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Que fazer de Marx, 200 anos depois?

Para a filósofa Isabelle Garo, em tempo de crise do capitalismo e das alternativas, o recurso a Marx é mais precioso de que nunca. Isabelle Garo estará presente na Conferência dos 200 anos de Karl Marx, a 24 e 25 de março, em Lisboa.
Isabelle Garo.
Isabelle Garo.

Por ocasião deste 200º aniversário, à crise agravada do capitalismo, na sua fase neoliberal, acresce a crise das alternativas. Pelo lado do capitalismo, vivemos todos os dias na Europa as contrarreformas violentas que invertem a passos largos o que foi conquistado por décadas de lutas. Devemos ainda acrescentar a isto a crise climática, que é uma crise social, a multiplicação dos conflitos armados, a escalada de todas as formas de repressão e de regressão, sob o pano de fundo da explosão das desigualdades.

Este cenário é conhecido e a questão está em saber em que é que Marx nos é necessário para pensar este desastre e, sobretudo, para sair dele. Porque, pelo lado das alternativas, a crise parece indissociável não apenas de Marx mas de toda a história do marxismo. Ainda assim, as lutas sociais não desapareceram, a solidariedade para com os refugiados existe, as cooperativas, greves e ocupações multiplicam-se. Deve também constatar-se a recuperação do interesse em Marx por parte das gerações jovens.

Globalmente, no entanto, a crescente contestação não é consequente e falta-lhe perspetiva coletiva. Neste contexto, e tendo em conta que recorrer a Marx não significa repeti-lo, há duas razões que tornam o recurso a Marx mais precioso do que nunca.

A primeira diz respeito ao diagnóstico: em Marx, não é apenas característico propor uma visão global de um capitalismo também global, mas também analisar as contradições económicas e sociais que o tecem, que o constituem. A sua análise permanece sem equivalente, mesmo se é sempre preciso reajustá-la às condições presentes.

A segunda, que se associa diretamente à primeira, diz respeito à alternativa mas também aos meios que a permitem: a muito esquecida questão das transições em direção a um mundo não capitalista. Esta questão, que inclui a dos meios para a finalidade e vice-versa, é a do comunismo. 

Em primeiro lugar, pode afirmar-se que a palavra saiu enfraquecida e desacreditada do século XX. Por isso, é lógico, mas também muito problemático, que o seu regresso se faça antes de mais no campo da teoria ou de modo por vezes puramente encantatório. Como perspetivá-la em Marx?

O comunismo não é nem um projeto alternativo antecipadamente descritível nem um sonho vão: designa antes de mais o movimento teórico e prático pelo qual uma realidade se critica a si mesma e torna possível e necessária a sua própria superação, inventando progressivamente as suas condições, ajustando-se e corrigindo-se incessantemente. É esta última questão que ressoa nesta célebre definição, proposta por Marx e Engels em Ideologia Alemã:

“o comunismo não é um estado que deva ser implantado, nem um ideal a que a realidade deva obedecer. Chamamos comunismo ao movimento real que acaba com o atual estado de coisas. As condições deste movimento resultam das premissas atualmente existentes” [Trad. Jardim e Nogueira. Lisboa: Editorial Presença s/d].

No que diz respeito às premissas atualmente existentes, o menos que se pode dizer é que elas são complexas e pouco favoráveis à revolução, exigindo ao mesmo tempo, mais do que nunca, a abolição do capitalismo. A crise generalizada que vivemos não transporta automaticamente a sua superação, mas sobretudo as suas variantes agravadas. As últimas eleições em Itália são disso exemplo. 

É por esse motivo que se verifica a urgência em reconstruir forças políticas, organizações, dinâmicas sociais, poderios imaginários e iniciativas teóricas associadas capazes de tomar de assalto um modo de produção que não desaparecerá por si mesmo. É aí que se encontra a atualidade da questão comunista contemporânea. Apesar das ressonâncias finais do termo (no sentido de “luta final”, como na canção), é mais a questão dos meios para lá chegar que se coloca, a das mediações e das vias de transição, a das formas democráticas de organização e de luta, a da finalidade e do programa que é preciso relançar.

Neste horizonte, que é o da política e da estratégia – e para além da descrição do capitalismo –, a reflexão de Marx permanece sem equivalente, sobretudo se nos recusamos a procurar dentro dela soluções prontas a servir.


Isabelle Garo é co-diretora da revista Contre Temps, investigadora das obras de Marx e Engels e da atualidade das suas análises no quadro da crise do capitalismo contemporâneo. Tradução de Hugo Monteiro para o esquerda.net

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