cerca das nove horas, em face da desesperada situação em que se encontrava, iça a bandeira branca.

De acordo com o "Diário de Notícias" de 9.9.1936, “o espectáculo era impressionante. As granadas de Almada faziam um verdadeiro circulo no navio, à popa e à proa, a bombordo e a estibordo, levantando enormes ondas”.

A Repressão

Mesmo após os sinais de rendição, a artilharia dos fortes de Almada e do Alto do Duque continuaram o bombardeamento, forçando os marinheiros a deitarem-se ao Tejo, tentando atingir as margens.

Depois da rendição do navio Dão, que não tinha feito qualquer fogo durante os acontecimentos, os marinheiros continuaram a ser alvo das metralhadoras terrestres. Segundo o "Diário de Lisboa" do próprio dia, “depois da rendição do Dão, que não fez tiro algum, foram lançadas ao mar baleeiras e viam-se homens nadando, que também se haviam lançado do navio ao mar. Recomeçou o fogo de metralhadoras sobre os fugitivos”.

Em terra organizou-se a perseguição aos fugitivos. Ainda segundo o mesmo periódico, “do forte saiu imediatamente uma camioneta com soldados, comandados pelo alferes Vitoriano, afim de dar caça aos fugitivos que desembarcassem nas margens. A força do alferes Vitoriano, a que se ligaram forças isoladas da GNR de Almada, bateu as margens”.

Marinheiros presos junto ao Governo Civil de Lisboa

Marinheiros presos junto ao Governo Civil de Lisboa

De imediato começaram as prisões dos marinheiros revoltados e também de civis. "O Século" descreve a situação, referindo que “marinheiros fugidos dos navios sublevados, à medida que iam sendo presos nas duas margens do Tejo, eram conduzidos por ordem do Ministro da Marinha, para a base de submarinos. A certa altura encontravam-se ali 110 marinheiros revoltosos”. Mesmo o barco das carreiras Lisboa-Cacilhas que tinha recolhido alguns marinheiros que nadavam no Tejo, foi abordado por um rebocador cheio de polícias armados para os prenderem. Ao todo foram “identificados no Governo Civil de Lisboa, os revoltosos presos que formam um total de 250 homens”.

Quanto ao número de mortos causados pela revolta, o "Diário de Lisboa" diz no título de uma notícia que “morreram 12 marinheiros e ficaram feridos 8”.

Porém, a odisseia dos insubmissos contra Salazar, não termina nesse dia. Após passarem pelas mãos da polícia política, são maioritariamente marinheiros da revolta de 8 de Setembro de 1936 que vão inaugurar a mais tenebrosa prisão do salazarismo, o campo de concentração do Tarrafal, nas ilhas de Cabo Verde, conhecido como o "campo da morte lenta", no qual irão morrer 32 presos políticos antifascistas.

Tarrafal, o Campo da Morte Lenta

Grande número de marinheiros cumprirão mais de 15 anos de cadeia naquele campo de concentração, onde o tórrido calor africano e as doenças próprias daquelas paragens se aliaram à extrema dureza do regime prisional, imitando o nazismo ou o franquismo.

Dos presos políticos mortos neste campo, alguns são marinheiros da revolta de 1936. É o caso de Jacinto Melo Faria Vilaça, aluno de manobras do navio Bartolomeu Dias, nascido em 1914. Segundo a sua biografia prisional incluída na ficha da polícia política, foi “entregue pelas autoridades da Marinha em 8.9.1936, por insubordinação. Transferido para a Cadeia Penitenciária em 18.9.1936. Embarcou para Cabo Verde em 17.10.1936 (...) condenado na pena de 4 anos de prisão celular seguidos de 8 de degredo. Faleceu em 3.1.1941 na Colónia Penal de Cabo Verde”.

O mesmo acontece a Henrique Fernandes, grumete de manobras do navio Bartolomeu Dias, nascido em 1913, “em 7.1.1942 faleceu pelas 15h15m na Colónia Penal de Cabo Verde”.

Cândido Alves Barja e Francisco José Pereira, ambos artilheiros do navio Bartolomeu Dias, resistem apenas um ano aos maus tratos do campo de concentração, morrendo em setembro de 1937.

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1936 foi um ano decisivo para a consolidação da ditadura de Salazar, a mais longa da Europa ocidental.

O Tejo assiste a um significativo momento de coragem de um punhado de homens que enfrenta uma ditadura já com um forte aparelho repressivo. O seu sacrifício não será em vão, mas não tem efeitos a curto prazo.

Salazar e a oligarquia económica a ele ligada, vão continuar a dominar Portugal, mesmo depois da derrota do nazismo alemão e do fascismo italiano, fazendo par com ditadura de Franco em Espanha, excluindo o país do desenvolvimento que a Europa conhecerá no pós-guerra.

Artigo de Álvaro Arranja para esquerda.net

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