Portugal tem maior percentagem de crianças pobres da Europa

21 de dezembro 2010 - 10:45

O Ano Europeu Contra a Pobreza falhou, os PECs falaram mais alto. Em 2010, a situação de muitas famílias agravou-se e Portugal liderou a tabela dos europeus com mais crianças pobres. As expectativas para 2011 não são melhores.

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Criança pinta tela alusiva ao combate à Pobreza e Exclusão Social - “Olhares sobre a Pobreza e a Exclusão Social” na Avenida dos Aliados, Porto, 6 de Outubro de 2010. Foto José Coelho/LUSA

Pelos dados do Eurostat, uma em cada quatro crianças que vivem no país passa dificuldades.

Segundo o jornal Sol, Portugal até foi um país que deu importância ao Ano Europeu Contra a Pobreza, mas isso foi um entusiasmo apenas social e internético: 135 mil visitas no site oficial e 18 mil fãs no Facebook.

O Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social deveria ser uma forma de marcar na agenda a questão da pobreza. Na altura, “por surpresa, chega a crise e o ano europeu aparece como que a vir dar resposta a ela”, lembra o padre Jardim Moreira, presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, citado pelo Sol.

Este ano acabou por ser um período de agravamento da situação dos mais desfavorecidos: “Vemos a pobreza a aumentar de forma desmesurada, causada pelas falências, desemprego e falta de apoio a muita gente que não recebe subsídios porque não descontava. Temos um mundo de gente em maus lençóis”, alerta.

Contudo, entre os grupos mais frágeis, Jardim Moreira escolhe as crianças e lembra os últimos dados do Eurostat que colocam “Portugal à frente na Europa com a maior percentagem de crianças pobres”.

“É a falta de habitação, de higiene, de saúde, de acompanhamento familiar... São um conjunto de situações que levam a que a criança não tenha as condições necessárias para um crescimento integral e equilibrado”, explica, sublinhando que a pobreza não se resume a ter ou não dinheiro.

Jardim Moreira diz que estas crianças são “filhas de mães adolescentes, solteiras, divorciadas, que ficam muito debilitadas no seu apoio”. Depois, “abandonam a escola” ou “têm insucessos escolares”. No futuro “terão necessariamente dificuldades de reinserção”.

Certo é que em 2010 a palavra 'pobreza' passou a estar diariamente nos media, mas isso deve-se sobretudo aos efeitos da crise e das soluções acordadas entres os partidos do Bloco central que incidiram maioritariamente nos cortes ao apoio social e nas restrições ao acesso a prestações sociais e de apoio no desemprego.

Infelizmente, a pobreza não foi um tema marcante porque se pudessem registar avanços e isso está patente nas declarações do presidente do Instituto da Segurança Social. “Este ano tivemos um grande empenho da imprensa nas questões da pobreza”, diz Edmundo Martinho, também responsável pelo ano europeu em Portugal. Além da comunicação social, Edmundo Martinho salienta a “mobilização muito elevada” das associações e da sociedade civil. 

Expectativas para 2011 pouco animadoras

As expectativas para 2011 não são as melhores: “Este ano não é um positivo para muita gente mas no próximo, com as propostas e agravamentos que vão ser impostos à sociedade portuguesa, vão piorar as condições de muita gente”, acrescenta o padre Jardim Moreira. “Portugal foi o país onde mais se cuidou e discutiu a pobreza, mas ficou-se muito na resposta assistencialista e essa não muda, não acaba com o problema”, conclui.

Medidas de combate à pobreza prometidas pelo Governo não avançaram

As duas medidas que o Governo pretendia implementar neste Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social não passaram de intenções. Os dois novos apoios financeiros - um apoio para as famílias trabalhadoras com filhos e um reforço financeiro para as pessoas com deficiência - foram travados por causa dos cortes orçamentais. As medidas tinham sido anunciadas em Fevereiro pela ministra do Trabalho e Solidariedade Social, Helena André.

A meta, assumida pelos 27 Estados-membros da União Europeia, apontava para uma redução, até 2020, de 20 milhões de pobres. Actualmente, os números apontam para a existência de 84 milhões. Em Portugal, são então pelo menos dois milhões.