Parlamento

PSD recusou condenar prisão de opositor de Putin

04 de outubro 2024 - 21:22

O sociólogo Boris Kagarlitsky é uma das vozes críticas da invasão da Ucrânia e por isso foi condenado a cinco anos de prisão. Proposta para que o Parlamento apelasse à sua libertação e que o país se disponibilizasse para o acolher como exilado foi chumbada por PSD, Chega e CDS, com a abstenção do PCP.

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Boris Kagarlitsky
Boris Kagarlitsky

A solidariedade com a oposição ao regime de Vladimir Putin e à sua guerra na Ucrânia conheceu esta sexta-feira um revés insólito no Parlamento português. A proposta apresentada em agosto pelo Bloco de Esquerda para que o Parlamento condenasse a prisão do sociólogo russo Boris Kagarlitsky, apelasse à sua libertação e manifestasse a disponibilidade para o país o acolher enquanto exilado político, foi chumbada com o voto contra das bancadas do PSD, Chega e CDS e a abstenção do PCP. A favor votaram o Bloco, PS, PAN, Livre e IL.

A votação do projeto de resolução fez-se sem debate e nenhuma bancada pediu a separação da votação dos dois pontos resolutivos, pelo que ficaram por se saber quais os argumentos do PSD para recusar um gesto solidário com este intelectual russo com projeção internacional, editor do site Rabkor e diretor do Instituto da Globalização e Movimentos Sociais. A posição agora assumida pelo partido contrasta com a que tomou quando em maio votou favoravelmente a condenação da prisão e disponibilidade para acolher em Portugal como exilado político o jornalista e escritor Vladimir Kara-Murza, entretanto libertado na operação troca de prisioneiros em julho com os EUA, onde agora vive. 

Kagarlitsky foi condenado a cinco anos de prisão pelo crime de “justificar o terrorismo”, usado frequentemente nos tribunais russos para punir os opositores de Putin e da invasão d Ucrânia. O crime terá sido a publicação de um vídeo com imagens do ataque à ponte que faz a ligação à Crimeia, pelo qual foi condenado em primeira instância ao pagamento de 600 mil rublos. Mas as autoridades russas não ficaram satisfeitas e recorreram da decisão para um Tribunal Militar de Recurso, que o condenou a cinco anos. A defesa de Kagarlitsky recorreu da sentença, mas o recurso foi desconsiderado.

O julgamento de Kagarlitsky mereceu condenação da Amnistia Internacional, considerando que “esta condenação e o caráter fechado do seu julgamento constituem mais um exemplo flagrante do tratamento dado aos dissidentes políticos na Rússia”. Ele encontra-se preso numa colónia penal de Torzhok, “temendo-se que não sejam dadas condições que garantam a sua segurança, saúde e integridade física”, refere a exposição de motivos da resolução bloquista. Entretanto, a campanha internacional pela libertação de Boris Kagarlitsky tem juntado figuras políticas, académicos, artistas e ativistas de todo o mundo, como Naomi Klein, Yanis Varoufakis, Walden Bello, Kavita Krishan, ou o recém-falecido Fredric Jameson. A recolha de assinaturas pela libertação de Kagarlitsky prossegue aqui.

Esta terça-feira realiza-se a conferência “Boris Kagarlitsky e os desafios da esquerda hoje”, com a participação de ativistas de vários países, como Nancy Fraser Greg Yudin, Alex Callinicos, Robert Brenner, Ilya Budraitskis e de Ksenia Kagarlitskaia, a filha do sociólogo preso que tem organizado campanhas de apoio aos presos políticos russos.