Philippe Lazzarini, o comissário-geral da agência das Nações Unidas para os Refugiados na Palestina (UNRWA), fez na segunda-feira um balanço da situação em Gaza numa comunicação aos membros do Conselho de Segurança da ONU reunidos em Nova Iorque. "Cerca de 70% das pessoas mortas são crianças e mulheres", prosseguiu este responsável, acrescentando os números divulgados pela ONG Save the Children na véspera, apontando cerca de 3.200 crianças mortas em Gaza em apenas três semanas, o que "ultrapassa o número de crianças mortas anualmente nas zonas de conflito em todo o mundo desde 2019".
Esta terça-feira, o porta-voz da UNICEF em Genebra, James Elder, afirmou que "Gaza tornou-se um cemitério de crianças", que estão a morrer não so devido aos bombardeamentos mastambém à falta de material médico. A desidratação infantil é também uma ameaça crescente, com o abastecimento de água reduzido a 5% do fluxo normal. A UNICEF dá ainda conta de 940 crianças dadas como desaparecidas nas últimas semanas.
O líder da UNRWA voltou a apelar ao cessar-fogo humanitário para que entre a ajuda necessária à Faixa de Gaza, incluindo combustível, e que as infraestruturas civis sejam protegidas, como manda a lei humanitária internacional.
"Já o disse várias vezes e torno a repetir: nenhum lugar é seguro em Gaza", afirmou Lazzarini, referindo-se aos bombardeamentos que atingem o norte da Faixa de Gaza, mas também o sul, para onde o governo israelita mandou evacuar a população do norte. Em três semanas, metade da população de Gaza, cerca de um milhão de pessoas, rumou para o sul. "Mas muitos, incluindo mulheres grávidas, pessoas com deficiências, os doentes e os feridos, não conseguem sair", refere o líder da UNRWA, concluindo que "o que aconteceu e continua a acontecer é uma deslocação forçada" da população, que leva neste momento 670 mil pessoas a refugiarem-se em escolas e edifícios da agência completamente sobrelotados.
"Vivem em condições deploráveis e insalubres, com comida e água limitadas, dormindo no chão, sem colchões, ou ao relento, ao ar livre", relatou Lazzarini, antes de deixar o aviso: "A fome e o desespero estão a transformar-se em raiva contra a comunidade internacional e, em Gaza, a comunidade internacional é mais conhecida por UNRWA".
Lazzarini sublinhou os repetidos ataques a igrejas, mesquitas, hospitais, instalações da UNRWA, tudo locais onde as pessoas procuram refúgio das bombas de Israel e que supostamente estão protegidos pela lei internacional. E repetiu que "o atual cerco a Gaza é uma punição coletiva".
Além dos cortes no abastecimento de medicamentos, alimentos, água e combustível, Lazzarini alerta para o grave risco sanitário decorrente dos esgotos que transbordam para as ruas de Gaza e também para as consequências do corte de comunicações no fim de semana, que levou a situações de pânico, com milhares de pessoas a dirigirem-se aos armazéns onde a UNRWA coloca a escassa comida e mantimentos trazida pelos poucos camiões que atravessam a fronteira do Egito.
"Um novo colapso da ordem pública tornará extremamente difícil, se não impossível, que a maior agência da ONU em Gaza continue a funcionar. Tornará também impossível a entrada de camiões. Digo isto tendo plena consciência de que a UNRWA é a última tábua de salvação que resta ao povo palestiniano em Gaza", lamentou o responsável pela agência.
Por fim, deixou palavras de reconhecimento aos 13 mil trabalhadores da agência em Gaza, responsáveis pelo funcionamento dos 150 abrigos, dos centros de saúde que permanecem abertos e das equipas médicas móveis, da receção, armazenamento e distribuição da ajuda humanitária e do pouco combustível que sobra para os hospitais, abrigos e padarias. Os 64 funcionários da UNRWA mortos nas últimas semanas são "o maior número de trabalhadores da ajuda da ONU mortos num conflito em tão pouco tempo".
"Os meus colegas da UNRWA são o único sopro de esperança para toda a Faixa de Gaza, um raio de luz numa altura em que a humanidade se afunda na sua hora mais sombria", prosseguiu Lazzarini, acrescentando que em breve deixarão de trabalhar por falta de meios.