Espanha

PP junta-se à extrema-direita para impedir gabinete anti‑corrupção

17 de setembro 2025 - 20:55

Direita e Vox também estiveram do mesmo lado na votação de uma lei que pretendia acabar com o processo de regularização de migrantes no país vizinho. Neste caso acabaram derrotadas.

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Foto da sessão de abertura do Congresso em 2020.
Foto da sessão de abertura do Congresso em 2020. Foto do Ministério da Presidência espanhol.

O maior partido da direita espanhola, o PP, voltou a alinhar o seu voto com a extrema-direita. Desta vez no tema do combate à corrupção e no da imigração.

No que diz respeito ao primeiro, PP, Vox e Junts conseguiram esta terça-feira impedir a criação pelo Congresso espanhol de um organismo independente com recursos próprios para investigar as causas da corrupção. O resultado foi 170 votos a favor deste, uma abstenção e 176 votos contra.

A proposta de lei foi uma iniciativa do Sumar, parceiro de governo do PSOE, e tinha sido apresentada quando surgiram os mais recentes escândalos de corrupção que afetaram os dois partidos do centrão. A ideia era que este organismo tivesse um carácter sobretudo “preventivo” mas teria igualmente capacidade para abrir investigações públicas relativamente a partidos, sindicatos e empresas que recebam subvenções estatais.

Entre as atribuições previstas estava assim o desenvolvimento de uma “estratégia integral de prevenção da corrupção, ” mas também a criação de um sistema de alertas para detetar irregularidades ou más práticas administrativas e o assumir de funções de “investigação e inspeção” que permitiria aos seus funcionários realizar investigações nos locais e examinar documentos das entidades fiscalizadas.

A coligação negativa que rejeitou a proposta fê-lo por diferentes motivos. Os independentistas catalães do Junts, pela voz de Josep Pagès, criticavam o “fedor recentralizador” da proposta. As suas críticas dirigiram-se assim ao Estado central que “pode pretender dar lições de integridade mantendo estruturas opacas, fora de qualquer controlo democrático, como a Coroa, o CNI [os serviços secretos espanhóis], os fundos reservados, as cloacas judiciais e o Ministério do Interior, e não vemos como este projeto de lei possa pôr fim a esta opacidade. Não é possível dar lições de integridade desde o regime de 78, que perdoou 227 pessoas condenadas por corrupção”.

Do lado do PP, a estratégia foi desviar-se da discussão da proposta para atacar apenas o governo. A deputada Edurne Uriarte dirigiu-se ao Sumar para dizer que se este partido quisesse “regenerar a nossa democracia” e ser coerente deveria sair do governo e apoiar “o trabalho dos juízes que lutam contra a corrupção”. A sua proposta teria apenas o intuito de “branquear” a sua imagem face ao caso Koldo que atingiu o PSOE.

Verónica Martínez Barbero, do Sumar, respondeu-lhes já depois da votação de que o sentido de voto da direita era “mais uma mostra do pouco que lhes importa realmente defrontar a corrupção em Espanha”.

À sua esquerda, o Podemos votou a favor apesar de considerar a medida insuficiente face a uma corrupção que é “um mal endémico do bipartidarismo” e para a qual estes dois partidos não conseguirão ser solução.

O Vox entre a expulsão de milhões e o fim da regularização de migrantes

No mesmo dia, outra proposta juntava Vox e PP do mesmo lado da votação e acabou igualmente rejeitada. O partido de extrema-direita tinha apresentado uma proposta para acabar com uma das raras possibilidades que os imigrantes que vivem há anos em Espanha têm para regularizar a sua situação.

Rocío de Meer, deputada do Vox, que em julho tinha pedido a expulsão de “oito milhões” de migrantes do país, número no qual incluía os espanhóis filhos de imigrantes, justificou a proposta com o habitual tom xenófobo da sua área política, defendendo que a lei vigente há décadas “põe em risco” a identidade nacional através de “regularizações massivas”, regressando ao discurso que liga imigração e crime sem apresentar mais uma vez dados que sustentassem isso: “disseram-nos que nos devíamos comprometer a construir pontes e a derrubar muros porque as mulheres que fugiam da guerra estavam a ser violadas, e acontece que trouxeram os seu violadores sem qualquer controlo”.

A lei a que faz referência regulariza migrantes que vivam no país há pelo menos dois anos, não tenham antecedentes criminais e demonstrem, através do cumprimento de uma série de requisitos, estar integrados na sociedade de acolhimento.

Face a este tipo de discurso, o PP, por intermédio de Mabel Sánchez, quis salvaguardar alguma distância, dizendo não alinhar em “qualquer discurso de ódio” ou em “criminalizar o estrangeiro pelo facto de o ser” mas acabou por votar ao lado da extrema-direita, supostamente por ser favorável a “abrir o debate” sobre o tema face a um governo que dá, alega, “carta branca às organizações criminosas que se dedicam ao tráfico e renunciou proteger as suas fronteiras”.

Luc Andre Diouf, do PSOE, preferiu responder à deputada de extrema-direita cujas palavras considerou “um verdadeiro atentado à democracia”, acusando o Vox de islamofobia e “ódio ao imigrante africano”.

O seu parceiro de governo, o Sumar, pela voz de Candela López considerou que a proposta da extrema-direita seria um primeiro passo para a expulsão massiva de migrantes com que o Vox sonha e que não se cansa de propagandear, exagerando o número de migrantes que vivem em Espanha.

Também Javier Sánchez Serna, do Podemos, considerou que estava perante um discurso de ódio. No seu entender, o Vox não só odeia os imigrantes que cometem delitos mas também “os que rezam” e até “as crianças espanholas filhas de um pai imigrante e de uma mãe espanhola”.

E Jon Iñarritu do Bildu atacou igualmente as “mentiras” do partido, invocando os dados que desmentem a ligação entre criminalidade e migração que o Vox repete.