1 O debate aceso entre os partidos da Esquerda Europeia aconteceu à volta da guerra da Ucrânia. A exigência de um cessar-fogo não pode estar desligada de uma retirada das tropas russas no território invadido a 24/2 e articula-se com negociações políticas para obter e consolidar esses passos, abrir o apoio humanitário e encontrar uma via para um acordo de paz. Não é possível segmentar estes três elementos, ou atribuir-lhes uma ordem sequencial em função de quaisquer lógicas sobre um processo que está em curso, sobre um tempo e um modo que não conhecemos ainda.
Agora o que sabemos:
Cessar-fogo sem a previsão da retirada do invasor soa a capitulação e entrega de parte da Ucrânia. O crime compensaria. Retirada das tropas russas sem proposta de cessar-fogo confunde-se com a posição do imperialismo, reunido na NATO, e soa a escalada de guerra para enfraquecer a Rússia no xadrez das Potências. A NATO, organização agressiva do capitalismo dominante, ganharia a parada sob os escombros dos povos. A negociação política deveria ser intermediada pelas Nações Unidas e recuperar todo o património da Carta das Nações, designadamente o respeito pela soberania dos Estados e o princípio da autodeterminação nacional, segundo consulta popular legítima, se for esse o caso do Donbass e da querela da reunificação russa. Todos os documentos internacionais que o Bloco subscreveu estão nesta linha. Felizmente, o acordo dos partidos-membros foi possível, representando um salto em frente para todos.
2 A condenação de Putin e da aventura imperialista da Rússia não pode distrair-nos do perigo da expansão da NATO. Mas a expansão da NATO não explica absolutamente nada da invasão russa e, em qualquer caso, não se pode atribuir à Federação Russa um estatuto de soberania limitada sobre os seus vizinhos como no tempo de Brejnev. Aliás, como os EUA não podem reclamar essa soberania sobre os seus vizinhos também, fazem-no mas não devem face ao direito internacional.
A esquerda europeia condenou claramente a invasão russa e considerou que essa invasão é qualitativamente diferente dos conflitos que surgiram na Ucrânia em 2014. Tão potencialmente diferente porquanto se trata de uma ação imperialista russa de larga escala e o pretexto para uma escalada geopolítica global com ameaça de uso dos arsenais nucleares. Não deu assim razão àqueles que acham que 24/02 foi um mero agravamento do conflito que não foi resolvido pelos acordos de Minsk, ou justificam a guerra com a teoria de libertação dos russos do “nazismo” na Ucrânia, da autoria de Putin e seus generais.
Congressistas mostram o lema do encontro: Paz, Pão e Rosas
3 As propostas sobre as transformações sócio-ecológicas são partilhadas como uma urgência planetária, uma necessidade histórica e uma transição. A transição não é meramente tecnológica, nem apenas de reorganização da produção e do consumo, a transição precisa de maiorias políticas para ser justa e socializar a propriedade dos bens comuns, com destaque para a energia.
4 A avançada da extrema-direita e o seu cortejo populista, negacionista e racista provoca inquietação na continuidade de estados de democracia constitucional. Teme-se pelos direitos individuais e sindicais, pelos direitos sociais e pela paz. Todos os partidos incitam, mais do que propõem, a frentes democráticas antifascistas. Há, contudo, muitos graus diferentes de apreciação do papel dos liberais nesse contexto, com muitos partidos a indicar que uma direção liberal dessa luta longa está votada ao fracasso, posição partilhada pelo Bloco. Podemos dizer que essas foram as lições que nos chegaram de França das campanhas lideradas por Jean-Luc Mélenchon.
Walter Baier, novo presidente da Esquerda Europeia.
5 O discurso final de Walter Baier, novo presidente da Esquerda Europeia, no fecho do congresso de quatro dias em Viena, foi bastante afirmativo sobre a alternativa de uma esquerda verde e vermelha, deixando de lado a sugestão do Syriza para uma frente com o PS Europa e com os Verdes Europeus para as próximas eleições europeias de 2024. A ação política reclama convergências contra a extrema-direita mas não se pode fazê-la à custa da afirmação própria da Esquerda! O Bloco de Esquerda ficou representado no secretariado e comissão executiva da Esquerda Europeia.
Congressistas mostram o lema do encontro: Paz, Pão e Rosas
Walter Baier, novo presidente da Esquerda Europeia.