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Operação Tridente

A 15 de janeiro de 1964 tem início a primeira fase da operação Tridente, em que forças portuguesas, comandadas por Fernando Cavaleiro, desembarcam na ilha do Como, no Sul da Guiné. A operação prolonga-se por mais de dois meses. Por Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes no livro Guerra Colonial.
Lanchas de fiscalização "Daneb" e "Canópus" em proteção ao desembarque na ilha de Como. Imagem do livro AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

A operação Tridente foi uma das mais importantes que as forças portuguesas realizaram nos teatros de guerra de África. Em termos conceptuais, tratou-se de uma operação combinada de forças do Exército, Marinha e Força Aérea, que desencadearam uma ofensiva convencional contra um objetivo determinado – a ilha do Como.

Foi a primeira operação com estas características efetuada durante os 13 anos de guerra e tinha como finalidade ocupar as três ilhas que constituem a região do Como: Caiar, Como e Catungo, as quais, desde 1963, estavam controladas pelos guerrilheiros do PAIGC.

A região do Como era considerada importante pelo comando militar português, porque constituía uma base a partir da qual as forças de guerrilha podiam flagelar o território do continente e dificultar a navegação para o sul da Guiné, por ser um ponto de apoio para as suas linhas de reabastecimento e porque lhes fornecia recursos alimentares, nomeadamente arroz e armentio.

A superfície das ilhas é de cerca de 210 quilómetros quadrados, dos quais 170 quilómetros quadrados são de tarrafo, que de 12 em 12 horas, e durante três horas, em virtude das marés, ficam cobertos de água e, na baixa-mar, deixam à vista lodo e lama. No interior, as zonas de mata são densas e de difícil progressão.

As forças portuguesas estimavam em 300 os efetivos dos guerrilheiros, entre os quais referenciavam um grupo de 15 militares da Guiné-Conacri. Estas forças controlavam também a totalidade da população.

Desenrolar da operação

A operação foi dividida em três fases. A primeira iniciou-se em 15 de janeiro de 1964 e consistiu nos desembarques dos agrupamentos, que foram apoiados pela Força Aérea (tendo um avião T-6 sido atingido) e pela artilharia, a partir de uma base de fogos em Catió.

Imagem reproduzida no livro AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

Numa segunda fase, as forças portuguesas efetuaram operações de patrulhamento das ilhas, de 17 a 24 de janeiro.

Na terceira fase, de 24 de janeiro a 24 de março, concentraram-se os esforços na ilha do Como, sendo nesta última que se travaram os recontros mais intensos, mais uma vez com o apoio da artilharia e da Força Aérea. O maior combate desta operação ocorreu na região de Uncomené e na mata de Cachil, das seis às 16 horas, tendo os guerrilheiros sofrido cerca de 40 baixas. Em mensagem atribuída a Nino Vieira, este terá escrito:

Hoje faz 48 dias que os nossos camaradas estão enfrentando corajosamente as forças inimigas. Camaradas, tenham paciência, porque não tenho outra safa senão o vosso auxílio… As tropas estão a aumentar cada vez mais as suas forças...camaradas, não tenho mais nada a dizer-vos, somente posso dizer-vos que de um dia para o outro vamos ficar sem a população e sem os nossos guerrilheiros. Já estamos a contar com as baixas de 23 camaradas… do vosso camarada, Marga-Nino.”

O elevado número de militares portugueses evacuados por doença deve-se à grande dureza das condições de vida a que foram sujeitas as unidades. Além do clima, os soldados alimentaram-se durante 23 dias consecutivos da mesma ementa das rações de combate, à base de conservas, e durante os outros 48 dias tiveram apenas uma refeição normal, quente. A água para beber era de péssima qualidade e não existia para lavagem de roupa ou banhos.

Estas condições são visíveis no relatório do médico de uma das companhias, sobre o estado sanitário das tropas:

“Dos 151 homens que participaram na Operação Tridente, encontram-se em tratamento 132, que dividi em três grupos: primeiro grupo – doentes recuperáveis em três semanas, 63; segundo grupo – doentes recuperáveis em quatro semanas, 46; terceiro grupo – doentes recuperáveis em seis semanas, 23… pelo que fica dito, podemos concluir que o estado dos elementos da companhia é positivamente mau… a meu ver, não é de admirar que se encontrem nesta situação...”

Na guerra de guerrilha a conquista de terreno raramente é definitiva e, menos ainda, decisiva. Depois da reocupação e dos sessenta dias de permanência das forças portuguesas, os guerrilheiros voltaram ao Como e foi necessário realizar novas operações na zona, embora de menor envergadura.

Contudo, a região perdera importância como local de refúgio e apoio para a manobra militar do PAIGC, cujos comandantes ocuparam progressivamente posições mais vantajosas no interior do território, nas penínsulas de Cantanhez e do Quitafine, cercando os aquartelamentos portugueses de Catió e Bedanda.


In AFONSO, Aniceto; GOMES, Carlos de Matos Gomes. Guerra Colonial. Edição: Editorial Notícias, abril de 2000

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