ONG alertam para intensificação do 'ataque militar' contra manifestantes no Irão

12 de outubro 2022 - 10:06

As áreas curdas na parte ocidental do país são os principais alvos da violência do regime iraniano. Apesar da repressão brutal por parte da República Islâmica, os protestos multiplicam-se em vários pontos do país e as jovens iranianas são exemplos impressionantes de coragem.

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Foto publicada pela Radio Free Europe/Radio Liberty.

Alguns vídeos publicados nas redes sociais de protestos na cidade curda de Sanandaj mostram agentes de segurança a atirar diretamente contra manifestantes esta segunda-feira, 10 de outubro.

Neste mesmo dia, a Amnistia Internacional alertou para a repressão das forças de segurança com armas de fogo e gás lacrimogéneo de forma indiscriminada, “inclusive nas casas das pessoas".

Já a Organização de Direitos Humanos Hengaw acrescentou que "Sanandaj esteve sob um ataque militar total da República Islâmica do Irão” e que, ao mesmo tempo, as vias de acesso e a internet foram cortadas.

A ONG referiu ainda que o tratamento dos feridos está a ser condicionado pelas forças de segurança iranianas e que recebeu documentos que “mostram o uso de armas de guerra proibidas".

O órgão das Nações Unidas para a ajuda humanitária e de desenvolvimento para crianças, UNICEF, pediu a proteção de crianças e adolescentes vítimas da repressão da República Islâmica.

Num comunicado divulgado na segunda-feira, a diretora executiva da UNICEF, Catherine Russell, afirmou que o órgão está “extremamente preocupado com os contínuos relatos de crianças e adolescentes que estão a ser mortos, feridos e detidos” no Irão.

A UNICEF considera que a violência contra crianças, por qualquer pessoa e em qualquer contexto, é “indefensável” e pede “a proteção de todas as crianças de todas as formas de violência e danos, inclusive durante conflitos e eventos políticos”.

Catherine Russell referiu que “crianças e adolescentes devem poder exercer os seus direitos de maneira segura e pacífica em todos os momentos”. Das cerca de 200 pessoas que foram mortas em protestos em todo o Irão desde meados de setembro, perto de duas dezenas são crianças.

Os protestos têm continuado um pouco por todo o Irão, inclusive na capital. Vídeos mostram mulheres e meninas a marchar na segunda-feira pelas ruas de Teerão sem hijabs. Os estudantes iranianos da Faculdade de Artes da Universidade Azad da capital participaram num protesto com as palmas das mãos cobertas de tinta vermelha para simbolizar sangue.

Em declarações à National Public Radio, Golnaz Esfandiari, correspondente da Radio Free Europe e da Radio Liberty, falou sobre os protestos do fim de semana, afirmando-se surpresa que estes estejam a acontecer “apesar de uma repressão brutal do Estado”. “Apesar do uso da força, as pessoas ainda estão a tomar as ruas e os protestos espalharam-se para universidades e escolas do ensino secundário”, referiu.

Golnaz Esfandiari, que cresceu no Irão, assinalou a coragem das jovens estudantes iranianas, lembrando o caso das alunas de uma escola que tiraram os seus hijabs, gritaram “morte ao ditador”, e expulsaram um basij, das forças paramilitares, do estabelecimento de ensino.

A jornalista lembrou ainda que, no fim de semana, o presidente iraniano, Ebrahim Raisi, visitou a Universidade Alzahra, só para mulheres. E que foi recebido com canções que diziam que elas não queriam ali um assassino.

Golnaz Esfandiari acredita que, “mesmo que eles consigam acabar com o protesto amanhã”, a “raiva não vai embora”.

"E acho que o uso da força, o uso da força letal está a alimentar mais raiva porque as pessoas não podem ficar indiferentes quando veem que eles estão a matar crianças nas ruas”.

Trabalhadores da indústria petrolífera juntam-se aos protestos

Mais de 1.000 trabalhadores da indústria petrolífera iraniana, um dos setores da economia com mais peso no país, juntaram-se às manifestações. Os protestos abrangem as empresas petroquímicas Bushehr, Damavand e Hengam e as refinarias de petróleo de Abadan e da Kangan Petro Refining Company.

Vídeos mostram os trabalhadores em greve a queimar pneus e a bloquear estradas junto à petroquímica Asalouyeh, no sudoeste. De acordo com a Rafio Farda, podem ouvir-se nas gravações palavras de ordem como "Morte ao ditador" e "Não tenham medo. Estamos todos juntos!".

O Conselho Organizador de Trabalhadores Contratados de Petróleo no Irão afirmou que vários manifestantes foram presos durante uma greve de trabalhadores petroquímicos de Bushehr na cidade de Asaluyeh, no sul do Irão, em 10 de outubro.