Natureza

Prazos da ceifa de aveia causam “chacina” para abetardas e águias-caçadeiras

18 de junho 2024 - 18:42

A associação ambientalista Zero critica o modelo “imoral” de apoios em vigor que em vez de proteger as aves está a “contribuir para o seu desaparecimento”.

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Abetardas.
Abetardas. Foto da Zero.

Esta segunda-feira é “mais um dia muito triste para a conservação da natureza”. É o que defende a associação ambientalista Zero que, em comunicado, esclarece que a partir deste dia 17 de junho os agricultores beneficiários de apoios agroambientais estão autorizados a ceifar a aveia nas Zonas de Proteção Especial. Isto, afirma, “induzirá uma verdadeira “chacina” das pequenas crias de abetardas e de águia-caçadeira”.

A fixação desta data vai criar uma “armadilha fatal que inviabiliza o sucesso reprodutivo da abetarda e de águia-caçadeira”. Desta forma, o apoio público para fins de conservação passa “a contribuir, na prática, para a extinção de algumas das mais emblemáticas aves estepárias – grupo de aves que dependem de sistemas agrícolas associados à rotação cereal-pousio, que englobam a abetarda, o alcaravão, a águias-caçadeira, os cortiçóis-de-barriga-branca e os de barriga negra, o francelho ou o sisão”.

Este ano, o corte da aveia é antecipado dois dias em relação ao ano passado. Data igualmente precoce, defende-se na tomada de posição. Também se critica que a data fixada para os restantes cereais e leguminosas, 24 de junho, por ser “claramente insuficiente para garantir o sucesso reprodutivo das espécies referidas”.

O que está a passar, esclarecem os ambientalistas, “tem sido a norma, levando a um contributo decisivo para a diminuição para mais de metade dos efetivos de espécies, como a águia-caçadeira, abetarda e o sisão, nos últimos dez anos”.

Critica-se que o modelo de decisão das datas de corte dos cereais dependa das Estruturas Locais de Apoio, estruturas em que “os agricultores estão em maioria”, prevalecendo desta forma a sua vontade.

O modelo de apoio ao agricultores tem ainda “diversas fragilidades” como “a fraca atratividade gerada pelos montantes financeiros disponibilizados” e “uma absurda redução de apoio que prejudica quem tem mais área” e que faz com que “a componente económica associada ao resultado da venda dos cereais ou da aposta na produção de gado tenha um peso pouco relevante na decisão de contribuir ou não para a salvaguarda das referidas aves”.

A forma da subsidiação da criação de gado é considerada “particularmente perversa” porque “faz com que os agricultores se interessem mais pela produção de feno para alimentar o gado do que pela produção de cereais”, colocando em perigo também o sucesso reprodutivo do sisão.

Portanto, há todo “um modelo imoral de apoios públicos que, na prática, em vez de proteger as aves estepárias está, de forma direta e irresponsável, a contribuir para o seu desaparecimento, já que involuntariamente transforma os agricultores em agentes da destruição dos valores naturais quando estes poderiam ser, de forma empenhada, promotores ativos da conservação destas espécies ameaçadas de extinção e dos seus habitats”.

A Zero exige ação imediata por parte do Governo, que deveria deixar de “compactuar com esta imoralidade na utilização de fundos públicos que está a contribuir decisivamente para a extinção destas espécies em Portugal”.