“A evolução de Portugal desde a década de 70 do século passado, a sua integração na União Europeia e no primeiro mundo, o torvelinho tecnológico, político, social e noticioso em que nos movimentamos diariamente parecem remeter para um plano muito afastado um conjunto de fenómenos sociais, ambientais e económicos do nosso país que este livro repõe no nosso radar”, lê-se na contracapa do livro “Portugal Esquecido - Retratos de um país desigual”.
Num trabalho de “recolha sociológica e económica”, a investigação coordenada por Catarina Martins e João Teixeira Lopes “dá a conhecer um conjunto de realidades presentes em Portugal e de que poucas vezes se fala, talvez com exceção dos períodos de debates eleitorais”.
Explicando, na sua introdução, “a razão (e a emoção) deste livro de combate”, os autores apontam que o mesmo “quer mostrar, quer tirar da sombra, quer conferir reconhecimento a quem é invisibilizado”. Nos testemunhos transcritos nesta obra, em que “prolifera a diversidade de situações e de perfis”, sobressaem “clivagens de classe profundas, alavancando desigualdades perenes”, às quais se juntam discriminações com base no género, na idade, na racialização, no território, na orientação sexual e na identidade de género, na deficiência.
“Contribuir para o debate público, envolvendo as pessoas que relatam as suas vidas e as suas dificuldades é um dever cívico e político de que este livro não prescinde”, destacam Catarina Martins e João Teixeira Lopes.

Os autores não se deixam cair, por outro lado, “na armadilha derrotista”, sendo que, nas entrevistas, é possível encontrar “inúmeras pistas sobre resistências, lutas, propostas, projetos e aspirações”. “Nelas se vão urdindo, não sem dificuldade, as teias da manhã”, referem.
Num “balanço no contexto das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril”, “Portugal Esquecido - Retratos de um país desigual” apresenta “propostas de transformação social para o futuro do país em que ‘a paz, o pão, habitação, saúde, educação’ da canção de Sérgio Godinho ainda não estão ao alcance de todos”.
A investigação coordenada por Catarina Martins e João Teixeira Lopes contou com “um vasto trabalho coletivo”, alicerçado “numa rede de pessoas com distintas orientações partidárias (apesar de os organizadores partilharem o mesmo partido) e plurais inscrições na sociedade portuguesa (profissão, género, idade, nacionalidade...), unidas pela necessidade de identificar, compreender e intervir sobre as causas da invisibilização e vulnerabilização de tantos e tantas no nosso país”.

A equipa selecionou domínios “onde a sua experiência acumulada (académica, profissional, artística e/ou ativista) sinalizou situações agudas de exclusão, invisibilidade e vulnerabilidade sociais”.
Do “trabalho duro, precário e desregulado, mal pago, intenso, explorado e, não raras vezes, na margem ou mesmo fora da lei”, a “casos que ilustram a dificuldade social e institucionalmente enraizada de reconhecimento da diversidade”, passando ainda pelas “‘artes’, táticas e humilhações de quem tenta sobreviver em situações de aguda privação material e de ‘desonra’ simbólica”, ou pelo “interior que se despovoa, longe dos focos dos grandes investimentos ou da ilusão salvífica dos fundos europeus”.
O livro mobiliza ainda as experiências de quem sofre, porventura, “as mais agudas experiências de exclusão das formas elementares de integração social, fundadas no isolamento e no esquecimento”; ou de quem sente de forma mais expressiva as crises ambientais, ou seja, os mais desfavorecidos, que enfrentam uma maior exposição ao risco e à destruição.
Como não poderia deixar de ser, “Portugal Esquecido - Retratos de um país desigual” inclui como domínio autónomo a habitação, “transformada em sonho distante ou reduzida a uma prisão que impede a autonomia, a transição para a vida adulta ou tão só a prossecução de projetos”.
Os textos incluídos na investigação são assinados por Catarina Martins e João Teixeira Lopes, bem como por seis mulheres migrantes, Amílcar José Morais, Ana Vinhas, Beatriz Lacerda, Diana Santos, Dina Nunes, Francisca Matos, Inês Barbosa, Joana Ribeiro Santos, João Curvêlo, João Vilarinho Rodrigues, José Miguel Ricardo, José Soeiro, Leonor Medon, Luis Junior Gonçalves Lima, Maria Manuel Rola, Mariana Carneiro, Rita Madeira, Sandra Couto, Sara Regina, Tomás Nery e Vasco Castro.
A obra será apresentada no próximo dia 24 de fevereiro, sábado, por D. Américo Aguiar na Biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, a partir das 18h. No Porto, a apresentação estará a cargo de Alexandre Quintanilha, e realizar-se-á a 25 de fevereiro, domingo, pelas 16h, na Unicepe. Dia 29, caberá a Nídia Braz apresentar a obra no Club Farense, pelas 18h.