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Quão bonitas são as rugas dos olhos?

“Mare of Easttown” é uma série notável sobre uma pequena cidade perto de Filadélfia, de gente amargurada pelo desemprego e pela desqualificação. Mas o que se discute é a idade de Kate Winslet. Artigo de Francisco Louçã.
Kate Winslet na série Mare Easttown – imagem do facebook da HBO Portugal https://www.facebook.com/HBOPortugal/
Kate Winslet na série Mare Easttown – imagem do facebook da HBO Portugal https://www.facebook.com/HBOPortugal/

Kate Winslet é Mare Sheehan em “Mare of Easttown”, um dos sucessos da temporada da pandemia, numa das plataformas que agora organizam as noites de cinema e de televisão dentro do nosso computador. A série é notável: Easttown é uma pequena cidade perto de Filadélfia, de gente amargurada pelo desemprego e pela desqualificação, que vive entre segredos tristes, em pastos de opioides, com famílias desfeitas e sem destino, onde uma polícia, Mare, sobrevive à culpabilização pela morte do filho, agarrando-se ao neto como uma tábua de salvação e correndo pela vida sem saber para onde vai. “Ela não tem um botão para parar”, diz Winslet da sua personagem. Quem leu o “Lamento de Uma América em Ruínas”, de J.D. Vance, tem um vislumbre das regiões castigadas pela crise económica e pelo encarceramento social dos desprotegidos, como Easttown, o cenário fantasiado desta representação extraordinária de Winslet. Dou o braço a torcer, há 24 anos tinha achado desenxabida a sua figuração de Rose Bukater no “Titanic”, só a descobri em “O Leitor”, há uma dúzia de anos (e levou o Óscar), agora compõe magnificamente uma personagem desesperada, solitária, que ainda assim é um pilar daquela comunidade, ou do que dela resta.

E, no entanto, não é nada disso que se fala sobre a série, e não se discute pouco. O tema é a idade de Kate Winslet e o que ela faz dos anos que passam (vai fazer 46), parece que envelheceu 20? A atriz alimenta esta novela, contou que teve uma briga com o realizador, que queria ocultar a imagem da sua barriga redonda numa cena de sexo, e com os publicitários, que queriam retocar as rugas dos olhos nos cartazes de anúncio da série. Numa entrevista ao “New York Times”, explicou que aquelas rugas fazem parte dela, ou que a tendência para retocar as fotos é uma armadilha que esconde a beleza: “O que me aborrece [na decisão de retocar as imagens] é que as caras são lindas. Caras que mudam, que se movem, são caras lindas, mas deixamos de aprender a amar essas caras porque insistimos em tapá-las com filtros, agora por causa das redes sociais e porque toda a gente se pode ‘photoshoppar’, e é o que se faz. Em regra geral, digo que lamento esta geração porque não vejo que isto pare, não sinto que mude, e isso entristece-me porque temo que se esteja a perder a presença na vida real e a substituí-la por ideais inalcançáveis.” O encanto, então, está na confiança, no amor próprio, ou também no respeito pelas suas rugas nos olhos. Além disso, ao assumir um corpo diferente do seu nesta representação, Kate tornou-se Mare, mudou a postura, mudou o olhar, tem uma angústia que é a da vida em Easttown e do neto cuja custódia pode vir a perder, é a vida — e conta-nos também da beleza dessa outra mulher.

De há muito que Winslet tem tomado posições no mesmo sentido. Em 2011 criou uma liga contra a cirurgia estética, com Emma Thompson e outras atrizes. Desde 2015 que não autoriza o tratamento em Photoshop da sua imagem. Não o faz por guerra contra as empresas de cosméticos, como sugeriram algumas leituras simples (em julho a atriz vai representar a L’Oréal numa iniciativa publicitária no festival de Cannes). Fá-lo pela mais simples e banal das razões: temos rugas nos olhos.

Artigo de Francisco Louçã, publicado no jornal “Expresso” de 2 de julho de 2021

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