Precariedade atirou jovens para a “antecâmara do desemprego”

12 de fevereiro 2022 - 20:23

Taxa de desemprego jovem ascende a 23,4% e representa já 3,5 vezes a taxa de desemprego da população total. E os jovens estão a engrossar o desemprego de longa duração, que aumentou 26% no último ano.

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Em 2021, o emprego dos jovens entre os 16 e os 24 anos regrediu 0,8% e a taxa de desemprego nesta faixa etária fixou-se em 23,4%, o que equivale a 3,5 vezes a taxa de desemprego da população total. Em 2014, após o período da troika, a taxa de desemprego jovem representava 2,5 vezes a da população total.

O coordenador do Observatório do Emprego Jovem alerta para para a importância deste agravamento: "É importante, até porque isso não tem acontecido na União Europeia. Em Portugal tem havido esta desigualdade entre os jovens e a população adulta", aponta Paulo Marques em declarações ao Dinheiro Vivo.

"Houve muita destruição de emprego jovem porque esses jovens tinham contratos a termo certo", assinala. E lembra que medidas como o lay-off simplificado não impediram a não renovação deste tipo de vínculos laborais.

O coordenador do Observatório do Emprego Jovem reconhece que algumas políticas ativas de emprego, como o programa de estágios na Administração Pública de 2021, que terminou com 110 vagas em 500 por preencher, estão a falhar. "Ou as políticas não foram bem desenhadas, não foram ao encontro das necessidades, e se calhar podiam ter sido de outro tipo, ou então não chegaram aos jovens", assinala. "É uma dimensão que parece estar um pouco frágil", continua.

Paulo Marques também alerta para o aumento do desemprego de longa duração entre os jovens: "É extremamente negativo termos jovens que estão há mais de um ano sem estar a trabalhar. Essas pessoas acabam depois por desistir, tornam-se NEET (nem no emprego, nem em formação), um problema que existiu na crise anterior. São pessoas que começam a estar excluídas".

Renato Miguel do Carmo, coordenador do Observatório da Desigualdade, considera que os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística na quinta-feira mostram que "pessoas que conheceram o desemprego nessa primeira vaga da pandemia estão com dificuldades em regressar".

"Um dos problemas fundamentais da geração de trabalhadores mais jovens é a precarização do trabalho. Estavam na antecâmara do desemprego quando aconteceu a pandemia", enfatiza Renato Miguel do Carmo.

Por outro lado, os dados do último trimestre de 2021 revelam um aumento do desemprego que afeta essencialmente aqueles que têm atualmente idades entre os 35 e os 44 anos.

"É preciso ver se isto se mantém. Esta geração foi muito atingida [pela última crise] e entrou para o mercado de trabalho com contratos muito precários, e agora nota-se que é uma geração que tem um conjunto de fragilidades", afirma Paulo Marques.

O coordenador do Observatório da Desigualdade identifica a desvalorização do trabalho como característica entre as gerações mais novas e mais precárias: "Temos feito trabalhos qualitativos em torno da precariedade. No discurso das pessoas que estão em situação precária há muito a questão da falta de reconhecimento e da desvalorização do próprio trabalho, para além das questões salariais, contratuais, da instabilidade, da incerteza, o que cria dificuldade em projetar o futuro", refere.

"Era importante perceber o que está aqui a passar-se. Neste pós-pandemia, há várias dinâmicas que são difíceis de identificar", alerta.