O governo fartou-se de dizer que não pretendia intervir na crise do Banco Espírito Santo, mas as mudanças na direção anunciadas esta sexta-feira mostram que está a ocorrer uma “PSDização” do banco.
O acordo entre o Espírito Santo Financial Group e o Crédit Agricole, os dois maiores acionistas, com cerca de 40% do capital, levam o economista Vítor Bento à presidência da instituição, João Moreira Rato à administração financeira, e Paulo Mota Pinto ao cargo de chairman.
Vítor Bento, conselheiro de Estado nomeado por Cavaco Silva, foi contactado para ministro das Finanças do atual governo, mas recusou. Era a primeira opção de Passos Coelho, antes de convidar Vítor Gaspar. Vítor Bento notabilizou-se por defender sempre – mesmo quando o governo desistiu dela – a redução da TSU e a redução dos salários. Preside atualmente à Sociedade Interbancária de Serviços (SIBS).
João Moreira Rato será o administrador financeiro. Ora este gestor liderava até agora o Instituto de Gestão do Crédito Público (IGCP), que gere a dívida pública portuguesa – portanto, um dos cargos mais importantes do governo –, e é um homem de confiança de Maria Luís Albuquerque.
Para completar o ramalhete, já fora anunciada a nomeação de Paulo Mota Pinto para chairman. Deste deputado do PSD desconhece-se qualquer experiência com a atividade bancária.
OPA do PSD
“É uma OPA do PSD”, analisa Francisco Louçã, no seu comentário na SIC Notícias desta sexta-feira. Para o dirigente do Bloco de Esquerda, Vítor Bento só terá aceitado ir para a presidência do banco diante de alguma garantia de ajuda para resolver a dívida que o Grupo tem com a PT, que vence em 15 dias e pode não ter dinheiro para o fazer.
Para Louçã, o enorme buraco financeiro na holding do Grupo Espírito Santo mostra que “há uma crise sistémica no sistema financeiro português”. O professor de economia recorda que quando se começou a falar do buraco do BPN, falava-se em 700 milhões, e acabou em mais de 5 mil milhões. “Ora no caso do GES já começa por se dizer que o buraco é de 7 mil milhões, dez vezes mais do que o que se dizia no início do BPN e superior ao buraco real daquele banco”.