Os 66 anos de Hiroshima

06 de agosto 2011 - 17:18

Matashichi Oishi, vítima da radiação emanada de um teste nuclear realizado pelos Estados Unidos no atol de Bikini, em 1954, visitará Hiroshima este sábado, em recordação à bomba atómica que explodiu há 66 anos nessa cidade japonesa. Por Suvendrini Kakuchi, da IPS.

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Foto TOMOYUKI KAYA, EPA/Lusa.

O ex-marinheiro de 78 anos, que sofre de cancro no pulmão pela exposição a altos níveis da radiação emitida pela explosão de uma bomba de hidrogénio, disse que este ano a sua mensagem em Hiroshima excederá o usual pedido para erradicar as armas nucleares.

“Após o desastroso acidente na usina nuclear de Fukushima, mencionarei a necessidade de o Japão proibir as armas atómicas, mas que também ponha fim à sua dependência da energia nuclear”, disse Oishi à IPS. Este argumento ganhou força após o terramoto e posterior tsunami que atingiu a região de Fukushima e a costa nordeste do Japão, em 11 de Março, afectando seriamente a central ali localizada.

Hiroshima foi a primeira cidade do mundo a sofrer os efeitos de uma bomba atómica, lançada pelos Estados Unidos em 6 de Agosto de 1945, matando quase toda a população. O aniversário do bombardeio sobre Hiroshima e Nagasaki, devastada da mesma maneira três dias depois, se converteu em um forte símbolo da paz mundial. As duas cidades encabeçam o movimento de desarmamento nuclear.

Como Oishi, milhares de activistas pela paz, funcionários e dirigentes políticos que se reunirão em Hiroshima para expressar seu compromisso com um mundo sem armas nucleares, também pedirão a proibição da energia nuclear. Um comunicado entregue à imprensa pelo prefeito dessa cidade, Kazumi Matsui, e seu colega de Nagasaki, Tomihisa Taue, deixaram clara a agenda.

Rascunhos dos discursos publicados pela imprensa mencionam a catástrofe que sofre a população de Fukushima, e pedem ao governo que promova fontes de energia renováveis. “O governo central deve assumir a responsabilidade de atender a questão da geração de energia nuclear”, afirmou Matsui.

De facto, Oishi disse que conseguir essa proibição foi o seu único pedido nas últimas seis décadas. Tinha 19 anos e navegava num barco de pesca de atum quando os Estados Unidos realizaram o teste que irradiou sobre a tripulação e obrigou a uma evacuação em massa dos habitantes das ilhas vizinhas.

O incidente causou um alvoroço no Japão, e, devido à sensibilidade política da época, plena Guerra Fria, com uma corrida armamentista entre a hoje dissolvida União Soviética e os Estados Unidos, Oishi e seus companheiros foram obrigados a abandonar a intenção de levar o caso à justiça. Catorze dos 23 tripulantes japoneses do barco Lucky Dragon desenvolveram cancro e dez deles morreram.

O aniversário de Hiroshima é uma época de solidariedade para Ayako Ooga, obrigada a viver em um abrigo em Aizu, a 150 quilómetros dos afectados reactores de Fukushima, onde residia quando ocorreu o desastre. “Temos que unir forças com outras vítimas como Oishi, porque sofremos a radiação”, afirmou.

O acidente em Fukushima destacou a importância de elevar a consciencialização da população sobre os aspectos negativos da energia nuclear, disse o professor Michiji Konuma, director da organização World Peace Appeal, com sede no Japão. Físico de profissão, Konuma há tempos luta para destacar os riscos que a radiação representa para a saúde. Fukushima foi o quarto desastre nuclear que afectou o Japão, após o de Bikini, Hiroshima e Nagasaki.

“A tragédia humana do desastre, que implicou mortes e doenças, como cancro e outras causadas pela radiação, bem como a grande discriminação sofrida pelos sobreviventes, mostra os problemas ocultos e de longo prazo da energia nuclear”, explicou Konuma. “Devemos recordar a lição deixada por Fukushima e falar dos perigos que enfrentamos mantendo essa fonte de energia”, acrescentou.

Konuma é um dos intelectuais japoneses que mandaram um aviso ao governo, em Julho, para que abandonasse a dependência da energia nuclear. O grupo de especialistas também lidera um movimento para organizar um debate sobre os aspectos de segurança relacionados com a energia nuclear no Japão para que a população compreenda bem o que aconteceu.

“A dificuldade de manter a luta contra essa fonte de energia só pode ser superada se os diferentes actores se unirem, de intelectuais a vítimas da radiação. Não temos de repetir o erro de esquecermos novamente”, acrescentou. “A minha própria história mostra o quanto é solitária a luta no Japão para que as autoridades ouçam as vítimas, que se calam para não sofrer discriminação”, concordou Oishi.

Tóquio, Japão, 5/8/2011

Envolverde/IPS

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