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O folclore da pobreza em Ano Europeu

O folclore em que se transformou este Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social deixa-nos mais fartos.

Pensava eu que o combate à pobreza é um desafio colectivo que implica, em primeiro lugar, um vasto conjunto de políticas públicas, desde a área dos apoios sociais à educação, passando pela promoção de políticas estruturais de combate às desigualdades e de correcção de iniquidades várias, quer ao nível salarial, quer ao nível do acesso ao trabalho, à justiça ou à saúde.

Nada disto se fez em 2010, precisamente o Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social.

Em vez disto, o Governo e os seus agentes têm participado e estimulado as mais desvairadas iniciativas, desde marchas, a saraus artísticos, ou debates e colóquios, onde mentes bem nutridas de preconceitos, lugares comuns e banalidades, correm, dançam, declamam e discorrem sobre a pobreza, fazendo sempre passar essa mensagem peregrina de que a pobreza é um problema de todos e que todos temos de contribuir para o resolver - a começar pelos próprios pobres, essa gente mal cheirosa e preguiçosa que nos estraga a paisagem e as estatísticas.

Claro que, quanto mais diluirmos essa responsabilidade, menos ela cabe ao Governo, que pode continuar a entreter-se com a distribuição de pulseiras (como aconteceu esta semana através dos jornais), ou a despejar palavras de circunstância em fóruns encenados, ao mesmo tempo que reduz os apoios sociais, promove a precariedade laboral, não belisca a banca e os fugitivos do fisco, e nem quer ouvir falar de acabar com a fuga de capitais.

O folclore em que se transformou este Ano Europeu de Combate à Pobreza e Exclusão Social deixa-nos mais fartos.

De hipocrisia.

Ofereçam 2 quilos de arroz ao Banco Alimentar, participem na marcha, acendam uma vela!

Com tantas boas acções, não há-de haver pobreza que resista.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, técnica de segurança social.
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