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“A Peste” em tempos de pandemia

"Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas", escreveu Albert Camus em “A Peste”, o livro que regressou ao top de vendas em todo o mundo.
Patrick Marioné/Flickr

Hoje o mundo vê-se ao espelho na cidade de Oran, na Argélia dos anos 40 do século XX, uma cidade fechada pela doença, pela morte. Também em Oran foi declarado o estado de peste e a cidade foi encerrada perante a subida do número de vítimas. Também os habitantes de Oran ficaram privados das suas rotinas e de vários dos seus prazeres. Estas similitudes entre a ficção, e o facto da leitura ser um dos prazeres que nos sobra nestes tempos, têm certamente contribuído para um aumento exponencial das vendas de “A Peste” de Albert Camus.

Desde o mês de Janeiro que as vendas do livro de Camus não param de crescer. A editora francesa Gallimard, decidiu fazer uma reimpressão de 5.000 exemplares. Também a editora inglesa Penguin decidiu fazer uma reimpressão. Em Itália as vendas triplicaram. O livro que ocupava 71º lugar do ranking de vendas em Itália, IBS, atingiu já a 3ª posição.

“A Peste” está longe de ser um livro animador, sobretudo para quem encontra nas suas páginas paralelos constantes com a sua realidade diária, e com isso determina necessariamente uma reflexão sobre o modelo de sociedade e sobre a desinformação que tem abundado por estes dias.

Alain Botton, escritor e filósofo, escreveu recentemente num artigo de opinião para o The New York Times, que “Camus não escreveu sobre uma peste em particular, nem este [livro] pode ser reduzido, como às vezes foi sugerido, a um conto metafórico sobre a ocupação nazi da França.  Ele foi atraído para o tema porque acreditava que os incidentes históricos reais a que chamamos pragas são meramente concentrações de uma pré-condição universal, exemplos dramáticos de uma regra perpétua: a de que todos os seres humanos são susceptíveis serem exterminados de forma aleatória a qualquer momento, por um vírus, um acidente ou pelas ações de um semelhante.”

Mais do que uma obra de ficção, “A Peste” é uma obra filosófica que reflete sobre a liberdade, o temor, o amor e o exílio. Aqui não há heroísmo, há solidariedade, porque só resta aos homens a possibilidade de se salvarem uns aos outros.

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