Ninguém sabe quem foram os escritores das “1001 Noites”. Os manuscritos mais antigos com alguns dos seus contos são anónimos e do século XII, provavelmente de origem síria, com influências da Índia e do Egipto. Como nos casos de outros textos (a Bíblia hebraica, por exemplo), trata-se de uma compilação de lendas e fantasias que terão sido transmitidas oralmente e transformadas ao longo de séculos. Essas recolhas foram reproduzidas em diversas partes do Oriente e, descobertas por Antoine Galland, um arabista francês, traduzidas para o francês a partir de 1704 (e muito depois para o inglês, em circunstâncias que se verão). O livro, que tinha menos de trezentas histórias, foi sendo acrescentado para completar o número mágico, juntando outras lendas, aliás as que viriam a ser mais famosas (Alibaba e Simbad, por exemplo). A partir de então, as “1001 Noites” passaram a ser o símbolo do orientalismo no ocidente (alguns dos primeiros filmes foram sobre estes contos).
O orientalismo foi, para a Europa dos séculos XVIII e XIX, uma tripla aventura: a disputa do domínio imperial, a das viagens maravilhosas e, ainda, a descoberta de uma sexualidade libertada dos padrões do puritanismo católico e protestante. O paradoxo do orientalismo é que é um discurso de supremacia sobre uma cultura que é apresentada como a liberdade mais desejável. A forma como os textos foram sendo revistos ou censurados nas sucessivas traduções é uma demonstração notável desse paradoxo e da tripla leitura – e disso se ocupará esta conversa.