Na Grécia, o acesso público às praias é um direito protegido constitucionalmente. Só que, na prática, a situação tem sido diferente. Com a dependência do setor do turismo, em muitas praias do país os concessionários privados foram invadindo os areais com cadeiras e guarda-sóis para alugar, com a inação das autarquias que concessionam os locais e das autoridades locais que os deviam vigiar, deixando quase nenhum espaço para os cidadãos desfrutarem o espaço supostamente público.
Na ilha de Paros, centenas de cidadãos fartaram-se e, o mês passado, protestaram na praia de Santa Maria contra a apropriação abusiva. Rapidamente obtiveram a primeira vitória: dias depois, as cadeiras de praia e chapéus de sol de aluguer foram retirados de metade daquela praia.
A notícia foi-se espalhando e o movimento ganhou dimensão, foi seguido noutras paragens, como nas ilhas de Naxos e Serifos em primeiro lugar, enquanto o mote “Reclama a Praia” se tornava viral.
Alguns órgãos de comunicação social passaram a falar na “revolta da toalha de praia” mas o nome não agrada aos manifestantes que em Paros continuam organizados enquanto Movimento de Cidadão pelas praias livres. Estes explicam que se trata de outra coisa, enquanto manifestam preocupação “com a ilegalidade nas praias de Paros por parte de empresas que exploram partes das praias e ocupam arbitrariamente o espaço comum com espreguiçadeiras e guarda-sóis, muito além dos limites previstos nos contratos de concessão que assinaram” e que pretendem continuar a defender “o direito dos cidadãos e visitantes da nossa ilha de terem livre acesso às praias que amamos”.
O investigador e professor de Ciências Políticas Nikolas Sevastakis explica que “o que alguns comentadores não entendem é que a mudança não tem a ver com uma espreguiçadeira, uma toalha, ou mesmo com uma quota de paz relativa para alguns cidadãos numa ou mais ilhas. A questão é quem e sob que termos tem o poder sobre o "verão grego", ocupando espaços de vida de uma comunidade e ditando o que o resto ouvirá e receberá como experiência”, tratando-se de um “movimento para reaproveitar a vida”.
Noutros locais, para além de Paros, sucedem-se manifestações. A semana passada, por exemplo, perto de 400 pessoas manifestaram-se nas praias de Paroikia num protesto que já não ocorria pela primeira vez e que denuncia várias das concessões por ocuparem o dobro ou mais do espaço que lhe é cedido e os proprietários das empresas por recusarem cumprir a lei.
A movement has been born in Paros. It's motto is "Reclaim the Beach", and it's formed up by residents of the island who protest in front of greedy beach bars, demanding access to the beach for all as well as an end to illegal sunbeds. Here they are in front of Marcello Beach. pic.twitter.com/Z0DheFbp1m
— Niko Efstathiou (@NikoEfst) July 30, 2023
Com o crescimento do movimento, o governo e as autoridades judiciais acabaram finalmente por anunciar intervenções naquilo que há muito é uma realidade conhecida. O Greek Reporter dá conta que de uma declaração do ministro das Finanças, Costis Hadzidakis que diz deu “instruções” para que as inspeções fossem aceleradas” e garantiu que ninguém iria ficar isento delas. Também a procuradora do Supremo Tribunal, Georgia Adeilini, anunciou o lançamento de uma investigação.