A direita italiana, que lidera o governo, está a tomar conta das instituições culturais, dos meios de comunicação e do sistema educativo e, no seu projeto pseudogramsciano de hegemonia (talvez pudessem inventar algo, em vez de roubar ideias e palavras?), não perdeu a oportunidade que oferece o 50.º aniversário da morte de Pasolini.
Jornalistas e políticos do partido de Meloni afirmaram que, de uma forma ou de outra, Pier Paolo Pasolini pertencia ao campo conservador.
No Festival de Atreju, um encontro cultural natalício para os descendentes do Partido Nacional Fascista, um tal Molliconechegou a comparar Pasolini a Charlie Kirk, e até se atreveu a dizer que Pasolini se sentiria honrado pela comparação com o racista americano.
Não creio que valha a pena discutir este tipo de disparates. Por isso, deixemos isso para lá e perguntemo-nos quem foi Pasolini e quanto do seu legado contraditório continua a ser relevante hoje em dia. Não me interessa debater se Pasolini era de esquerda ou de direita: a filiação política não é um critério útil para compreender a evolução cultural e estética na sua complexidade.
Pasolini não compreendeu 1968
Em 1971, eu morava numa casa no centro de Roma, não muito longe da Via di Panico, onde morava Laura Betti. Uma noite, Laura convidou-me para jantar na sua casa e, quando cheguei, havia um senhor de aparência severa que reconheci como Pasolini, um grande amigo de Laura. Ele estava sozinho num canto, taciturno, e intimidou-me um pouco. Eu também estava taciturno naquela noite; felizmente, Laura estava conversadora como sempre.
Eu não gostava daquele senhor por muitas razões. Já o conhecia desde os tempos do liceu, embora não pessoalmente. Em meados dos anos 60, vi O Evangelho segundo São Mateus com Corrado Festi, um velho professor cego que ensinava filosofia no instituto Minghetti, onde eu estudava. Comunista e libertário, o professor costumava ir ao cinema com alguns alunos porque precisava que alguém lhe explicasse o que se passava no ecrã. Voltei a encontrar Pasolini em 1968, mas novamente apenas virtualmente. Após os confrontos de Valle Giulia, onde pela primeira vez os estudantes não fugiram da polícia, mas insurgiram-se contra a violência repressiva, Pasolini escreveu um poema. Um mau poema, na minha opinião: ressentido, arrogante e amargo, sem luz, sem ironia. Interessante, mesmo assim. No poema (intitulado Il PCI ai giovani,«O PCI aos jovens», mas conhecido como Vi odio, cari studenti, «Odeio-vos, queridos estudantes», porque a revista L’Espresso publicou o texto com esse título), Pasolini acusava os estudantes de serem filhos do papá e de lutarem contra os seus pais apenas para se apoderarem do seu poder. Ao mesmo tempo, declarava o seu amor pelos polícias, filhos jovens de camponeses e operários. Velha retórica populista, quase lixo.
Homem de visão extraordinária, embora fosse um poeta medíocre e tivesse pouco conhecimento do pensamento de Marx, acredito que Pasolini não compreendeu a importância do movimento estudantil de 1968. Muitos dos estudantes que saíram às ruas naquele ano na Itália, França e outros lugares eram, talvez, filhos de pais burgueses. Muitos eram filhos de funcionários da classe média baixa; um grande número vinha de famílias da classe trabalhadora, apesar de o acesso à universidade para os trabalhadores ainda ser limitado. Mas essa consideração sociológica não era realmente o essencial. A importância do movimento que abalou o mundo em 1968 só pode ser compreendida observando-se a longo prazo o processo de transformação pós-industrial do trabalho.
Esse movimento foi cosmopolita porque coincidiu com o surgimento da cultura juvenil global, e também internacionalista porque exprimiu a sua rebelião contra o imperialismo ocidental. Esse movimento marcou o primeiro surgimento em massa do trabalho cognitivo, que nas décadas seguintes se tornou o motor da produção. A aliança entre estudantes e trabalhadores industriais não foi uma declaração retórica de compaixão ética, mas um sinal da interdependência entre o trabalho intelectual e a rejeição da alienação industrial. A rejeição do trabalho por parte dos jovens trabalhadores e o recurso à energia cognitiva convergiram no processo comum de revolta social contra a dominação capitalista.
Pasolini errou completamente na sua avaliação do movimento estudantil porque ignorou o ponto crucial, que não eram as origens sociológicas dos estudantes, mas o novo papel que o trabalho cognitivo começava a desempenhar na produção e na composição política da classe trabalhadora. Depois de 1968, a abordagem de Pasolini ao movimento mudou: impulsionado pela própria força dos acontecimentos a reconhecer a sua natureza proletária, juntou-se à Lotta Continua, uma organização que fundia o marxismo, o maoísmo e o anarquismo com uma generosa inspiração do radicalismo cristão.
Em colaboração com a Lotta Continua, ele filmou o documentário 12 Dicembre (1972). Não é difícil compreender a afinidade de Pasolini com a Lotta Continua. “A prioridade desses jovens militantes”, disse ele, “é a paixão e o sentimento”... e uma certa imprecisão teórica, se me permitem dizer.
A Lotta Continua não era uma organização política, como muitos argumentavam nos círculos de esquerda da época, mas um estado de espírito que às vezes roçava o populismo. Um sentimento de amor pelo povo, pelos pobres e marginalizados, era o ponto em comum entre a Lotta Continua e Pasolini. Em Cartas a Gennariello (artigos publicados pelo Il Corriere della Sera em 1974), esse vago sentimento de amor pelos pobres entrelaça-se com a autenticidade mitológica da juventude pré-moderna napolitana, que o escritor desejava proteger da contaminação do consumismo e da fealdade da era moderna.
Gennariello e os trabalhadores rebeldes
Depois de ver os seus belos filmes e ler a sua poesia medíocre, finalmente, como disse, conheci Pasolini na casa de Laura Betti naquela noite de 1971.
Eu era um jovem e fiquei em silêncio, observando aquele homem severo e sem muita compaixão. Naquela altura, ele estava apenas a começar a publicar as suas Cartas a Gennariello, e o retrato do jovem proletário napolitano que pintava nas suas páginas parecia-me completamente falso. Eu tinha interagido com jovens proletários de Nápoles e outras cidades do sul da Itália porque os tinha conhecido nas fábricas do norte, onde distribuía panfletos do Potere Operaio, e eles pareciam-me muito diferentes do que o escritor retratava.
Menos arcaicos e instintivos do que Gennariello, os trabalhadores migrantes que se reuniram nas fábricas de Milão e Turim foram protagonistas da nova onda de lutas autónomas contra a exploração e o trabalho industrial. Os que conheci pareciam-se muito mais com o jovem trabalhador da Fiat descrito por Nanni Balestrini no seu livro Queremos tudo(1971).
Gennariello surgiu de uma velha mitologia populista que já não tinha muito a ver com a realidade. No livro Le ceneri di Gramsci (As cinzas de Gramsci), podemos ler estes versos: “E só te chega / um rumor abafado de bigorna / nas oficinas do Testaccio, adormecido / ao anoitecer: por entre míseros telhados, / nus montões de lata, ferro-velho, onde, vicioso, / um operário cantando dá por terminado / o seu dia, e em redor deixa de chover”. (tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, assírio & alvim, 2005).
Do que Pasolini está a falar? De um operário terminando o seu dia de trabalho? Parece que nos deparamos com um poema do século XIX.
Sejamos sérios.
Os operários de Pasolini não têm nada a ver com a classe operária que conheci no final dos anos sessenta: martelam sobre a bigorna porque são simplesmente uma reminiscência populista do ferreiro do século XIX.
A classe trabalhadora dos anos sessenta e setenta não conhecia a bigorna, era rebelde, autónoma, lia os livros de Marx e os poemas de Mayakovski, era capaz de se organizar e estava decidida a tomar posse da riqueza, enquanto os operários de Pasolini são silenciosos e tímidos, pobres e necessitados de orientação política ou religiosa.
Por isso não gostei do poeta Pasolini, enquanto gostei do realizador de Accattone e O Evangelho segundo Mateus. Mas isso é outra história.
Um reacionário antifeminista
Há alguns anos, um intelectual de direita chamado Marcello Veneziani escreveu “Pasolini era contra a modernidade, contra o 68, contra a burguesia radical e chique, contra a sociedade permissiva e irreligiosa, contra o aborto e a manipulação genética, contra os jovens ricos que atacam a polícia mas perdoam os juízes, contra a pornografia e as drogas. Pasolini recusou-se a aderir ao movimento homossexual, Il Fuori, e hoje estaria contra a farsa do orgulho gay e do casamento igualitário porque, como homossexual, tinha uma ideia trágica e intimamente católica da homossexualidade, que vivia como escândalo e transgressão, e não exigia um certificado do presidente da câmara nem os elogios dos meios de comunicação social. Pasolini criticava o fascismo não por ser o braço armado da reação, mas porque tinha contribuído para a destruição dos valores tradicionais, e amava o comunismo porque, na sua opinião, era uma forma de resistência à irreligião e à modernidade neocapitalista. Lembram-se que ele preferia o mundo campestre, a castidade feminina, os valores religiosos e não gostava do feminismo e do laicismo? (Marcello Veneziani: «Pasolini não tem herdeiros», 6 de novembro de 2005).
Embora eu esteja muito longe da ideologia de direita de Marcello Veneziani, reconheço que o que ele diz aqui parece compreensível e bastante verdadeiro, ao contrário das parvoíces do Sr. Mollicone.
Pelas razões enumeradas por Veneziani, é difícil negar que Pasolini era reacionário. Digo reacionário, não conservador: Pasolini via a liberdade alcançada pelas mulheres como um sinal de decadência e corrupção, detestava a alegria rebelde dos jovens trabalhadores que se opunham ao trabalho e distanciava-se da cultura cosmopolita que rejeita o provincianismo da nação, do lugar e do localismo. Era homossexual, mas nunca se teria reconhecido na alegre afirmação da diversidade cultural defendida por Mario Mieli ou Corrado Levi (dois intelectuais do movimento homossexual milanês dos anos 70).
O mundo ideológico de Pasolini era um espaço dominado pelos homens, ao qual as mulheres só pertenciam na qualidade de mães. Num artigo publicado em 1972 com o título vergonhoso «Demasiada liberdade sexual e chegamos ao terrorismo», Pasolini descreve a transição da antiga paisagem agrícola de autenticidade popular para a paisagem consumista da modernidade corrupta nestes termos: “Em Itália, as relações sexuais entre homens e mulheres mudaram radicalmente em apenas alguns anos... Especialmente nas cidades, em cada rua, esquina ou edifício, uma ou duas menores de idade estão agora disponíveis para todos... Na verdade, já não se vêem grupos de jovens perto de prostitutas: quase as ignoram... Incrivelmente, a prostituição está a desaparecer, pelo menos nas suas formas tradicionais, barulhentas e quase festivas. A repentina permissividade sexual, embora traga algumas consequências positivas, tem efeitos negativos inesperados. Por exemplo, leva ao conformismo sexual” (artigo publicado no jornal Il Tempo em 16 de julho de 1972).
Pasolini está perturbado com a liberdade sexual, especialmente a das mulheres. As mulheres corrompem e seduzem os jovens, quebrando a cumplicidade e a solidariedade masculinas. Ele sente nostalgia de um passado em que a prostituição e as insinuações homossexuais não eram ameaçadas pela liberdade feminina.
Franco Fortini, um dos críticos mais perspicazes de Pasolini, escreveu sobre ele: “ Fala da sua mãe como uma virgem, dos adolescentes como inocentes sensuais, de Jesus como um jovem contaminado e do comunismo como o superego do pai”.
Não poderia ter expressado melhor.
A mutação ambígua
Sentia-me distante desse homem taciturno e reservado, um juiz severo de uma realidade que, ao contrário, me parecia cheia de possibilidades.
Os seus escritos continham a crueza de quem se sente traído pelo avanço caótico de fenómenos inovadores nos costumes, na tecnologia e na imaginação, porque havia nostalgia de uma época mitológica, de um passado de integridade imaginada.
A modernidade irritava-o. E acima de tudo (era isso que eu mais profundamente lhe reprovava), ele não conseguia ver como uma mutação heterogénea e diferenciada operava no comportamento juvenil, aberto a múltiplos e imprevisíveis resultados.
A nostalgia de Pasolini tinha muitos elementos em comum com o estilo de pensamento da Escola de Frankfurt (especialmente com Herbert Marcuse, muito lido naqueles anos).
Mas Pasolini substituiu a crítica social pela condenação moralista. A perspetiva da Escola de Frankfurt representava uma sociedade integrada, dominada por modelos de consumo padronizados, incapaz de reagir política e culturalmente.
“É este mundo camponês ilimitado, pré-nacional e pré-industrial, que sobreviveu até há alguns anos, que sinto falta... Do ponto de vista da linguagem verbal, os dialetos (as línguas maternas) estão distanciados no tempo e no espaço: as crianças são obrigadas a deixar de os falar porque vivem em Turim, Milão ou na Alemanha» (Pasolini, A limitação da história e a imensidão do mundo camponês, Paese Sera, 8 de julho de 1974). Pasolini lamentava o abandono da moral camponesa e o apego às culturas locais.
Na década de 1970, a minha geração viveu uma experiência muito diferente daquela que Pasolini descreve com nostalgia: a experiência da ruptura do conformismo consumista, o desmoronamento da subordinação social, o surgimento de lutas independentes entre os jovens trabalhadores, a criação de espaços de cultura cosmopolita, mas não homogeneizada.
Enquanto a Escola de Frankfurt testemunhou o auge de um consumismo homogeneizador, Tronti viu a formação de “uma raça pagã rude, sem fé, sem ideais, sem ilusões” que lideraria o ataque contra a exploração e, portanto, revelaria a natureza desumana da mercantilização. Tronti versus Marcuse: essas foram as coordenadas da minha orientação no pensamento político da época.
Uma alternativa semelhante encontra-se no debate literário italiano daqueles anos, que opôs Pasolini aos escritores da vanguarda experimental. Balestrini, Eco, Pagliarani e Sanguineti tentaram captar o potencial, a possível bifurcação da inovação social e estética do neocapitalismo. Em certo sentido, o debate que algumas décadas antes havia colocado Benjamin contra Adorno estava de volta: o primeiro buscava nas novas tecnologias de comunicação o potencial e os recursos que o segundo considerava apagados pela produção em massa.
Portanto, no início da década de 1970, eu via Pasolini como um nostálgico de uma época passada, um reacionário corajoso, estimulante e fascinante. Para ser claro, não me arrependo dessa leitura juvenil. Mas agora posso dizer que, embora tenha compreendido algo, perdi algo essencial. Só depois de 1977, após a explosão e derrota do movimento que então chamávamos de juventude proletária, pude compreender outro aspeto da crítica de Pasolini.
O movimento de 77, de certa forma, tentou reverter a sua visão. Começámos precisamente com aqueles modos de vida que Pasolini considerava “fascistas”, conformistas; começámos com modos de vida que outros condenavam como bárbaros, porque nessa barbárie procurávamos introduzir ironia, autonomia e crítica prática. Queríamos associar a energia bárbara do chamado subproletariado às lutas autónomas dos trabalhadores. E queríamos fazer uso desenfreado da literatura para libertar a criatividade.
Tínhamos reagido ao consumismo com a ideia de uma reapropriação alegre e irónica dos bens, em vez de o condenar em nome de alguma integridade passada. Nesse sentido, estávamos na mesma linha que Pasolini, mas ao seu Gennariello não dizíamos: “Continua a ser antigo se quiseres ser humano” . Dizíamos-lhe, antes: “Desafia a modernidade para extrair dela novos horizontes de humanidade”.
Depois, as coisas aconteceram como aconteceram. Não exatamente como as tínhamos imaginado. E depois de 77, a perspetiva mudou gradualmente. Então comecei a compreender algo que antes me escapava, mas que era fundamental: o olhar de Pasolini não era o de um crítico político, mas o olhar de longo prazo de um antropólogo. O que ele vislumbrou foi uma transformação mais longa e profunda do que aquela em que nós, os autonomistas criativos, tínhamos apostado. Não quero dizer que ele estava certo e nós errados; tínhamos visto diferentes facetas do mesmo processo. Pasolini compreendeu desde o início que o poder da mudança tecnológica estava destinado a prevalecer sobre as culturas libertárias e igualitárias que constituíam o culminar de toda a tradição humanista.
Desta forma, Pasolini tinha ficado desfasado do seu tempo, mas a sua natureza desfasada também significava que ele estava à frente do seu tempo. Compreendeu que, perante o avanço da mediatização, algo está a acontecer que afeta o sensorial humano, a relação entre o imaginário e a imaginação, e que a política tem pouco a ver com esta transformação, e que a ação voluntária pode não ser eficaz: previu a marginalização de que o intelectual estava destinado a ser vítima. Desta forma, teve uma profunda premonição da época atual.
Não um ideólogo, mas um visionário profético
Quando observamos a obra de Pasolini, quando lemos os seus romances e poemas, na minha opinião, devemos usar uma perspetiva diferente daquela que usamos quando vemos os seus filmes e documentários. Sempre, ao lê-lo ou vê-lo, sentimo-nos perdidos num labirinto de paradoxos, e devemos tentar compreender a natureza paradoxal dos seus julgamentos e opiniões, as suas idiossincrasias, paixões e aversões. Mas a perspectiva muda se Pasolini se desvia entre palavras e conceitos ou se move entre imagens e visões.
Quando escreve, quando fala, quando atua como ideólogo, Pasolini é essencialmente um reacionário e um conformista disfarçado de provocador. Mas quando vemos os seus filmes, Pasolini aparece como um visionário, quase um profeta, capaz de uma grande visão do futuro.
Sim, acho que ele era um mau poeta e um reacionário ideológico. Mas também acho que Pasolini foi um dos grandes realizadores do cinema italiano. Não era bom a falar, mas era muito bom a ver, e previu o futuro distante, porque era um visionário no sentido de profeta.
Nos seus filmes, Pasolini foi capaz de perceber as formas futuras do fascismo (para usar este termo tão batido). Foi capaz de ver formas emergentes de conformismo cultural e brutalidade, associando o fascismo à humilhação sexual, ao consumismo, à ignorância, à agressão e à fealdade, como faz em Saló ou os 120 dias de Sodoma.
A humilhação sexual, o consumismo como substituto de uma vida miserável, a agressão e a ignorância continuaram a espalhar-se durante os anos da hegemonia neoliberal. E a fealdade está em toda a parte: nas cidades devastadas pela especulação, nos corpos devastados pela exploração e pela solidão, na publicidade omnipresente nos ecrãs e na poluição urbana causada pelo petróleo.
Em Accattone, um filme de 1961, um homem explora a sua esposa, prostituindo-a, num dos bairros marginais sórdidos da Roma do pós-guerra. Quando ela é presa, ele procura outra mulher para obrigá-la a sair para a rua: ele é um chulo, sórdido, miserável e perturbador. Mas Accattone não é apenas um filme sobre a Itália do pós-guerra, pintado em preto e branco por realizadores neorrealistas. É uma fábula sobre a face triste, até cruel, do movimento nacionalista popular, uma fábula sobre um povo sem consciência de classe, sobre uma pobreza sem solidariedade e sem luta.
Em Mamma Roma (1962), Pasolini retrata as classes baixas das periferias urbanas como um mundo onde a crueza da era pré-moderna se encontra com o cozido da civilização neocapitalista tardomoderna. No sentido de Lévi Strauss, o cru e o cozido significam o pré-civilizado e o hipercivilizado. O filme conta a história de uma mulher (interpretada por Anna Magnani) forçada a prostituir-se por um lumpenproletário dos subúrbios romanos. Na primeira cena, Anna Magnani entra na rústica trattoria onde se celebra um casamento (o casamento do seu chulo) trazendo consigo uma ninhada de leitões. Os convidados estão bem arrumados e vestidos com as roupas que se usam na cidade modernizada, mas tudo neles denota uma selvajaria, uma brutalidade que parece fascinar o realizador.
Tanto Accattone como Mamma Roma capturam algo da natureza profunda da identidade italiana, que desde o seu declínio pós-renascentista foi conquistada e saqueada pelas potências ocupantes da época, afundando-se finalmente na servilidade e na miséria, a tal ponto que alguns contemporâneos retratavam o povo com uma frase bem conhecida: «França ou Espanha, desde que comamos».
Quase parece — como no inquietante romance de Curzio Malaparte, A Pele — que a Itália poderia ser descrita como um país de chulos. Há algo de verdadeiro nessa descrição. A era Berlusconi, a proliferação da vulgaridade na televisão, acentuou esse lado um tanto sórdido do nacional-popular. Mas o que nunca fica totalmente claro é se essa mistura de brutalidade, servilismo e miséria fascina ou repugna Pasolini.
No entanto, podemos tirar uma conclusão: já sabemos que, na era moderna, a Itália muitas vezes antecipou os horrores que estavam por vir. Benito Mussolini antecipou Adolf Hitler em uma década e Francisco Franco em duas. Da mesma forma, Silvio Berlusconi antecipou a ascensão de Donald Trump.
O que Pasolini previu em Saló, ou os 120 dias de Sodoma, é uma certa tendência do futuro poder para construir uma rede de proxenetismo generalizado. Muito antes da ilha de Saint James, onde Epstein e Maxwell colocavam jovens à disposição dos privilegiados da política e das finanças, em Arcore uma densa rede de chulos proporcionava companhia ao Padrinho Priapico Senescente (PPS).
Quando vi Salò pela primeira vez, pensei que era uma obra surrealista brilhante, completamente desprovida de qualquer ligação com a realidade. Também nessa altura me enganei: Salò prenunciou a mutação coprófila, coprófaga e coprolálica de um sistema perverso que substitui o consenso e a cultura pela violência e o engano.
Houve um tempo em que me incomodava uma certa falta de ironia e um certo moralismo na obra de Pier Paolo Pasolini. Mas agora vejo-me obrigado, embora com relutância, a reconhecer que a ironia e o realismo desencantados da tendência que caracterizou o nosso marxismo operaista careciam da capacidade de prever a vertigem mefistofélica em que o capitalismo mergulhou o mundo.
Franco "Bifo" Berardi é filósofo, escritor e ativista. Nos anos 1970 foi uma das figuras centrais do movimento Autonomia Operaia. Professor de História Social dos Meios de Comunicação na Accademia di Brera, em Milão.Este artigo foi publicado originalmente em italiano em Il Disertore, o boletim informativo de Franco Berardi. Republicado por CTXT.