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Polícia chilena usou soda cáustica contra manifestantes

Uma análise química provou que as forças de segurança chilenas juntaram água, gás pimenta e soda cáustica, uma mistura que causa queimaduras graves, para reprimir as manifestações contra o governo neo-liberal de Piñera. Uma investigação anterior tinha já provado que as balas de borracha eram manipuladas para ter maior dureza.
Intervenção policial no final de um concerto de comemoração das oito semanas de protesto no Chile. Dezembro de 2019.
Intervenção policial no final de um concerto de comemoração das oito semanas de protesto no Chile. Dezembro de 2019. Foto de LUSA/EPA/ELVIS GONZALEZ

Os trabalhadores da saúde que prestam auxílio às manifestações no Chile já o suspeitavam há muito. Esta semana chegou a confirmação. Uma análise química da responsabilidade do Colégio de Químicos Farmacêuticos e Bioquímicos do Chile provou a utilização de soda cáustica na água disparada dos canhões de água contra os manifestantes que se têm manifestado nos últimos dois meses contra a política neo-liberal do presidente Piñera.

A queixa inicial tinha vindo do Movimento Saúde em Resistência, um grupo de profissionais e estudantes da área da saúde que socorre os manifestantes feridos. Estes, tinham detetado um “número crescente de pacientes que tiveram reações alérgicas” depois de atingidos pelos canhões de água que tentam conter as manifestações.

Na segunda-feira, o Colégio de Químicos Farmacêuticos e Bioquímicos do Chile revelou os resultados das análises feitas que provaram a existência de elementos “altamente irritantes”, com um pH de 12, numa escala que chega aos 14, um nível que pode ser fatal ou causar danos graves através do contato com a pele, os olhos ou se ingerido por acidente.

Foi identificada a presença de soda cáustica, “composto altamente corrosivo em contato direto ou em solução e fora de qualquer norma legal relativa ao uso de elementos de controle de distúrbios”. E também um componente do gás de pimenta.

Entre as reações a estas substâncias contam-se, por exemplo, inflamações nos pulmões e queimaduras. Também pode ser um fatores que explica o aumento de casos de cegueira por parte de manifestantes. Pelo menos 350 pessoas sofreram ferimentos nos olhos durante os protestos.

O mesmo alerta tinha sido lançado na semana passada pelo Departamento de Direitos Humanos do Colégio Médico do Chile perante o Senado do país. Esta entidade mostrara então fotografias das queimaduras registadas em manifestantes.

Também o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos tinha denunciado recentemente a atuação da polícia chilena referindo a existência de violações, tortura e outros abusos. Antes dele tinha sido a Human Rights Watch a compilar números até ao dia 26 novembro. Segundo a ONG, registaram-se 341 queixas de tortura e maus tratos, 74 de abusos sexuais, estão em investigação 26 mortes nas quais houve intervenção dos agentes de autoridade e 11564 tinham sido atendidas nas urgências com ferimentos na sequência da repressão.

Os canhões de água não são os únicos culpados, também as “balas de borracha” utilizadas contra manifestantes têm sido postas em causa. A Universidade do Chile tinha divulgado um relatório em que provava que as chamadas “balas de borracha” pelas autoridades afinal continham apenas 20% desta substância, sendo o restante sílica, sulfato de bário e chumbo, dando-lhes uma “dureza equivalente a uma roda de skate”.

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