A Polícia Judiciária (PJ) anunciou que esta terça-feira foi desmantelada uma estrutura criminosa organizada que se dedicava à exploração de trabalhadores imigrantes no Baixo Alentejo.
A "Operação Espelho", levada a cabo pela Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ nas zonas de Évora e Cuba, resultou na detenção de 28 pessoas, indiciadas pela prática de crimes de associação criminosa, de tráfico de pessoas, de auxílio à imigração ilegal, de angariação de mão-de-obra ilegal, de extorsão, de branqueamento de capitais, fraude fiscal, ofensas à integridade física, posse de arma de fogo e falsificação de documentos.
A TSF refere que a intervenção da PJ levou ainda à identificação de mais de cem vítimas, oriundas de vários países. A diretora da Unidade de Contraterrorismo da PJ traçou um retrato, em conferência de imprensa, da exploração a que eram sujeitas: "Muitas horas de trabalho e pouco espaço para descanso. Há pessoas que falavam em 15 minutos para comer. São jornadas muito longas, muito exaustivas, e, por isso, nem toda a gente está disposta a fazer isso. Naturalmente, os imigrantes mais desfavorecidos e com condições mais complicadas acabam por sujeitar-se".
"Voltámos a detetar situações de sobrelotação. Pessoas com colchões, se é que se pode chamar colchão, muita falta de higiene, uma casa de banho para 20 pessoas. As condições são realmente deploráveis”, acrescentou Manuela Santos.
Há precisamente um ano, a PJ e o Departamento de Investigação e Ação Penal (DIAP) de Lisboa promoveram uma operação semelhante no Alentejo, com incidência em Beja, mas também na vila de Cuba, que passou por 35 detenções.
"Sistema económico faz deste trabalho escravo a regra e não a exceção”
Em declarações à RTP3, Alberto Matos, da Solidariedade Imigrante - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes (Solim), frisou que a exploração de imigrantes “é uma realidade que se estende um pouco por todo o país”.
“As campanhas agrícolas são feitas desta forma, recorrendo a intermediários sem escrúpulos”, afirmou o ativista. De acordo com Alberto Matos, “os proprietários agrícolas conseguem campanhas ao mais baixo custo sem ter, muitas vezes, um único trabalhador sobre a sua própria responsabilidade”.
O representante da Solim defendeu que os proprietários agrícolas, que recorrem a “intermediários mafiosos”, e são “os grandes beneficiários económicos deste negócio”, devem ser responsabilizados. E que é preciso acabar com um “sistema económico que faz deste trabalho escravo a regra e não a exceção”. “Não são meia dúzia de casos, é um padrão que se tem vindo a repetir, o que é absolutamente inaceitável”, realçou.
Alberto Matos lembrou que os imigrantes “são essenciais para o país”, e apontou que “não lhes são dadas condições de equidade porque há interesses muito poderosos que têm super lucros com este sistema”.
O ativista referiu ainda a situação de profunda fragilidade dos imigrantes visados, detalhando que alguns estão presos à dívida que contraíram nos países de origem, e têm as suas famílias reféns das redes mafiosas. Alberto Matos assinalou ainda que, no Alentejo, muitos imigrantes estão agora em situação de sem abrigo, uma realidade que antes não se verificava na região.