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Protestos em Gaza no meio de mortífera repressão israelita. Chomsky: “EUA devem acabar com o apoio aos assassinos”

Nesta entrevista dada à Democracy Now, Noam Chomsky reflete sobre a relação de Israel com Gaza. O Esquerda.net traduziu e publica aqui essa entrevista.
Originalmente publicado em democracynow.org
Originalmente publicado em democracynow.org

Em Gaza, centenas de pessoas juntaram-se, no passado sábado, no funeral do pequeno Majdi al-Satari, de 11 anos de idade, que morreu depois de ter sido atingido por um tiro na cabeça por um atirador especial israelita, na passada quinta-feira, durante os protestos, perto da barreira de separação com Israel. Moumin al-Hams, de 17 anos de idade, e Ghazi Abu Mustafa, de 43, foram também baleados e mortos por atiradores especiais israelitas, durante os protestos. No total, os soldados israelitas mataram, pelo menos, 150 palestinianos desde a não violenta Grande Marcha de Retorno Palestiniano, protesto que começou a 30 de Março. Para obtermos mais informação falámos com o reconhecido dissidente político, autor e linguista Noam Chomsky. Um laureado professor do Departamento de Linguística da Universidade do Arizona e professor emérito no Instituto de Tecnologia do Massachusetts, onde ensina há mais de 50 anos.

 

AMY GOODMAN: “Noam Chomsky é uma “Revolução Suave” para Foy Vance. Isto é “Democracia Agora”! Eu sou Amy Goodman, e vou voltar à nossa conversa com o mundialmente conhecido dissidente, linguista e professor Noam Chomsky.

Vamos voltar à situação em Gaza. O ministro de Segurança Interna de Israel, Gilad Erdan, disse na quinta-feira que Israel poderá lançar outra operação militar de larga escala contra a Faixa de Gaza. Isto acontece após uma violenta repressão israelita sobre os protestos efectuados de Março a Maio em Gaza quando as forças israelitas atacaram cerca de 136 palestinianos, ferindo um total de 1400. Quero também voltar ao ao palestiniano-canadense Tarek Loubani, que foi baleado nas duas pernas pelas forças israelitas, quando estava a socorrer e a tratar palestinianos feridos pelas forças israelitas durante a não-violenta Grande Marcha de Retorno Palestiniano. Foi em 14 de Maio, uma 2ª.feira. Eu perguntei ao Dr. Loubani – e fi-lo, precisamente, antes de ele ter sido baleádo – se ele se sentia um homem alvo.

DR. TAREK LOUBANI: Eu não sei responder a isso. Não sei que ordens eles receberam ou o que está nas cabeças deles. Assim, não lhe posso dizer se estamos deliberadamente marcados como alvo. O que lhe posso dizer são as coisas que sei. Nas seis semanas da Marcha, não existiram acidentes com paramédicos. E, num só dia, 19 paramédicos – 18 feridos e um morto – e eu próprio fomos todos feridos assim – ou fomos todos atingidos com tiros com munições. Fomos todos – na verdade, Musa estava num resgate na altura, mas o resto foi atingido, tal como eu. Estivemos fora do local durante um período de calmaria, sem fumaça, sem qualquer tipo de caos e fomos então marcados – e fomos, sem dúvida, atingidos por munições verdadeiras, muitos de nós, nos membros inferiores, Assim, é muito difícil acreditar que os israelitas que me balearam e os que balearam os meus outros colegas – só na nossa equipa médica, quatro foram baleados, incluindo Musa Abuhassanin, que morreu. É muito difícil acreditar que eles não sabiam onde estávamos, que não sabiam o que estávamos a fazer e que estavam a apontar para outra coisa qualquer.

AMY GOODMAN: Assim, mais tarde, mas, no mesmo dia, 14 de Maio, o homem de quem Tarek estava a falar, o paramédico de quem o Dr. Loubani falava, o paramédico Musa Abuhassanin, foi alvejado e morto pelas forças israelitas. Foi atingido no peito. O Dr.Loubani twittou uma fotografia, “Uma foto de caça, quinta-feira, 11 de Maio. À esquerda: Mohammed Migdad, baleado no tornozelo direito. Hassan Abusaada. Tarek Loubani baleado na perna esquerda e joelho direito. Moumin Silmi. Youssef Almamlouk. Musa Abuhassanin, baleado no tórax e morto. Voluntário desconhecido. Fotógrafo: baleado e ferido.” E mostrou esta fotografia que tinha tirado e que pensou mesmo fazê-lo para a colocar na página de um álbum de recortes, e depois apercebeu-se de que estes eram alguns dos últimos dias das suas vidas. O que se está a passar, neste momento, em Gaza, Noam?

NOAM CHOMSKY: Podemos acrescentar a esta lista jovens mulheres palestinianas, um médico que foi morto por um atirador especializado, muito próximo da chamada fronteira, quando estava a cuidar de um ferido. Sim, é terrível.

Mas existe um plano de fundo, como sempre. O plano crucial é que este estrangulamento a Gaza levado a cabo por Israel, que reduziu a vida a uma mera tentativa de sobrevivência, atingiu um ponto onde as Nações Unidas e outros analistas prevêem que, no ano de 2020, Gaza esteja literalmente inabitável. São 2 milhões de pessoas, metade delas crianças, numa situação de prisão, cuidadosamente controladas, com restrições selvagens aos alimentos, ou qualquer outra acção que a tal conduza, de modo a que os pescadores se mantenham em terra para que não possam ir pescar. As redes de esgotos têm sido destruídas, as construções e edifícios do poder, têm sido atacadas.

O programa oficial, oficial, foi para manter Gaza naquilo a que se chama uma dieta, com apenas o suficiente para sobreviver. Não parece ser bom se todos morrerem de fome. Não esqueça que este é um território ocupado, e como tal reconhecido por todos, até pelos EUA, menos por Israel. Assim sendo, aqui está uma população detida numa prisão, num território ocupado, alimentada com uma dieta que mal garante a sobrevivência, constantemente utilizada como um saco de pancada pelo que é chamado e se chama a si mesmo de exército mais moral do mundo, agora a chegar a um ponto em que, dentro de em poucos anos, será inabitável. Para além disso, há actos de sadismo, tais como atiradores especiais, altamente treinados, que matam jovens mulheres médicas palestinianas quando estão a socorrer doentes, e tudo o que o doutor acaba de descrever.

O que é que temos de fazer com tudo isto? Actualmente, reagimos a tudo isto. Os EUA têm reagido, mas muito drasticamente, cortando os fundos que se destinam a uma organização, a UNRWA, uma organização das Nações Unidas, que mantém a população viva miseravelmente. É esta a nossa resposta ao mesmo tempo que Israel tem apoios esmagadores, com armas, apoio diplomático, etc. É um dos mais extraordinários escândalos, se é que esta é a palavra certa neste mundo moderno.

Podemos fazer algo sobre isto? Seguramente podemos. Gaza poderá ser um próspero paraíso no Mediterrâneo. Tem uma localização maravilhosa, tem recursos agrícolas, pode ter praias maravilhosas, pesca, recursos marinhos, até tem gás natural no mar, que não lhe está a ser permitido utilizar. Então existe uma abundância a ser tida em consideração. Mas os EUA têm, como sempre e sob repetidas administrações, mas muito piores agora, preferido apoiar os assassinos.

AMY GOODMAN: Israel está a iniciar outro boicote a Gaza. Há um livro maravilhoso que acabou de sair: o livro “Gaza” de Norman Finkelstein, que é sobre o martírio de Gaza e que é um estudo definitivo sobre isto. Mas o que aconteceu desde 2005 é muito simples. Quer dizer, a história anterior é suficientemente horrenda.

Mas, em 2005, Ariel Sharon, israelita, reconheceu que não fazia qualquer sentido manter centenas de colonos judeus ilegalmente em Gaza, usando a maioria dos seus recursos e dedicando uma larga parte do exército de Israel a protegê-los. Isto não fazia qualquer sentido. Assim decidiram movê-los dos seus colonatos ilegais, subsidiados em Gaza, para colonatos também ilegais, subsidiados em áreas que Israel procurava manter na Margem Ocidental, nos Montes Golan.

Foi enquadrado como um acontecimento traumático, mas foi apenas um jogo para a opinião mundial. Foi, basicamente, uma graçola. Podiam tê-lo feito muito facilmente. E tiraram-nos de lá, chamaram-lhe uma retirada. Mas permaneceram sob total ocupação Israelita, só que o exército não se encontrava dentro de Gaza. Tudo isto era controlado do lado de fora. Fizeram um acordo em Novembro de 2005 entre os palestinianos e Israel para um cessar-fogo, sem violência, abrindo os portos de mar de Gaza, reconstruindo o aeroporto que Israel tinha destruído, abrindo a fronteira para uma passagem livre entre Israel e o Egipto, etc. O acordo durou umas semanas – todo o mês de Novembro.

Em Janeiro, os palestinianos cometeram um “crime maior”: fizeram eleições livres, reconhecidas como livres e justas, como caso único no mundo árabe. Mas estas saíram do lado errado. Ganhou a gente errada: o Hamas. Israel, ao mesmo tempo, numa escalada de violência, intensificou o cerco, aumentou a repressão contra Gaza, impôs a dieta. Os EUA reagiram pelos procedimentos de funcionamento tipo: iniciando a organização de um golpe militar. O Hamas superou o golpe militar, o qual foi ainda maior crime. Violência, a violência EUA-Israel, aumentou. A selvajaria do cerco aumentou, e por aí fora…

E assim continuou. Repetidamente, aconteceu um episódio ao qual Israel chamou de “o corte da relva”. Esmagá-los. Os palestinianos defenderam-se, claro. Então chegaram a um acordo, que Hamas aceita e com o qual ainda vive. Israel viola-o constantemente. Finalmente, uma escalada de violência conduz a alguma resposta do Hamas, que Israel usa como um pretexto para o próximo episódio de terra queimada. Eu revi isso. Norman Finkekstein reviu-o no seu livro. Outros também. Esta tem sido a história desde 2005.

Portanto, sim, terá de haver outra. Mas agora estamos a atingir um ponto quase final. Repito, espera-se que a Faixa de Gaza, tendo sido devastada tão selvaticamente durante todos estes anos, se torne literalmente inabitável. Agora, existem caminhos para lidar com isto. Não é preciso ser-se um cientista brilhante para descobrir isso. É óbvio.

AMY GOODMAN: A solução é assim tão simples e clara?

NOAM CHOMSKY: Muitíssimo clara. Viver com os termos do Acordo de Novembro 2005. Permitir a Gaza reconstruir-se. Abrir os pontos de entrada de Israel e Egipto. Reconstruir o porto de mar que foi destroçado. Reconstruir o aeroporto que Israel destruiu. Permitir-lhes a reconstrução dos edifícios do poder, levá-los a tornarem-se um local florescente no Mediterrâneo. E, é claro, recordar o que os famosos Acordos de Oslo exigem explicitamente: que a Faixa de Gaza e a Margem Ocidental seja um território unificado e que a sua integridade territorial tem de ser mantida. Israel e os EUA reagirão de novo para separá-las. Certo? Esta não é também uma lei da natureza. Os direitos nacionais da Palestina têm de ser conseguidos, desde que os EUA e Israel estejam de acordo para os aceitar.

 

Leia aqui o resto da entrevista:

Noam Chomsky: “A sobrevivência da vida humana está em risco devido às alterações climáticas e armas nucleares”

Chomsky condena viragem de Israel à extrema-direita e a nova lei do “Estado-nação judaico”

OS EUA devem melhorar as relações com a Rússia e desafiar a expansão da NATO

Artigo traduzido por Conceição Peralta

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