O Bloco de Esquerda agendou para esta quarta-feira um debate de urgência sobre a degradação dos cuidados de saúde primários e o número de utentes sem médico de família. Sobre esta matéria, Catarina Martins lembrou, no início da sua intervenção, a situação no país no passado mês de abril: “1.678.226 utentes sem médico de família. 160% mais do que no final de 2019”.
“Em três anos e meio, o Governo do PS conseguiu fazer com que o país passasse de 641 mil utentes sem médico de família para quase um milhão e 700 mil. E não foi porque o número de utentes tivesse aumentado: há mais 300 mil utentes, sim, mas há mais um milhão de utentes sem médico de família”, referiu a coordenadora do Bloco.
Catarina assinalou a degradação acentuada das condições em muitos centros de saúde, como é caso dos centros de saúde de Odivelas, Algueirão Mem-Martins ou Marvila, onde “voltaram as filas à frente dos centros de saúde, a ida de madrugada a ver se se arranja uma consulta, as horas e horas na rua, ao sol e à chuva para ter acesso à saúde, os meses de espera”.
Neste contexto, alertou, “as pessoas ficam privadas do direito de acesso à saúde”. E “quem consegue, e tantas vezes com enorme sacrifício, paga do próprio bolso consultas fora do SNS". “Não é por acaso que Portugal é dos países onde mais se gasta em saúde paga do próprio bolso”, continuou.
Ausência de ação do Governo alimenta "ciclo vicioso de deterioração do SNS"
Catarina apontou responsabilidades ao Partido Socialista: “Essa realidade, que devia ter ficado no passado, que já devíamos ter ultrapassado, que já não devia existir, voltou pelas mãos do governo do PS”, vincou.
A coordenadora do Bloco destacou a situação das grávidas, que, “sem médico de família e com os hospitais a não conseguir dar resposta na área da obstetrícia”, acabam, muitas vezes, por não ter “as consultas que as boas práticas aconselham”. E criticou as opções do Governo que, em vez de reforçar as equipas desfalcadas dos hospitais, “anda a brincar aos encerramentos rotativos trimestrais”.
“O problema da falta de médicos de família não é um problema de carência de médicos. É um problema de ausência do Governo”, afirmou Catarina.
A dirigente bloquista acusou o executivo socialista de “não quer fazer nada para que o SNS melhore, para que as pessoas tenham acesso à saúde, para que o SNS seja o que deveria ser: público, universal, gratuito, de qualidade, de proximidade, para todas e para todos”.
Esta “ausência de ação”, advertiu, alimenta “um ciclo vicioso de deterioração do SNS que penaliza utentes e também profissionais de saúde”.
"Governo expulsa do SNS os profissionais de que o SNS precisa”
E esta realidade não se deve apenas à “absoluta ausência de perspetivas de carreira”. Catarina criticou “a sub-orçamentação e o desinvestimento”, que “criam um quotidiano impossível para quem decidiu fazer do SNS a sua vida”. Bem como a “burocracia kafkiana, o desespero de não ter condições para responder aos utentes, a tensão social que inevitavelmente aumenta quando o serviço se deteriora, e as horas insuportavelmente longas. Tantas vezes longas até ao burn-out”.
“A estratégia do Governo expulsa do SNS os profissionais de que o SNS precisa”, referiu.
De acordo com a coordenadora do Bloco, o Governo poderia ter tomado medidas para atrair para o SNS todos os formados no SNS nos últimos anos. Mas “não quis fazê-lo”.
"Governo insiste em ser bom aluno das piores políticas"
Na perspetiva do Bloco, o executivo optou, isso sim, por adiar “qualquer medida com impacto real”, ficando-se por anúncios de medidas que não têm “efeito nenhum” ou vão “resultar em nada ou quase nada”.
E, enquanto isso, avançou Catarina, “Fernando Medina faz questão de ser o único ministro das finanças da Europa que obedece a regras orçamentais suspensas e que em breve serão alteradas, precisamente porque se provaram erradas”.
“O drama do país é esta insistência em ser bom aluno das piores políticas. Bem pode o Governo vangloriar-se de contas certas. Não há contas certas num país paralisado. É só mais uma mentira”, rematou a coordenadora bloquista.