Nas montanhas dos estados de Chiapas e Veracruz, no sul do México, as florestas deram lugar a plantações de café. A maior parte dos grãos do México é produzida aqui. O país é o décimo maior produtor de café do mundo, de acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos. Durante a época da colheita, famílias inteiras migram para estes campos e montam acampamentos temporários.
“As mulheres preparam as refeições, os homens colhem o café e cuidam dos campos, e as crianças ajudam na apanha”, disse um produtor entrevistado pelas ONG Coffee Watch, Empower e ProDESC. Num relatório tornado público a 14 de fevereiro, estas organizações revelaram que a cadeia de fornecimento de café mexicano certificado da Starbucks e da Nestlé está marcada por violações dos direitos humanos, impactos ambientais negativos e práticas de exploração “que prendem os pequenos produtores mexicanos num ciclo de pobreza extrema”. Enquanto o CEO da Starbucks, Brian Niccol, recebe um salário mensal de 10 milhões de dólares e viaja de casa para o escritório num jato privado, estes agricultores vivem com apenas 106 dólares por mês. Um pouco acima do limiar de pobreza extrema, que no México se situa nos 98,80 dólares.
Certificações de encobrimento
A investigação levada a cabo pelas ONG Coffee Watch e Empower levanta o véu de um sistema de exploração laboral, trabalho infantil e desflorestação. Na sua página de Internet, a Starbucks afirma ter “atingido o marco de 99% de café de origem ética até 2025”. Tanto a Starbucks como a Nestlé possuem certificação ambiental e social, ao abrigo do programa C.A.F.E Practices, no caso da Starbucks, e do programa 4C, no caso da Nestlé. Estas certificações destinam-se a garantir o abastecimento ético e sustentável do café, respeitando os direitos dos trabalhadores, das comunidades e do ambiente. Então, como podemos explicar os abusos no México?
De facto, as duas certificações foram criadas em colaboração com a Starbucks e a Nestlé. As relações estreitas entre estas empresas e os organismos responsáveis pelo controlo favorecem uma forma de conivência. Esta permite “contornar as exigências de uma certificação independente e exercer um controlo absoluto sobre a cadeia de abastecimento”, nota o relatório. Ao mesmo tempo que afirmam trabalhar para o bem social e ecológico.
Os preços do café no México são em grande parte determinados por estas duas multinacionais: a Nestlé compra um quarto da produção mexicana. No entanto, as duas empresas não negoceiam diretamente com os produtores. Delegam essa tarefa a empresas comerciais intermediárias: a Ecom Agroindustrial, com sede na Suíça, a Neumann Kaffee Gruppe, na Alemanha, e a Louis Dreyfus Company B.V., nos Países Baixos. Em conjunto, estas empresas, a Olam (Singapura) e a Volcafe (Suíça) que comercializam metade da produção mundial de café.
Estes intermediários não se limitam a fazer a ligação entre os agricultores e as multinacionais. Dominam uma grande parte do mercado e determinam o preço de compra com base no seu valor bolsista. Este preço de compra é frequentemente muito inferior ao custo de produção. Em 2023, o preço do quilo de grãos baixou para 0,25 dólares, muito longe dos 1,2 dólares necessários para o seu cultivo. As sociedades de trading ditam assim as condições de produção e moldam as estruturas económicas e sociais dos Estados de Chiapas e Veracruz.
As consequências deste sistema são profundas para os pequenos produtores. No final de contas, recebem apenas uma pequena percentagem do preço do produto final, que é vendido nos quatro cantos do mundo. Os trabalhadores que contratam são pagos à tarefa e prolongam as suas jornadas de trabalho para puderem ganhar mais dinheiro. E para complementar o rendimento insuficiente dos pais, as crianças têm muitas vezes de trabalhar.
Estas certificações também não garantem práticas mais respeitadoras do ambiente. Foram registados casos de desflorestação e de utilização excessiva de agro-químicos em explorações certificadas pela C.A.F.E. Quanto ao 4C, a Nescafé incentivou a expansão da cultura do café robusta. Esta variedade é mais resistente, mais barata e de menor qualidade, com graves consequências ecológicas.
Deve ser plantada a pleno sol e requer uma irrigação abundante. A sua expansão contribui assim para a desflorestação, o esgotamento dos recursos hídricos e o desaparecimento das variedades tradicionalmente cultivadas. Sob o pretexto de apoiar os agricultores, a Nestlé distribuiu cerca de 14,6 milhões de plantas de café a agricultores mexicanos desde 2010. Entre elas estava café geneticamente modificado, concebido para resistir à seca e às doenças.
Por certificações independentes
A fim de “erradicar a exploração, a opacidade e a desflorestação”, o relatório faz uma série de recomendações. Em primeiro lugar, as ONG apelam a uma maior transparência das cadeias de abastecimento para assegurar um melhor controlo das suas práticas comerciais. Propõem, nomeadamente, a realização de auditorias independentes das certificações C.A.F.E. e 4C, com inspeções regulares no terreno.
As ONG assinalam igualmente a importância do Estado mexicano na capacitação dos pequenos produtores. “É tempo de a responsabilidade das empresas deixar de ser um conceito abstrato e tornar-se uma realidade tangível”, afirmam os relatores. Enquanto cada cápsula de café da Nestlé ou da Starbucks exibe orgulhosamente o seu compromisso social e ecológico, estas cadeias de abastecimento mexicanas estão longe disso. As suas certificações tornaram-se um meio de “greenwashing”.
Texto publicado originalmente no Basta.