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Quadro de Zapata efeminado agita México

Agressões, ameaças de morte, manifestações e até uma intervenção presidencial. O quadro “A Revolução” de Fabian Chairez gerou controvérsia ao retratar o herói revolucionário de forma efeminada. O pintor jura que não queria polémica e que apenas pintou as suas inquietações sobre estereótipos de masculinidade.
Imagem do quadro a Revolução de Fabián Cháirez.
Imagem do quadro a Revolução de Fabián Cháirez. Fonte: facebook do autor.

No dia em que fez 32 anos, o pintor Fabián Cháirez tinha grande parte do seu país a falar de si. Até então desconhecido, depois de uma semana agitada, tornara-se o assunto do momento no México.

No passado dia 13 um ato simbólico e negociado cuidadosamente deveria colocar fim à polémica. O quadro La Revolución poderia continuar a fazer parte da exposição coletiva Emiliano: Zapata después de Zapata mas deveria passar a ser acompanhado por uma placa com uma nota da família do lendário revolucionário mexicano a condenar a obra. Cháirez e o curador da mostra, Luis Vargas Santiago, não concordaram mas a nota foi mesmo afixada junto do quadro.

O quadro, pintado em 2014, mostra um Zapata nu, em cima do seu cavalo branco, numa postura considerada efeminada e com saltos altos. Talvez até continuasse despercebido entre as mais de 140 pinturas que fazem parte da exposição patente no Palácio das Belas Artes da Cidade do México não fosse constar do cartaz do evento. Aliás, do acordo alcançado com a família fazia igualmente parte a retirada do quadro da publicidade ao evento.

Quando a obra se tornou conhecida do grande público, a família do revolucionário do início do século passado ameaçou com processos judiciais quer o pintor, quer a diretora do Instituto Nacional de Belas Artes, por “denigrir a figura do nosso general pintado-o como gay”, esclareceu Jorge Zapata, neto de Emiliano.

A 11 de dezembro, uma manifestação exigia a retirada do quadro. A União Nacional dos Trabalhadores Agrícolas convocou o ato em que entraram na sala de exposições, procuraram arrancar o quadro e agrediram um trabalhador da instituição. Mais tarde, bloquearam as entradas da exposição e agrediram mais alguns jovens que expressavam o seu apoio à obra.

Uma contra-manifestação dos movimento LGBT+ e das organizações defensoras dos direitos humanos, com mais de 500 pessoas, defendia a liberdade de expressão dois dias depois. O aniversariante Cháirez também estava presente.

O governo mexicano, por intermédio da sua Secretária de Cultura, Alejandra Frausto, tomou posição por este lado escrevendo no Twitter: “nem um passo atrás nos nossos princípios: 1.Inclusão, 2. Diversidade e 3 Defesa das Liberdades, condenamos a violência em qualquer das suas formas bem como a censura. O diálogo será sempre o caminho.”

Também o presidente do México, López Obrador, acabou por se pronunciar a favor do diálogo, da liberdade artística e condenou a violência: “se não fosse presidente estaria nas ruas gritando proibido proibir”. Mas foi ele que deu instruções a Frausto para contactar a família e chegar a um acordo.

Arte, masculinidade e heroicidade revolucionária

Em entrevista ao jornal mexicano La Jornada, este domingo, Fabián Cháirez explica a sua posição. “A minha intenção não é provocar”. Aliás, confessa, nunca esperou que a obra pudesse causar tanto “reboliço” e que chegasse a um ponto de ser alvo de ameaças de morte.

Diz assim que os seus motivos começar por ser mais íntimos: “o que faço é levar à minha pintura perguntas e inquietações pessoais.” É assim que olha para o seu quadro polémico: “é uma alusão aos conceitos de masculino e de feminino e ao porquê de um herói dever estar vinculado à heterossexualidade”.

“Nesta obra pergunto-me, em particular porque o corpo de um homem vulnerável se deve relacionar o feminino,” acrescenta. Nega assim que tente ridicularizar o revolucionário. “A pergunta é onde está o ridículo. Acredita-se que por expo-lo feminino ou nu o torna vulnerável?” Contrapõe.

A outro jornal mexicano, o Milenio, esta sexta-feira, acrescenta ainda que o quadro “confronta a masculinidade e todos esses elementos de força e audácia” e que “causa polémica porque rompe com todos os estereótipos que estavam gravados no inconsciente”.

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