Reclama a praia: os gregos mobilizam-se contra a privatização das praias

07 de agosto 2023 - 11:03

Com os concessionários de praias a invadir quase todo o espaço disponível em muitos areais com cadeiras e guarda-sóis para alugar, os cidadãos começaram a organizar-se, manifestaram-se e colocaram o tema na ordem do dia. Agora, o governo promete mais fiscalização.

PARTILHAR
Manifestantes em Paros. Foto do Twitter.
Manifestantes em Paros. Foto do Twitter.

Na Grécia, o acesso público às praias é um direito protegido constitucionalmente. Só que, na prática, a situação tem sido diferente. Com a dependência do setor do turismo, em muitas praias do país os concessionários privados foram invadindo os areais com cadeiras e guarda-sóis para alugar, com a inação das autarquias que concessionam os locais e das autoridades locais que os deviam vigiar, deixando quase nenhum espaço para os cidadãos desfrutarem o espaço supostamente público.

Na ilha de Paros, centenas de cidadãos fartaram-se e, o mês passado, protestaram na praia de Santa Maria contra a apropriação abusiva. Rapidamente obtiveram a primeira vitória: dias depois, as cadeiras de praia e chapéus de sol de aluguer foram retirados de metade daquela praia.

A notícia foi-se espalhando e o movimento ganhou dimensão, foi seguido noutras paragens, como nas ilhas de Naxos e Serifos em primeiro lugar, enquanto o mote “Reclama a Praia” se tornava viral.

Alguns órgãos de comunicação social passaram a falar na “revolta da toalha de praia” mas o nome não agrada aos manifestantes que em Paros continuam organizados enquanto Movimento de Cidadão pelas praias livres. Estes explicam que se trata de outra coisa, enquanto manifestam preocupação “com a ilegalidade nas praias de Paros por parte de empresas que exploram partes das praias e ocupam arbitrariamente o espaço comum com espreguiçadeiras e guarda-sóis, muito além dos limites previstos nos contratos de concessão que assinaram” e que pretendem continuar a defender “o direito dos cidadãos e visitantes da nossa ilha de terem livre acesso às praias que amamos”.

O investigador e professor de Ciências Políticas Nikolas Sevastakis explica que “o que alguns comentadores não entendem é que a mudança não tem a ver com uma espreguiçadeira, uma toalha, ou mesmo com uma quota de paz relativa para alguns cidadãos numa ou mais ilhas. A questão é quem e sob que termos tem o poder sobre o "verão grego", ocupando espaços de vida de uma comunidade e ditando o que o resto ouvirá e receberá como experiência”, tratando-se de um “movimento para reaproveitar a vida”.

Noutros locais, para além de Paros, sucedem-se manifestações. A semana passada, por exemplo, perto de 400 pessoas manifestaram-se nas praias de Paroikia num protesto que já não ocorria pela primeira vez e que denuncia várias das concessões por ocuparem o dobro ou mais do espaço que lhe é cedido e os proprietários das empresas por recusarem cumprir a lei.

Com o crescimento do movimento, o governo e as autoridades judiciais acabaram finalmente por anunciar intervenções naquilo que há muito é uma realidade conhecida. O Greek Reporter dá conta que de uma declaração do ministro das Finanças, Costis Hadzidakis que diz deu “instruções” para que as inspeções fossem aceleradas” e garantiu que ninguém iria ficar isento delas. Também a procuradora do Supremo Tribunal, Georgia Adeilini, anunciou o lançamento de uma investigação.