A Portugal Telecom chegou a acordo com a Telefónica para vender a sua posição na Brasilcel (empresa que detém a Vivo) por 7,5 mil milhões de euros. Simultaneamente, a PT acordou uma parceria com a empresa brasileira de telecomunicações Oi, adquirindo 22,38% do seu capital por cerca de 3,65 mil milhões de euros. A Vivo é a principal operadora de telemóveis do Brasil. A Oi é a 4ª maior operadora deste segmento.
Com a Oi, a PT acordou a constituição de uma “parceria estratégica”, que poderá levar a Telemar Participações, a 'holding' que controla a Oi, a comprar uma participação de até 10% da PT.
A decisão da venda da Vivo à Telefónica foi aprovada por unanimidade pelo conselho de administração da PT, afirmou o chairman da empresa, Henrique Granadeiro. A venda da Vivo por 7,5 mil milhões de euros "foi a maior operação financeira realizada em Portugal", disse, confirmando que "obviamente houve contactos com o governo para lhe dar conta desta arquitectura".
Sócrates: "valeu a pena
Para o primeiro-ministro, José Sócrates o acordo mostra que "valeu a pena resistir às pressões", referindo-se ao uso da 'golden-share', “na defesa dos interesses estratégicos da economia portuguesa".
"Se não tivesse usado a 'golden-share', a PT teria vendido a Vivo sem alternativas no Brasil e por 7,15 mil milhões", afirmou o primeiro-ministro. "A venda por 7,5 mil milhões e o investimento, que é o mais importante, na maior operadora brasileira fez com que o uso da 'golden share' valesse a pena", prosseguiu, acrescentando que o acordo "salvaguarda a dimensão internacional da PT, a escala da PT, a presença da PT no Brasil e a vocação da PT para desenvolver projectos na área das telecomunicações".
Bloco: governo entra em contradição
Para a deputada bloquista Helena Pinto, do Bloco de Esquerda, ficou “provado que a utilização da ‘golden share’ veio acautelar, por um lado, a permanência da PT no mercado internacional e a sua grande aposta na investigação... e, por outro, o interesse público, em detrimento do interesse imediato dos accionistas”.
Mas, prosseguiu a deputada, o governo entra em contradição ao insistir em privatizar outras grandes empresas com participação do Estado. “O mesmo governo que diz que a ‘golden share’ é boa na PT e funciona para defender o interesse público, prepara-se para encetar um ruinoso processo de privatizações, sobretudo em empresas do sector energético, que são empresas estratégicas”, referindo-se à Galp, à REN ou à EDP. “E nem sequer garante à partida a existência de uma ‘golden share’ para o Estado poder defender o interesse público”, criticou.
Lucros da Vivo
No mesmo dia em que a espanhola Telefónica anunciou a aquisição da parte da PT na Vivo, a operadora brasileira anunciou um aumento de 29,9% no lucro líquido no segundo trimestre de 2010, em comparação com o mesmo período do ano passado, para 236 milhões de reais.
A base de clientes da Vivo chegou a 55,9 milhões de acessos ao final de Junho, um crescimento de 19,6% em 12 meses (sendo 25,5% no segmento pós-pago). Só no segundo trimestre deste ano, a empresa registou 2,028 milhões de novos clientes, mantendo a Vivo a liderança, com participação de 30,24% no mercado.
Accionistas da Oi
O Estado brasileiro é o maior investidor da Oi: o banco estatal de fomento BNDES tem 31,38% do capital e fundos de pensões de grandes empresas estatais são igualmente accionistas importantes: Previ (12,95%), Funcef (2,79%) e Petros (2,74%). Os outros accionistas são os grupos privados Andrade Gutierrez e La Fonte, ambos com 19,3%, e a Fundação Atlântico, fundo de segurança social complementar dos próprios funcionários da Oi, com 11,4%
Segunda tarifa de telemóveis mais alta do mundo
O Brasil tem a segunda tarifa de telemóveis mais alta do mundo, segundo um estudo da consultoria europeia Bernstein Research. O preço deve-se à elevada tributação dos serviços de telefonia móvel, mas também à fixação de preços exorbitantes por serviços que os clientes têm de utilizar, sobretudo a interconexão com outras redes fixas ou móveis.
Os utilizadores de telemóveis no Brasil pagam, em média, 0,24 de dólar por minuto. Neste estudo, o país mais caro é a África do Sul e o 3º a Nigéria. Na Índia, o custo é de apenas 1 centavo de dólar o minuto, na Indonésia e na China, de 3 centavos de dólar e na Rússia, no Egipto e no México, da ordem de 5 centavos.
Com 173,9 milhões de telemóveis em operação e um dos cinco países com mais telemóveis no mundo, não é a falta de escala que explica o elevado custo dos serviços no Brasil.
Para fugir das tarifas altas, 82% dos clientes de telemóveis optaram por planos pré-pagos, em que o telemóvel é usado preferencialmente para receber chamadas. Assim, o país ocupa, segundo a União Internacional de Telecomunicações (UIT), uma das cinco piores classificações no mundo em tráfego de voz via telemóvel. Ou seja, muitos têm telefones, mas evitam usá-los.