O SOS Racismo interpelou esta quarta-feira o primeiro-ministro na sequência da sua entrevista ao Público em que tinha referido a existência de “uma fratura perigosa” que colocaria de um lado o que seria um processo de “revisão auto-flageladora da nossa História” e, do outro, “reações racistas e xenófobas”. Na mesma entrevista, “contrasta um ativista antirracista e um dos principais protagonistas da extrema-direita, tratando-os como proporcionais” o que corresponderia a dois extremos que “auto-alimentam-se”.
A organização anti-racista critica esta redução da luta anti-racista e das suas reivindicações, acusando António Costa de subestimar e desvalorizar “a ameaça do crescimento dos ideários do nacionalismo colonial, sugerindo ainda que o anti-racismo pode ser responsável por gerar racismo e xenofobia”.
O movimento acredita ainda que “as afirmações do primeiro-ministro colaboraram para os fantasmas e divisões que têm desviado a atenção do essencial e alimentado a antagonia para com o movimento anti-racista”. A mensagem de Costa parece “reafirmar a necessidade de manter defendida a identidade nacional, com base numa imagem impoluta do colonialismo português, mesmo que tal implique fabricar ou amputar a história”.
O movimento questiona o chefe de governo sobre vários temas: o papel que atribui “à necessidade de proteger as vítimas do colonialismo da revitimação a que o esquecimento, o desmentido e a fabricação lusotropical as sujeita; “o seu comprometimento para com a desconstrução dos imaginários que continuam a criminalizá-los e a inferiorizá-los”; “quão empenhado está em conhecer o racismo” e “de o reconhecer como estrutural”;
O SOS Racismo termina o seu comunicado sublinhando que António Costa “comparou a luta por uma sociedade sem obstáculos, pela defesa dos direitos de todas e todos, incluindo pelos direitos à memória passada e futura, à dignidade e à cidadania plena, ao ultra-reacionarismo e ao fascismo”. Considera-se “o simbolismo de considerar que um negro antirracista está no mesmo plano moral e de validade política que o racismo e o fascismo” como “fortíssimo e muito preocupante”, pelo que se confessa “perplexidade e deceção” para com as declarações de um primeiro-ministro que “não foi capaz de se pronunciar sobre as ameaças e os sistemáticos ataques racistas de que é alvo um cidadão nacional, falhando assim a sua responsabilidade de estado na defesa de todos os cidadãos, independentemente dos seus posicionamentos políticos”.