Ocidente da Tunísia volta a rebelar-se

18 de fevereiro 2012 - 16:52

A Tunísia é sacudida por protestos laborais apoiados pela União Geral Tunisina do Trabalho (UGTT), com epicentro nas regiões pobres do ocidente do país. Por Jake Lippincott, da IPS

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Trabalhadorees tunisinos em luta. Foto de taimambi

Túnis, Tunísia, – Um mês depois do primeiro aniversário de sua revolução, a Tunísia é sacudida por protestos laborais apoiados pela União Geral Tunisina do Trabalho (UGTT), com epicentro nas regiões pobres do ocidente do país. Historicamente, essa região tem pouco desenvolvimento e é ignorada pelas regiões costeiras dominantes. Esta desigualdade foi uma importante causa de mal-estar social desde, pelo menos, a independência do país, em 1956. A revolução do ano passado começou na cidade de Sidi Bouzid, e muitos acreditam que uma greve organizada em 2008 pela ala insurgente da UGTT, na vizinha Gafsa, foi a precursora dos últimos levantes.

Gafsa e os seus aldeões são conhecidos pela sua riqueza em minas de fosfato. A mineração é extremamente lucrativa, mas quem trabalha no setor e os moradores do lugar veem pouco desse lucro, que historicamente vai para as elites costeiras. A greve de 2008 rapidamente se viu diante da dura e fatal repressão do governo. A população de Gafsa esperava que a revolução do ano passado e as posteriores eleições pusessem fim a décadas de corrupção na região. Mas desiludiram-se.

Na semana passada, duas irmãs, na faixa dos 20 anos, moradoras de Gafsa, Sousou e Asma Didi, falaram com a IPS na área do café do hotel Jugorta, nos arredores da cidade. Apesar do luxuoso projeto do hotel, as suas piscinas e fontes estão secas devido à escassez de água. Sousou nasceu em Gafsa e mudou-se para a capital em busca de trabalho. Sua irmã Asma ainda vive na sua cidade natal. “Não há nenhuma mudança. Tomara que dentro de dez anos vejamos alguma…”, disse Asma.

Ambas votaram no Hizb Muqtamar (Congresso da República), partido centrista que integra a coligação governante junto com o esquerdista Ettakatol e o islâmico Ennahda. Perguntada se pensa que a coligação de governo faz um bom trabalho, Asma disse que não acredita nisto, acrescentando que os novos partidos deveriam combater mais a corrupção endémica. A população já empobrecida tem de pagar para contar com serviços básicos e emprego, reclamou.

Apesar dessa frustração, as duas irmãs apressaram-se a culpar a velha ditadura pelos problemas de Gafsa. “Estamos no zero. Não é fácil fazer mudanças agora”, ponderou Asma. Os problemas não terminam com a emigração para regiões da costa, comparativamente prósperas. Os moradores de Gafsa e regiões vizinhas são facilmente reconhecidos porque falam um dialeto do árabe. Assim, sofrem uma discriminação flagrante e generalizada.

A indignação por essa injustiça frequentemente fez-se presente, inclusive durante a ditadura, quando o regime de Zine El Abidine Ben Ali (1987-2011) apoiou com firmeza o statu quo. Após uma onda de despedimentos em 2008, os moradores de Gafsa organizaram uma greve maciça que só terminou quando a polícia começou a prender e torturar os organizadores, bem com a disparar contra os manifestantes nas ruas.

A UGTT teve um papel ambíguo, tanto no levante de Gafsa de 2008 como na posterior revolução. Essa central sindical era reconhecida pela ditadura, e os seus principais cargos sempre foram ocupados por aduladores mais leais ao regime do que aos seus próprios integrantes. Apesar disto, as bases da UGTT foram conhecidas por serem abertamente progressistas e pró-democráticas. Antes da revolução, era a única instituição nacional importante onde os críticos do regime podiam alcançar certo grau de autoridade. Desde a revolução, a União esteve na primeira linha das exigências de maior igualdade regional e económica.

Por telefone, do seu escritório em Gafsa, o secretário-geral regional da UGTT, Mohamed Sghaiyer Miraoui, apoiou as manifestações e transmitiu as queixas de outras pessoas da sua região. “Os operários da mina já se dirigiram ao governo anterior reclamando mais direitos”, contou à IPS. “Exigimos o direito ao emprego (o desemprego aproxima-se de 60% em certas áreas de Gafsa), compensações para famílias dos mártires (que morreram nos levantes de 2008 e 2011), seguro médico por acidente de trabalho e segurança social para os aposentados. Nenhum governo jamais nos respondeu. Só palavras”, denunciou.

“A UGTT dá as boas-vindas e apoia manifestações pacificas e que não alterem a ordem pública, bem como o funcionamento das empresas, e condena toda a greve que bloqueie estradas e proíba que outros trabalhadores façam a sua tarefa”, acrescentou Miraoui. Em Gafsa e nas áridas aldeias vizinhas, a pobreza e os persistentes grafites revolucionários são lembranças de quanto a Tunísia avançou no último ano, e de quanto ainda falta percorrer. O governo trava uma dura batalha para criar empregos e combater a desigualdade.

17/2/2012