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Pegasus: Ruanda utilizou software contra mais de 3.500 ativistas, jornalistas e figuras políticas

O presidente da África do Sul e a filha de Paul Rusesabagina estão entre os alvos. Joseph Hanlon alerta que a entrada da tropa ruandesa em Cabo Delgado, Moçambique, faz parte de “um pacote que inclui espionagem e ataques a oponentes do presidente ruandês Paul Kagame”.
Emmanuel Macron e o presidente do Ruanda, Paul Kagame, durante uma visita do presidente francês a Ruanda no mês de maio. Foto de EPA/LUDOVIC MARIN / POOL MAXPPP OUT, LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Provas reveladas pela Amnistia Internacional e pelo consórcio jornalístico Forbidden Stories mostram que as autoridades do Ruanda utilizaram o software Pegasus do israelita NSO Group contra mais de 3.500 ativistas, jornalistas e figuras políticas. O Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, terá sido um dos visados.

De acordo com o Deutsche Welle (DW), na origem da espionagem a Ramaphosa estariam as tensas relações diplomáticas entre os dois países a partir de janeiro de 2014, altura em que Patrick Karegeya, antigo chefe dos serviços secretos do Ruanda e crítico do Presidente Paul Kagame, refugiado na África do Sul, foi encontrado estrangulado no quarto de hotel de Joanesburgo.

Outros opositores do regime de Kigali refugiadas na África do Sul também terão sido alvo de abate nos anos seguintes. O Ruanda exortou Pretória a expulsar as "personas no gratas” de Kagame, contudo, as autoridades sul-africanas mantiveram-se irredutíveis.

Kigali repudia as acusações de espionagem contra o presidente da África do Sul, alegando tratar-se de “uma campanha em curso para causar tensões entre o Ruanda e outros países e para semear desinformação sobre o Ruanda a nível interno e internacional".

A par de Cyril Ramaphosa, a investigação revela ainda que este software também foi utilizado para espiar Carine Kanimba, filha de Paul Rusesabagina. Rusesabagina é conhecido por ter salvo mais de mil ruandeses durante o genocídio do país em 1994, abrigando-os no hotel que geria. O homem de 67 anos, que serviu de inspiração para o filme “Hotel Ruanda”, encontra-se preso em Kigali, acusado de terrorismo. Citada pela CNN, Kanimba afirmou recear que a estratégia legal para garantir a libertação do seu pai possa já ser conhecida pelo governo de Ruanda.

Pegasus é “utilizado para exercer repressão à escala mundial: as provas são irrefutáveis”

A secretária geral de Amnistia Internacional, Agnès Callamard, declarou que o “NSO Group não pode continuar a garantir que os seus produtos só são utilizados contra delinquentes quando mais de 3.500 ativistas, jornalistas, opositores políticos, políticos estrangeiros e diplomatas têm sido selecionados” como alvos. “A empresa não pode continuar a escudar-se nas suas afirmações quando não há dúvida de que o seu software espião é utilizado para exercer repressão à escala mundial: as provas são irrefutáveis”, frisou.

Agnès Callamard defendeu que o “NSO Group deve deixar imediatamente de vender o seu material a países que têm um historial de submeter à vigilância defensores e defensoras dos direitos humanos e jornalistas”. “A indústria da vigilância está fora de controlo. Os Estados devem suspender em todo mundo a venda, transferência e uso de tecnologia de vigilância até que se estabeleça um marco regulador que respeite os direitos humanos”, continuou.

Joseph Hanlon: Tropas ruandesas em Cabo Delgado fazem parte de pacote de espionagem

As tropas ruandesas já operam no território de Cabo Delgado. De acordo com a Carta de Moçambique, a Força de Defesa de Ruanda (RDF) estabeleceu base em Afungi, no acampamento da gigante da energia grancesa Total. Algumas forças ruandesas fixaram-se ainda na cidade de Nangade, no distrito de Nangade, a oeste de Palma.

A tropa ruandesa é liderada pelo Major General Innocent Kabandana, conhecido por “exterminar opositores de Kagame”. “Informações avançadas à ‘Carta’ indicam que Innocent Kabandana já esteve nos Estados Unidos da América (EUA), Canadá, República Democrática do Congo, Burundi e alguns países de África em missões de ‘extermínio’ de opositores do presidente ruandês", lê-se na publicação.

O jornalista e investigador Joseph Hanlon faz também referência ao jornal ruandês Jambo News que informa que, na década de 1990, Kabandana foi responsável pelo assassinato de três bispos e nove padres na República Democrática do Congo e no Burundi. Dois dissidentes ruandeses foram assassinados em Moçambique e outros na África do Sul.

O editor do boletim informativo Mozambique News Reports and Clippings, que foi repórter da BBC em Moçambique entre 1979 e 1985 e continua a escrever sobre o país, afirma que “parece que a entrega a Ruanda, em maio, do jornalista refugiado dissidente Ntamuhanga Cassien foi uma condição para o envio de tropas ruandesas”.

Segundo a Associação dos Ruandeses Refugiados em Moçambique, Cassien foi levado "por oito indivíduos desconhecidos que se apresentaram como agentes da Polícia da República de Moçambique (PRM)", num grupo que incluía outro cidadão do Ruanda "que se expressava na mesma língua local do visado". O jornalista ruandês foi diretor da rádio cristã Amazing Grace, em Kigali. Em 2017 fugiu da prisão no Ruanda, após ter sido condenado em 2015 a uma pena de 25 anos de prisão por conspiração contra o Estado, cumplicidade com terrorismo e homicídio. A sentença foi amplamente contestada por organizações de defesa dos direitos humanos.

Citando também a investigação da Amnistia Internacional e do consórcio jornalístico Forbidden Stories sobre o 'software' Pegasus, Joseph Hanlon conclui que “as tropas ruandesas, definitivamente, vêm como parte de um pacote que inclui espionagem e ataques a oponentes do presidente ruandês Paul Kagame”.

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