Pena de morte, crime contra a Humanidade

10 de outubro 2010 - 14:22

10 de Outubro, é o dia mundial contra a pena de morte. Nenhum dos quase 60 países e territórios onde ainda se pratica esta punição selvagem escolherá a data para anunciar ao mundo a sua abolição. Este domingo haverá uma acção de protesto em Lisboa.

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Lisboa junta associações, activistas e cidadãos contra a pena de morte, este domingo, às 17h30, no Largo de Camões.

Também não há ainda dados seguros sobre quantos serão os condenados que viverão neste dia os seus últimos minutos. Existe a certeza, porém, de que milhares de pessoas sofrem a agonia de contar os dias de vida que lhes restam em ultrajantes corredores da morte.

São 58 os países ou territórios onde ainda se pratica a pena de morte. Entre eles estão as duas maiores economias do mundo, os Estados Unidos e a China – prova de que a energia produtiva de bens não está directamente ligada ao respeito absoluto pela vida humana, e pode até ser, no limite, inversamente proporcional.

Entre os países que mais vezes recorreram à execução da sentença máxima durante o ano de 2009 – 18 ao todo - há ainda mais dois aliados do chamado “mundo ocidental”: o “novo” Iraque e a Arábia Saudita. A China e o Irão estão também neste grupo. Em 2009 foram executadas 714 pessoas em todo o mundo.

Entre os métodos utilizados para retirar a vida a estas pessoas condenadas há os que são considerados apropriados para evitar o sofrimento – por isso “mais humanos”- como a injecção letal, considerada um progresso em relação à cadeira eléctrica e à câmara de gás; e há os verdadeiramente “bárbaros” como a lapidação (que o Irão promete abolir e substituir pelo enforcamento) e a decapitação; sem esquecer o fuzilamento, em alguns casos com a peculiaridade de as balas serem debitadas pelo Estado à família do sentenciado, como acontece na China.

Há também as “execuções informais”, que não figuram nas estatísticas e quase sempre são justificadas por razões “de segurança” e/ou “legítima defesa”, como por exemplo actua Israel em relação aos palestinianos vítimas de “liquidação selectiva”.

A Europa, enquanto continente, tinha dado uma lição ao mundo durante o ano de 2009, durante o qual não se registou qualquer execução. A Bielorússia alterou este cenário positivo e em 2010 já assassinou duas pessoas.

Na quinta-feira, dia 7, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução na qual condena mais uma vez a pena de morte e apela a uma moratória incondicional sobre as execuções pendentes.

Dificilmente o apelo será ouvido: só em 2009 foram condenadas à morte 2001 pessoas em 56 países. Nem mesmo o grande aliado da União Europeia, os Estados Unidos da América, se deixará emocionar pelo apelo. Em 2009 assassinou legalmente 52 pessoas enquanto condenou mais 106 à pena máxima – que ainda está em vigor em 35 Estados.

O dia mundial contra a pena de morte, que se assinala este ano pela oitava vez, é precisamente dedicado à situação nos Estados Unidos da América, onde o governo e o exército conservam o direito de aplicação da pena máxima.

O Texas é o Estado que mais vezes aplica a pena – fê-lo contra 24 pessoas em 2009.

Nos Estados Unidos, a pena de morte tem sido aplicada a cidadãos que sofrem de doenças mentais comprovadas, como foi o caso recente de Teresa Lewis, a primeira mulher executada no país nos últimos cinco anos e também a primeira mulher a sofrer a pena máxima no Estado da Virgínia desde 1912.

O sistema judicial dos Estados Unidos não permite a execução de menores; aguarda que os condenados atinjam a maioridade vivendo nos corredores da morte e depois consuma a sentença.

Mumia Abu-Jamal, escritor afro-americano, é actualmente o caso mais flagrante das deficiências de funcionamento do sistema judicial norte-americano. Há 30 anos que sofre a tortura dos corredores da morte na sequência de um julgamento repleto de erros comprovados e caracterizado por uma abordagem racista.

Soren Sondergaard, eurodeputada sueca do grupo da Esquerda Unitária, GUE/NGL, sublinhou durante o debate sobre a pena de morte realizado no Parlamento Europeu que não pode haver “dois pesos e duas medidas” perante esta prática que considera “crime” e por isso apelo à Alta Representante Ashton para intervir junto da Administração Obama sobre o caso de Abu-Jamal.

“A pena de morte é um crime em si mesma”, afirmou Sondergaard. “Mas é muito mais do que isso; esperar num corredor da morte durante anos e em condições miseráveis é tortura. A punição capital é também uma forma de terror, usada para aterrorizar as pessoas que lutam contra a opressão e a ditadura”.

A deputada do GUE/NGL deplorou igualmente que a pena de morte seja aplicada a pessoas que não têm condições para se defender, seja por razões económicas, seja por razões culturais, linguísticas ou do funcionamento arbitrário do próprio sistema judicial.

Mumia Abu-Jamal, afirmou Soren Sondergaard, “é uma voz dos que não têm voz, é um símbolo da luta contra a pena de morte”. Por isso, acrescentou, a Alta Representante Ashton deve levantar o caso junto das autoridades norte-americanas porque na luta contra a pena de morte não há lugar para dois pesos e duas medidas. Na luta contra a pena de morte só existe uma opção: rejeição incondicional”.

Selecção de artigos, iniciativas e documentos sobre a pena de morte:

http://www.amnestyusa.org/abolish/factsheets/DeathPenaltyFacts.pdf 

http://www.deathpenaltyinfo.org/documents/FactSheet.pdf 

http://www.worldcoalition.org/modules/smartsection/item.php?itemid=450 

http://www.kipa-apic.ch/index.php?pw=&na=0,0,0,0,f&ki=212742

http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?pubRef=-//EP//TEXT+MOTION+B7-2010-0545+0+DOC+XML+V0//PT

http://ipsnews.net/news.asp?idnews=53096

http://www.elpais.com/articulo/internacional/Sakineh/chivo/expiatorio/partidarios/lapidacion/Iran/elpepiint/20101007elpepiint_3/Tes

http://www.amnesty.org/en/news-and-updates/guatemalan-president-move-veto-death-penalty-legislation-welcomed-2010-10-08

http://taedp-film2010.blogspot.com/

http://french.peopledaily.com.cn/International/7158360.html 

Artigo de Helena de Carvalho, José Goulão/Redacção de The Week, publicado no site do Grupo Parlamentar Europeu do Bloco de Esquerda.