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Pode haver alegria nas nossas lutas? Militância e ligações interpessoais

Há um elemento de obrigação no trabalho militante que também implica o gasto duma energia considerável. Mas ligarmo-nos uns aos outros parece ser uma das formas de contrabalançar o esgotamento geral. Por Véronique Bontemps e Céliane Svoboda.
Pormenor da capa de Joyful Militancy.
Pormenor da capa de Joyful Militancy.

Mesmo no campo da emancipação, a militância muitas vezes não rima com alegria. Como é possível isto e como podemos ir além das formas de organização e ação que muitas vezes reproduzem as caraterísticas da sociedade contra a qual estamos a lutar? Este é o problema que Carla Bergman e Nick Montgomery enfrentam no seu livro "Joie Militante (Éditions du commun, 2021), traduzido por Juliette Rousseau.


"Àqueles e àquelas que, em espaços apertados e atmosferas sufocantes, deixam entrar ar fresco e encontram espaço para se agitar; abraçam tanto os erros como a desordem; aprendem a mover-se, entre o amor feroz e a incerteza, tornando-nos capazes de novidade". (Epigrafe, Militant Joy, Carla bergman e Nick Montgomery, editions du commun, página 11)

Foi necessário ultrapassar um preconceito inicial para ler o livro de Carla Bergman e Nick Montgomery. O título "Militant Joy" parecia uma ousada associação de ideias. Desde manifestações a greves e reuniões coletivas, sempre nos pareceu que a militância é sustentada por efeitos particulares e diversos que são difíceis de associar à "alegria".

A militância não é necessariamente acompanhada pela alegria. Há um elemento de obrigação quase escolar no trabalho militante, seja numa associação, num sindicato, num partido, num 'movimento'... É também, muitas vezes, o gasto duma energia considerável. Recorremos a uma fonte que seca (muito rapidamente) em proporção ao tempo investido, face a situações cada vez mais insuportáveis. Ligarmo-nos parece ser uma das formas de contrabalançar o esgotamento geral: encontrarmo-nos, darmo-nos bem, abraçarmo-nos uns aos outros (entre outras coisas) para recuperar alguma força.

As pessoas a quem este livro se dirige devem, nalgum momento, ter sentido esta presença poderosa: a de estar unidas com algo maior e mais intenso – o que nos deu, durante algum tempo, uma força única. “Alegria Militante” fala, contudo, pouco destes instantes e do que eles produzem (um estado que é difícil de descrever brevemente por palavras) ou sobre a ingratidão pontual do trabalho militante. É mais uma reflexão (uma investigação, de facto), por vezes hesitante, sobre a forma como os desejos emancipatórios mais subversivos podem produzir formas de rigidez mortificante e as formas de sair delas (ou não?).

O ponto de partida é uma observação simples e não menos deprimente, que todos nós vivemos duma forma ou doutra nas nossas experiências de luta naquele momento em que, em vez de nos libertar, nos fechou. Deixou-nos tristes, stressou-nos, e o pior de tudo, sentimos que não estamos à altura. Não são as palavras bonitas que nos podem tranquilizar ("és maravilhoso, és indispensável"): este não é um problema pessoal de autoconfiança, mas da realidade dos efeitos negativos que circulam nos nossos meios militantes.

Para além das palavras, são por vezes os gestos que faltam e o verdadeiro cuidado do coletivo e dos seus membros em todas as suas dimensões que dificilmente são postos em prática. Muitas vezes, é o sentido de urgência que dita o comportamento: para fazer as coisas rapidamente, para fazê-las o melhor possível, por vezes, não temos em conta a angústia de cada indivíduo, assim como o possível esgotamento ou até mesmo o burnout que também se insinua.

Sob o mundo em chamas, haverá verdadeiramente ainda a possibilidade de extasiar?

"Algo circula nos numerosos movimentos e espaços radicais, esvaziando-os do seu potencial transformador. Quem tenha frequentado estes espaços já o sentiu. Muitos (incluindo nós) participaram ativamente neles, divulgaram-nos e foram feridos por eles. Esta coisa alimenta rigidez, falta de confiança e ansiedade precisamente onde nos devíamos sentir mais vivos.” (p. 23)

Este fenómeno, no sentido mais lato, é descrito pelos/as autores/as como "radicalismo rígido". A ideia é compreender as suas engrenagens, as suas origens e as possibilidades de o impedir sem lhe opor outro sistema igualmente rígido. Esta é uma tarefa importante, uma vez que se trata de juntar num abraço conjunto a conflitualidade das diferenças, a necessária violência da resistência, sem se atolar em blá blá blá blá tranquilizante à base de pensamento positivo e de comunicação não violenta.

Trata-se também de contrariar esta tendência natural para um radicalismo rígido, promovendo uma ética baseada nos laços humanos e concretos, o amor, o cuidado, a confiança e a responsabilidade. "Uau", apetece-nos dizer. Para os/as autores/as, "(...) laços duradouros e novas cumplicidades não são uma trégua ou uma fuga, são o único meio de derrotar o Império" (p. 28).

O radicalismo rígido assemelha-se à infiltração do império nos nossos campos de luta mais intensos. Pois é este Império que há que contra-atacar, e é precisamente identificado em “Alegria Militante” como um regime permanente de destruição organizada, que opera a diferentes níveis nas nossas vidas, desde a violência mais brutal às diferentes formas de poder suave que atuam, silenciosamente, de modo a controlar as nossas emoções, o nosso conhecimento, os nossos desejos.

Pior, para nos infligir uma norma que irá esgotar as nossas forças. Apesar disso, os autores argumentam que este Império tem fendas e que estas são precisam de ser escavadas para o derrubar pelas suas margens.

“Alegria militante” lê-se em todos estes paradoxos. Sem se fazer passar por "guia", a obra coloca-se mais como uma primeira abertura a múltiplas questões encontradas no campo militante. É uma viagem curta onde os detalhes serão encontrados nas experiências pessoais de cada pessoa. Assim, como um caderno de bordo, permite-nos questionar tanto as nossas posições como as nossas formas de fazer as coisas.

Primordialmente, é a questão das nossas relações interpessoais que é colocada em cima da mesa. Os autores baseiam-se nas reflexões de Donna Haraway, Silvia Federici e Jackie Wang para defender a necessidade de criar relações sólidas que nos permitam estar melhor preparados para enfrentar o Império. Trata-se então de criar redes, lugares de convívio, amizades e, portanto, novas "famílias".

"Criar redes de intimidade e de apoio inter-geracional é um ato radical [...] Questionar a família nuclear não se trata de uma rejeição puritana de tudo o que se lhe assemelha, trata-se mais de criar alternativas à sua hegemonia, ao desmembramento das relações sociais, à divisão espacial das pessoas através da suburbanização, do encarceramento, da escola, da despossessão e do deslocamento. Isto implica a proliferação de relações que possam ou não ser baseadas em laços de sangue, mas que são construídas através do cuidado e do amor". (p. 106)

Carla Bergman e Nick Montgomery também revisitam teorias trotskistas, leninistas e anarquistas (que preferem) através dum prisma que pode ser resumido assim "Quando e como é que isto correu mal? A inserção do Império nos nossos espaços de luta e as nossas teorias produz aquilo a que chamam "militância performativa", que é um campo de competição de radicalidades (e de egos).

Isto reproduz no mundo militante as normatividades rígidas e esgotantes do Império: obsessão com a produtividade, antagonismo, competição. As soluções são simplesmente enunciadas através dum objetivo: "colocar as relações à frente dos compromissos políticos abstratos e das ideologias." (p. 110)

Os autores propõem assim um verdadeiro trabalho sobre a(s) relação(ões): cuidar mas também saber como desatar e romper com o que nos esmaga. A proposta ética é também a de ter confiança (tanto nos outros como em si próprio) e da responsabilidade. Permanecendo sempre atentos à rigidez que se insinua, confiar permanecendo desconfiados da ideologia que se instala, das regras que se instauram… Trata-se de usar a "incerteza" não como fonte de angústias, mas sim como uma direção flutuante que permite a "criação permanente" (como Robert Filliou costumava dizer).

É claro que estamos constantemente a ser enganados, nunca estamos totalmente livres do domínio da sociedade sobre a nossa imaginação e experiências, por isso, por vezes (muitas vezes) as coisas correm mal.

Alegria como remédio?

Para contrariar isto, o remédio proposto é a alegria. Os autores baseiam-se no uso que dela faz o filósofo Espinosa (e no seu seguimento, se assim se pode dizer, por Deleuze e Guattari) que exprime uma teoria dos afetos e do que produzem, em termos de aumento ou diminuição da nossa potência de vida. A alegria não é nem um ideal nem um objetivo em si, e não tem nada a ver com a felicidade.

A ideia é antes a da adequação: a de agir e de não estar em reação permanente às injunções que nos rodeiam. Trata-se de aceitar mudar, querer mudar, ser mudado, aceitar a incerteza, a tristeza, de aceitar estar errado. Podemos ver despontar aqui uma forma de filosofia de se deixar ir: toda a questão colocar-se-á na articulação destes efeitos com a atividade política.

Longe de uma moralidade normativa,

"as respostas transformadoras (...) são alegres no sentido espinosista da palavra, não conduzem a um aumento da felicidade mas a um aumento da nossa capacidade de afetar e de ser afetados, com toda a dor, risco e incerteza que isso pode acarretar" (p. 228).

O livro toma a forma de investigação aberta: para esclarecer estas questões incómodas, Carla Bergman e Nick Montgomery foram encontrar-se com militantes das lutas à margem, "em luta com o mundo", e procuraram questionar práticas, situações, com uma reflexividade impressionante, uma vez que muitas vezes refazem os seus caminhos, aceitando estar errados. Cada capítulo afronta o Império de ângulos diferentes, através de lutas diversas e muito concretas (das lutas indígenas às experiências de emancipação das crianças).

Os exemplos abundam, por vezes contraditórios, mas isso não importa, porque os autores afirmam essencialmente o seguinte:

"a militância não é um ideal fixo ao qual nos devemos conformar (…) Em vez de reduzir a militância alegre a uma determinada forma de ser ou a um conjunto de caraterísticas, vemo-la emergir nas e através das relações que as pessoas formam umas com as outras. Isto significa que terá sempre um aspeto diferente, dependendo das conexões emergentes, relações e crenças que a impulsionam"(p. 80).

A "militância alegre" é assim colocada como firmemente enraizada nos contextos locais (e não numa visão global da sociedade) e ancorada numa montagem de pessoas e afetos. Nasce da capacidade de se abrir ao poder coletivo que surge destes efeitos, que seria uma forma, talvez, de neutralizar as relações de poder que existem dentro de qualquer relação. Uma margem onde a vulnerabilidade não seria uma fraqueza, mas sim uma força. Ou, melhor, em que não seria questão de fraqueza nem de força, mas (sempre) de relação, de cuidado, de afeto e de potência coletiva.

Este aspeto concreto da militância radical não pode deixar de ressoar com as experiências de muitos de nós. Há um certo senso comum: se não se pode confiar, não se pode ser camarada. A militância baseia-se, antes de mais, em ligações pessoais e concretas, em afetos e na palavra que circula. Caso contrário, são construções rígidas que nos dão vontade de chorar. Ora, confiar implica riscos. Também não se pode confiar demasiado facilmente em relações minadas por relações de poder estruturais. É preciso, então, poder “sentir-se”, andar às apalpadelas, “ir com calma” (p. 174) de forma a experimentar o que seria uma verdadeira relação de igualdade com as famílias partilhadas.

Há aqui, de forma algo surpreendente, um eco inegável de certas teorias de desenvolvimento pessoal, na afirmação da importância da presença no mundo, do momento presente, de tirar partido do ambiente, de deixar de se ver como o umbigo do mundo para se sentir parte de um todo vivo e de cultivar um verdadeiro deixar-se ir.

"Uma forma de estar envolvido implica aumentar a sensibilidade e de habitar mais plenamente as situações. É neste sentido que Amador Fernandez-Savater sugere que a alternativa revolucionária ao controlo consiste em "aprender a habitar plenamente, em vez de governar, um processo de mudança. Deixar-se afetar pela realidade, ser capaz de a afetar de volta. Tomar o tempo necessário para compreender as possibilidades que se abrem num momento ou noutro". E se a capacidade de estar verdadeiramente presente fosse revolucionária? Que potenciais podem ser revelados quando nos ligamos ao imediatez, num mundo que encoraja a constante distração, procrastinação e dormência"? (p. 255)

Longe de ser fácil, anda, como nós, às apalpadelas e dá-nos muitas pistas locais abundantes (e um pouco de auto-promoção também) para quebrar as ligações impostas e recriar as que nos dão vida.

É sem dúvida esta uma das limitações das propostas de “Alegria militante”. Compreende-se bem, tem-se vontade de experimentar, fica-se aliviado por ler que temos o direito de nos enganar, mas as propostas feitas parecem ficar aquém da atual catástrofe que estamos a viver.

Certamente, o pressuposto é que a dissolução do Império se fará pelas suas margens e mais através de laços concretos do que da ideologia. Devemos ter sempre isto em mente. Mas se nos reconhecemos enormemente em muitas das situações, ficamos com uma sensação agridoce de andarmos um pouco em círculos.

Num movimento de otimismo, chegamos a perguntar-nos se não estamos já a estudar formas de fazer as coisas para uma possível sociedade pós-capitalista; mas no atual estado de coisas, qual é o lugar estratégico para as pistas aqui colocadas? A postura que tende a aproximar-se de uma certa forma de resiliência e de aceitação não será perigosa?

Amar-se, deixar-se ser vulnerável, afetar, cuidar dos outros; sim. Fazer uma nova família, construir uma mini ZAD[1] e achar que isso vai destruir o Império, a sério?


Texto de Véronique Bontemps e Céliane Svoboda.

Publicado na revista Contretemps. Traduzido por António José André para o Esquerda.net.


Nota

  1. ^ ZAD, Zona a Defender, é um neologismo criado para designar uma área ocupada por militantes de forma a impedir um projeto de construção devido, sobretudo, a preocupações ambientais. É um movimento que surgiu em França, no início dos anos 2010, como forma de oposição ao aeroporto de Notre-Dame-des-Landes. (Nota da Tradução)

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