Flotilha humanitária para Gaza

“O que eles filmam é a ‘parte boa’”: Portugueses relatam torturas dos militares israelitas

22 de maio 2026 - 10:58

Beatriz Bartilotti e Gonçalo Dias chegaram ao Porto e foram recebidos por dezenas de ativistas. Dizem que a missão só será cumprida quando os governos aplicarem sanções a Israel.

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Gonçalo Dias e Beatriz Bartilotti (ao centro) com Nuno Gomes e Joana Rocha
Gonçalo Dias e Beatriz Bartilotti (ao centro) com Nuno Gomes e Joana Rocha, ativistas sequestrados por Israel em Abril, à chegada ao aeroporto do Porto. Foto de Helga Calçada.

Os dois médicos portugueses sequestrados em águas internacionais por tropas israelitas, quando viajavam a bordo de um dos barcos da flotilha humanitária para Gaza,  chegaram esta sexta-feira de manhã ao aeroporto do Porto e foram recebidos por dezenas de ativistas contra o genocídio de Israel em Gaza, incluindo pelos dois portugueses sequestrados em abril ao largo da ilha grega de Creta, Joana Rocha e Nuno Gomes.

Gonçalo Dias relatou a violência a que foram sujeitas as centenas de ativistas durante o período em que estiveram detidos no barco-prisão que os levou para Israel e já em território israelita. Questionado sobre as imagens de maus-tratos publicadas nas redes sociais do ministro da Segurança Itamar Ben-Gvir, o médico respondeu que “o que eles filmam é ‘a parte boa’, digamos assim. Foi horrível, a violência é muito gratuita”.

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“No nosso barco houve pessoas baleadas, uma na perna e outro no baço, não sei como esse rapaz está. Batiam-nos, houve muita violência. Foram horas pesadas”, relatou o ativista que também foi vítima dos maus-tratos das tropas sionistas: “Bateram-me, amarraram-me as algemas com muita força, ainda não sinto estes três dedos, mas nada comparado como que outras pessoas sofreram”, referindo que “houve um homem a quem partiram o joelho e obrigavam a apoiar-se nesse joelho. Riam-se e cantavam enquanto cometiam todos estes atos”, relata.

De regresso ao Porto, Gonçalo diz sentir-se “aliviado por estar em casa e rodeado das pessoas que amo”, mas promete continuar a lutar, pois “a missão só será cumprida quando os nossos governos se posicionarem, quando Portugal cortar relações com Israel, quando deixarmos de permitir que os EUA usem a Base das Lajes como quiserem para fazer guerra no Médio Oriente”.

“Sentimo-nos obrigados a fazer este tipo de ações porque os nossos governos não agem e acaba por recair na sociedade civil a responsabilidade de agir contra todos estes contra a humanidade que Israel continua a cometer, contra o genocídio e o apartheid”, afirmou.

“Sancionar um estado genocida é o mínimo que se pode fazer”

A médica e ativista Beatriz Bartilotti disse aos jornalistas que “é emocionante ver esta solidariedade, mas fico triste por ver que ela só acontece quando pessoas que não são palestinianas são expostas a esta violência. Ela acontece todos os dias em Gaza, na Cisjordânia, em Gaza, no Líbano”.

“Acho que é tempo dos nossos estados pensarem qual é a relação que querem manter com um país genocida, um país de apartheid, que ocupa terras ilegalmente constantemente”, prosseguiu, na esperança de que “haja um impacto no corte de relações diplomáticas e económicas”, dado que “sancionar um estado genocida é o mínimo que se pode fazer”.

Sobre o que viveu e testemunhou durante a detenção dos cerca de 430 ativistas, relatou que “fomos torturados e espancados, contamos pelo menos 35 pessoas com membros partidos, pessoas alvejadas...” Questionada sobre a condenação do governo ao tratamento dado aos ativistas da flotilha por parte de Israel e se esperava mais, respondeu que “do estado português, espero mais há muitos anos”.