“Nada pode esconder a dimensão desta greve e a vontade dos trabalhadores de rejeição deste pacote laboral e que está bem patente em todos os setores”, afirmou na manhã de quinta-feira o secretário-geral da VGTP à porta da Escola Marquesa de Alorna, em Lisboa. Tal como as restantes escolas da cidade e a grande maioria no país, ela encerrou na greve geral e foi mais um exemplo do seu “impacto fortíssimo na maior parte da administração pública”.
“Se alguém precisava de ter a verdadeira noção das preocupações dos trabalhadores, ela está dada nesta greve geral”, resumiu Tiago Oliveira, insistindo que os trabalhadores perceberam que o pacote laboral “é um profundo retrocesso nos seus direitos e que não serve a nenhum trabalhador”.
“Está aqui a resposta dos trabalhadores: retirem o pacote laboral de cima da mesa”, exigiu o líder sindical, acusando o Governo de se ter colocado “numa trincheira desde o primeiro momento. Quando disse que nunca iria mexer nas traves mestras da proposta, a partir daí ficou bem patente a dimensão do ataque que estava em curso, respondendo aos interesses das grandes empresas”, recordou.
Críticas semelhantes tinham sido feitas pelo líder da UGT ao início da manhã na RTP, com Mário Mourão a acusar o Governo de condicionar a negociação e a não excluir a possibilidade de uma nova greve geral caso o Governo insista na atual proposta.
José Manuel Pureza: “Este é um grito de revolta e ao mesmo tempo de esperança de que é possível alterar esta situação”
Também na Escola Marquesa de Alorna, o coordenador do Bloco de Esquerda esteve com o piquete de greve e saudou a grande dimensão da paralisação “em todos os setores e em todo o país”.
“As pessoas perceberam que o que está em causa é um ataque sem precedentes aos direitos de quem trabalha, e que atacando o trabalho atacam a vida quotidiana das pessoas: precariedde eternizada para quem entra no mercado de trabalho, horas extraordinárias que passam a ser pagas com cortes, pais e mães que ficam com os seus direitos limitados. É uma agressão que quer ter efeitos no estragar das vidas”, afirmou José Manuel Pureza aos jornalistas.
Greve geral
Pureza acredita em forte adesão à greve para travar “agressão ao mundo do trabalho”
Para o coordenador do Bloco, esta greve “é um grito de revolta e ao mesmo tempo de esperança de que é possível alterar esta situação e termos regras no trabalho compatíveis com uma vida digna de toda a gente”. Pureza devolveu as críticas feitas por Luís Montenegro, afirmando que “quem esta a fazer um jogo político evidente é o Governo. Não há nenhuma razão do ponto de vista racional para esta reforma”, que traduz apenas um “puro preconceito ideológico”.
José Manuel Pureza começou a acompanhar a greve geral na noite de quarta-feira com o piquete de greve na Autoeuropa, onde a adesão obrigou ao encerramento da produção.
Começou a Greve Geral! Nos primeiros piquetes, na Autoeuropa como em todos os cantos do país, juntam-se já milhares de trabalhadores que prescindem de um dia do seu salário para defender o salário de toda a gente. pic.twitter.com/n2Kju96ZRp
— Bloco de Esquerda (@BlocoDeEsquerda) December 11, 2025
Médicos, professores e pilotos da aviação exigem retirada do pacote laboral
Ao início da manhã vários dirigentes sindicais falaram aos jornalistas já com a noção que os níveis de adesão à greve geral eram muito elevados. Pela Federação Nacional dos Médicos, Joana Bordalo e Sá assegurou a população que os serviços mínimos estão a ser cumpridos, mas que as consultas e cirurgias programadas para hoje serão adiadas. A sindicalista afirma que este pacote laboral vai afetar também os médicos, introduzindo vínculos mais precários e um banco de horas que os médicos sempre recusaram. E considera que Luís Montenegro não tem outra solução a não ser retirar a proposta, “a não ser que queira agravar as condições de trabalho dos médicos e dos profissionais do SNS”.
“Saem 4 médicos por dia do SNS, temos 15% da população sem médicos de família, tempos de espera nas urgências superiores a 17 horas, as grávidas a terem os bebés nas ambulâncias, já vamos com 174 partos em ambulâncias desde o início do ano. Toda a intransigência do Governo na forma de negociar com os médicos não tem trazido mais médicos para o SNS, antes pelo contrário. O SNS está mais fragilizado e só há um responsável, que é o Governo e Montenegro”, resumiu a líder da FNAM.
Numa escola do Porto também encerrada, Francisco Gonçalves, secretário-geram da Fenprof, falou das razões dos professores para se oporem ao pacote laboral, pois “não há condições para termos um Estatuto da Carreira Docente decente se as condições gerais das leis do trabalho forem más”.
“Os trabalhadores docentes e não docentes pereberam o que está em cima da mesa”, como prova a adesão à greve geral. O sindicalista espera que o Governo saiba tirar ilações, “e em função da atitude do Governo teremos de ajustar para o futuro as formas de luta mais pertinentes”.
Na aviação também foram cumpridos os serviços mínimos, com a reaização de 63 dos 238 voos previstos pelo grupo TAP. Helder Santinhos, presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação, disse à RTP que para esta profissão o pacote laboral é sobretudo nocivo por alterar da sobrevigencia das convenções coletiva. “A nossa atitude é de solidariedade com os setores mais vulneráveis, achamos que ninguém devia ficar indiferente” a este ataque aos trabalhadores. A propósito das sondagens que mostram a oposição da grande maioria da população ao pacote laboral, o sindicalista diz que “o Governo pode ignorar a realidade mas não vai conseguir evitar as consequências dessa realidade”. E se houver uma insistência de levar estas leis para a frente, “o sindicato não vai ficar indiferente”, promete.