Os revolucionários árabes têm motivos para serem cautelosos. “Foram dados pouquíssimos detalhes sobre a forma dessa ajuda”, disse Amr Hassanein, presidente da Meris, sócia regional da agência qualificadora de risco Moody’s. “Mas como os pacotes parecem ser generosos, podemos estar certos de que estão sujeitos a condições”, ressaltou.
O G8 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia) disse, na semana passada, durante a sua reunião na localidade francesa de Deauville, que nos próximos três anos os bancos internacionais de desenvolvimento poderão entregar até 20 mil milhões de dólares para Egipto e Tunísia. O financiamento institucional, cujo objectivo é apoiar a transição para a democracia, é o mais recente de uma série de pacotes de ajuda económica oferecidos às duas nações árabes, cujas economias foram afectadas pelos levantes populares que no começo deste ano derrubaram seus ditadores.
O Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial comprometeram-se com 4,5 mil milhões de dólares em empréstimos brandos ao Egipto nos próximos 24 meses. Também ofereceram 1,5 mil milhões de dólares à Tunísia, que tem aproximadamente a oitava parte da população do Egipto e um quinto do seu produto interno bruto (PIB). Enquanto isso, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prometeu ao Egipto mil milhões de dólares em garantias de empréstimos e uma troca de dívida por mil milhões de dólares. Vários outros países – entre eles Arábia Saudita, Catar e França – ofereceram os seus próprios pacotes de ajuda.
A disposição da comunidade internacional para dar ajuda económica parece estar motivada pelo desejo filantrópico de alimentar as novas democracias árabes. Porém, as economias alertam que o Egipto e a Tunísia deveriam ler com cuidado as letras pequenas antes de assinar. Os governos e as instituições que dão financiamento, seja sob a forma de empréstimos, concessões ou troca de dívida, invariavelmente buscam maximizar seus lucros, disse Hassanein.
Embora, em princípio, não haja dano implícito sempre e quando as duas partes compreendem e aceitam os termos e as consequências do acordo, a assistência condicionada que agora se oferece pode exigir que o Egipto e a Tunísia imponham políticas e legislação contrárias aos desejos dos que lideraram os seus levantes. “Aceitar ajuda estrangeira sujeita a condições é trair os mártires cujo sangue foi derramado na revolução”, disse o activista egípcio Mohammad Mansour. “Agradecemos a Obama, mas nos arranjaremos sozinhos”, acrescentou.
Muitos árabes culpam os governos do Ocidente e as instituições de empréstimo por décadas de repressão política e condições económicas intoleráveis que motivaram suas revoltas. Eles observaram, por exemplo, que Washington desembolsou 2 mil milhões de dólares por ano em ajuda militar e económica ao regime do ex-presidente egípcio Hosni Mubarak, e que doadores europeus colaboraram com o temido aparato de segurança do ex-líder tunisiano Zine El-Abidine Ben Ali.
As suas críticas ao Banco Mundial e FMI vão além da percepção de que estas agências usam a sua influência em matéria de empréstimos para promover projectos e políticas que canalizam a riqueza para os credores e as grandes corporações. Alguns os acusam de cumplicidade com regimes autoritários por promoverem políticas que ampliam a brecha de renda em benefício de uns poucos. Um exemplo são os opressivos programas de ajuste estrutural do FMI, que segundo os críticos obrigam os governos pobres a privatizarem bens públicos e reduzir o gasto social para pagarem suas dividas.
No caso do Egipto, um programa de reforma económica apoiado pelo FMI, iniciado em 1991, melhorou as políticas monetárias e o manejo fiscal do país, mas suas medidas de austeridade levaram a um elevado desemprego, ampliando a pobreza e mantendo os salários inalterados. O controvertido programa de privatizações foi em boa parte responsável pelas desigualdades económicas e pelo mal-estar dos trabalhadores que precipitaram a queda do regime. A fuga de capitais e a instabilidade económica registadas após a queda de Ben Ali e Mubarak deixaram claro que as revoluções têm um alto preço.
No Egpito, a revolução custou 3,5 mil milhões de dólares, principalmente com perdas em no seu sector turístico. O ministro das Finanças, Samir Radwan, previu um déficit orçamental de 31 mil milhões de dólares (cerca de 11% do PIB) para o ano fiscal que começará em Julho, e solicitou ajuda de 12 mil milhões de dólares para cobri-lo.
O governo interino da Tunísia necessitará de 25 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos. Querem usar o dinheiro para enfrentar o desemprego, estimado em 30% na altura em que o jovem desesperado se imolou, disparando o levante popular que acabou derrubando Ben Ali. Apesar das economias afectadas, algumas organizações locais pedem urgência aos seus governos para rejeitarem todas as ofertas de ajuda estrangeira. Temem que os senhores dos empréstimos internacionais estejam a tentar encerrar Egipto e Tunísia em estratégias económicas e alianças políticas de longo prazo antes de terem governos consolidados.
“No Egipto houve protestos porque nosso governo interino não está preso a nenhum acordo de empréstimo. O parlamento deveria chegar a um acordo sobre qualquer decisão para instituir empréstimos, e ainda não temos um parlamento”, disse Hassanein. O conselho militar que governo o Egipto programou eleições legislativas para Setembro e as presidenciais para dois meses mais tarde. A Tunísia fixou suas eleições parlamentares para Julho, mas é possível que seja adiada até Outubro para ter mais tempo em sua preparação.
Alia El-Mahdi, decana da Faculdade de Economia e Ciências Políticas da Universidade do Cairo, disse que nenhum dos dois países pode se dar ao luxo de esperar até depois das eleições para apoiar as suas economias. Fontes de renda importantes, como o turismo, caíram muito, e os investimentos praticamente desapareceram. As reservas de divisas também diminuem rapidamente. Entretanto, ao invés de buscar empréstimo no estrangeiro, El-Mahdi recomenda prestar mais atenção nos orçamentos.
Egipto e Tunísia “precisam de injecções de liquidez com urgência, e a solução mais fácil é conseguir um empréstimo”, explicou a economista. “Porém, fariam muito melhor mobilizando os seus próprios recursos e reestruturando o orçamento. Os dois países necessitam ser mais cuidadosos nos seus gastos, já que este não é momento para desperdiçar dinheiro”, afirmou.
Artigo de Cam McGrath/IPSNews/Envolverde.