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Os artigos do investigador inexistente

Em França, Camille Noûs assinou recentemente 180 artigos em conhecidas revistas científicas. Só que não existe. É uma forma de protesto contra a avaliação da investigação através do número de publicações. Por Patrizia Caraveo.
Gato ao computador. Foto de Steve/Flick.
Gato ao computador. Foto de Steve/Flick.

Frequentemente, entre colegas que trabalham em grupos grandes ou pequenos de investigação, discute-se sobre quem é elegível para assinar um determinado artigo. Estar na lista de autores de um trabalho de destaque pode fazer a diferença na carreira das pessoas. Porém, nos últimos meses, em França, algo muito estranho tem acontecido, com o surgimento de um autor verdadeiramente peculiar, dotado de extraordinária produtividade, mas sem qualquer realidade.

Quando o gato assina o artigo

Atribuir um artigo também a um autor fictício não é uma ideia original. Exemplos não faltam na história da ciência, mas são todos casos únicos de natureza jocosa; enquanto hoje, pela primeira vez, nos deparamos com um fenómeno repetitivo que vê um autor inexistente produzir muito e receber centenas de citações.

Vamos começar por contar as brincadeiras que ficaram na história, a começar pela desventura de Ralph Alpher, aluno de doutoramento de George Gamow, que em 1948 queria publicar, junto com o seu professor, a teoria que tinham desenvolvido sobre a criação dos elementos nos primeiros estados de explosão do Universo. George Gamow, um físico russo que emigrou para os EUA, tinha grandes expectativas para este trabalho (que mais tarde se revelou apenas parcialmente correto) e, insatisfeito por entrar para a história por um artigo assinado por Alpher & Gamow, decidiu incluir seu amigo Bethe e ter os autores na sequência α, β, γ. Uma decisão que não desagradou a Bethe, mas enfureceu Alpher que temia não ver a sua contribuição reconhecida na companhia de dois personagens tão importantes.

Ainda mais insólito é o motivo que levou o físico Jack Hetherington a decidir que o seu gato Chester se tornaria o coautor do seu importante artigo. A história conta que Hetherington estava pronto para enviar o seu artigo para a prestigiante Physical Review Letters. Apesar de ser o único autor, usou a primeira pessoa do plural no texto do artigo: nós pensamos, nós calculamos. Um amigo comentou que a revista não iria gostar. Estávamos em 1975 e mudar "nós" para "eu" significaria datilografar novamente todo o artigo. Para resolver o problema, Hetherington acrescentou um segundo autor, F.D.C. (Felix Domesticus Chester) Willard, que era o nome do pai de Chester. Ele não queria que os seus amigos percebessem o estratagema.

O estranho caso de Camille Noûs

Depois desses dois exemplos do peculiar sentido de humor dos físicos, chegamos à situação atual, com a ascensão meteórica de Camille Noûs que, no último ano, aparece na lista dos autores de 180 artigos, variando da astrofísica à biologia molecular e à ecologia. Quanto à astrofísica, eu verifiquei: em 2021, aparece em 23 pré-publicações regularmente arquivadas. Um fenómeno? Não, uma invenção da associação RogueESR para protestar contra a política de investigação do governo francês. ESR significa Enseignement supérieur et la recherche, enquanto rogue significa rebelião.

Como parte de uma das ações de protesto, RogueESR criou Camille Noûs com um nome próprio que é tanto masculino como feminino em francês e um sobrenome que é uma elaboração do pronome nós. A sua filiação, além disso, é uma garantia: Lab Cogitamus (França).

Acrescentar Camille Noûs à lista de autores de um artigo significa protestar contra a ideia de que os cientistas, para fazer carreira, precisam escrever muitos artigos que depois recebem muitas citações, demonstrando que esse objetivo pode ser alcançado mesmo por alguém que não existe com uma filiação de fantasia. Certamente é uma ideia interessante para iniciar uma discussão sobre o valor das listas de autores e sobre o grau de responsabilidade que cada um deles deve compartilhar, mas é uma operação que abre questões de ética profissional e respeito para com as revistas científicas.

Enquanto os coautores dos artigos deveriam ter sido informados (e presume-se que tenham estado de acordo, embora numa busca rápida encontrei logo um colega que caiu das nuvens), o mesmo não pode ser dito para os editores das revistas que publicaram os trabalhos do autor inexistente, que agora se veem obrigados a retificar a lista de autores, excluindo Camille Noûs. Consequências reais de uma entidade imaginária.


Patrizia Caraveo é astrofísica, diretora do Instituto de Física Cósmica da Universidade de Milão.

Artigo publicado originalmente na Scienza in rete, reproduzido por Settimana News, e traduzido por Luisa Rabolini para o Instituto Humanitas da Unisinos. Adaptado pelo Esquerda.net para português de Portugal.

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