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O que é que o capitalismo tem a ver com isto?

O mito de que a globalização capitalista iria dissuadir as guerras pode finalmente ser posto de lado. O economista David F. Ruccio analisa algumas das perspetivas que mostram as relações entre o sistema económico dominante e o conflito na Ucrânia.
Oligarcas ucranianos. Foto Euromaidan.
Oligarcas ucranianos. Foto Euromaidan.

O que se passa com a guerra na Ucrânia?

A narrativa dominante (nos Estados Unidos e noutros países, a julgar pela imprensa internacional que li) é que Putin, o líder da Rússia faminto por poder, está determinado a expandir o seu domínio sobre uma antiga república soviética – e está a ser travado por uma combinação do seu próprio isolamento e inépcia com resistência do governo pró-ocidental e dos cidadãos da Ucrânia. É uma história que se repete diariamente, cheia de imagens sangrentas de cidadãos e soldados mortos, que a tornam mais forte, aparentemente numa tentativa concertada de contar uma história simples de vilões e vítimas. Literalmente, parecem os chapéus a preto e branco dos westerns americanos clássicos (1).

E funciona. O facto dos meios de comunicação social mainstream e representativos do extremo centro estarem a contar essa mesma história, dia após dia, desde o início da invasão há quase dois meses, significa que é isso que a maioria das pessoas pensa e acredita sobre a guerra. Quase não há qualquer pausa ou qualquer espaço para opiniões dissidentes serem vistas ou ouvidas. É o fim da liberdade de imprensa, que atualmente significa que os proprietários dos meios de comunicação social são livres de formular e divulgar qualquer história que escolham – mas não que nós, como leitores, espectadores e ouvintes, sejamos livres de receber uma vasta gama de análises sobre o que possa estar a acontecer.

Este é o primeiro problema. Um segundo problema é que, apesar das insinuações e ressonâncias da Guerra Fria presentes em muitas das versões da narrativa dominante, esta leitura não reconhece que o próprio Putin não poderia ser mais anti-comunista, sendo um crítico feroz de tudo o que tenha a ver com a União Soviética. De facto, na véspera da invasão, Putin culpou inequivocamente a "Rússia comunista, bolchevique" pela criação da Ucrânia, num processo que começou "praticamente logo após a revolução de 1917".

Um terceiro problema com esta narrativa é que ela essencializa motivos ou comportamentos particulares dos beligerantes – como se as coisas não pudessem ser de outra forma, mais afastada das "nossas" crenças e ações (2). É exatamente esse o ponto que Branko Milanovic levanta em relação às tentativas de explicar a agressão russa em termos de uma "cultura nacional secular":

“Não gosto desse tipo de explicações em economia nem em ciência política. Estão sempre erradas porque são basicamente uma destilação de tudo o que é senso comum num determinado momento. Assim, parecem estar sempre corretas num determinado momento, mas estão sempre erradas quando se olha para elas à posteriori. . .

As pessoas também gostam de oferecer explicações desse tipo porque elas são lucrativas. Publicam o seu livro e quando os outros o leem, precisamente porque tais histórias são uma compilação de lugares comuns, dizem: "Uau, isto é realmente fenomenal; encaixa lindamente no que eu pensava". Mas encaixa lindamente porque dá um pedaço do momento atual interpretado como se fosse de algum modo um resultado inevitável. Só que as coisas mudam. Então pega-se noutro pedaço da história e defende-se que uma outra explicação essencialista diferente é a que realmente importa”.

É aqui que entra o capitalismo. O capitalismo serve para questionar as explicações essencialistas da guerra, uma vez que situa o que se passa num contexto histórico e social em constante mudança (3). Em segundo lugar, serve para colocar em causa os termos estreitos da narrativa dominante, precisamente porque nos obriga a fazer perguntas sobre as causas económicas e sociais da guerra, tanto nos países em guerra como no sistema global existente. Finalmente, o capitalismo obriga-nos a reconsiderar a ideia de que Putin quer restaurar uma qualquer glória soviética anterior (ou mesmo pré-soviética), quanto mais não seja pelo facto da Federação Russa ser hoje um país tão capitalista como a Ucrânia e, já agora, como os países que que estão a ajudar a tentar travar a invasão de Putin e acabar com a guerra (4).

É preciso dizer, para que fique claro, que não defendo que a introdução do capitalismo na análise sirva – de nenhum modo ou forma – para absolver Putin e o seu regime pela monstruosa invasão da Ucrânia ou pelas atrocidades que cometeram durante o curso da guerra. E este uso do capitalismo como ângulo de análise também não invalida a ideia de que, enquanto membros de uma nação soberana, os ucranianos têm todo o direito de defender o seu território e de apelar à ajuda de outras nações e povos. Desde que o objetivo seja pôr fim à guerra e estabelecer uma paz duradoura e justa. E, se não tivermos em conta o papel do capitalismo, ficamos numa situação em que, como afirma Mike Small,

“É fácil sentir-se impotente e sem esperança, de facto o sistema está dependente de nos sentirmos assim, mas o sistema… está mais frágil e exposto do que possamos imaginar”.

Então, onde é que o capitalismo entra na análise da guerra atual na Ucrânia? Felizmente, tem havido, fora dos principais meios de comunicação social, diversas tentativas de introduzir o capitalismo na análise desta guerra. São contributos que podem ser aproveitados por outras pessoas para aprofundar a análise à medida que a guerra continua a intensificar-se.

No entender de Slavoj Žižek, os mercados capitalistas serviram tanto para alimentar a máquina de guerra russa como para limitar a solidariedade ocidental (especialmente da Europa Ocidental) para com a Ucrânia, um ponto que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky compreendeu claramente: fornecer petróleo (para além de fertilizantes e alimentos) ao Ocidente é mais importante do que salvar vidas ucranianas. E, tanto na Rússia como no Ocidente, o objetivo é proteger esses mercados – para financiar a guerra (e oferecer em troca "orgulho patriótico barato") e para evitar qualquer tentativa séria de reestruturação do sistema energético existente (para já não mencionar a resolução da crise alimentar global, que ameaça a vida e a subsistência de milhões de pessoas em todo o mundo) (5).

Richard Wolff aborda a questão de um ângulo diferente. A sua abordagem é a de que a história do capitalismo conduz, mais ou menos inevitavelmente, a guerras – uma vez que as empresas capitalistas se expandem globalmente e colocam países uns contra os outros, criando assim (entre os países tal como entre as empresas) tanto vencedores como perdedores. Os impérios resultantes (britânico, alemão, norte-americano, etc.) são então desafiados, tanto no seu interior como pelo seu exterior, provocando tanto guerras de maior dimensão como guerras de menor dimensão. Richard Wolff defende que, no caso da guerra na Ucrânia, os Estados Unidos expandiram o seu império para a Europa de Leste após a queda do Muro, mas foram depois desafiados por outras potências capitalistas, especialmente a aliança entre uma Rússia em ressurgimento e uma República Popular da China em rápido crescimento. O resultado foi a invasão da Ucrânia pela Rússia:

“Na Ucrânia, de um lado está um esforço liderado por nacionalistas que trariam mais uma nação para o império capitalista global liderado pelos Estados Unidos. No outro lado encontram-se a Rússia e os seus aliados determinados a desafiar o projeto de crescimento do imperialismo norte-americano na Ucrânia e a prosseguir a sua própria expansão competitiva para uma parte ou para toda a Ucrânia. A China coloca-se ao lado da Rússia porque os seus líderes veem o mundo e a história de uma forma muito semelhante: ambos possuem um concorrente comum nos Estados Unidos”.

E quanto ao país que a Rússia invadiu? De acordo com John Lough, na Ucrânia funciona um sistema de capitalismo de compadrio1 – o Systema, mais conhecido em linguagem comum na Ucrânia como oligarkhiya – que inclui a ausência de um Estado forte e uma relação estreita entre as grandes empresas e a classe política do país "que coloca os seus próprios interesses à frente dos da sociedade". Este Systema foi criado com a privatização das empresas estatais e através de um processo que pode ser melhor descrito como uma acumulação primitiva ou original de capital. Os oligarcas emergentes criaram grupos financeiro-industriais diversificados e altamente concentrados, que estão verticalmente integrados em muitos sectores económicos (incluindo bancos, produção e transmissão de energia, meios de comunicação social, mineração e aço, com a agricultura a constituir a exceção importante) e que têm ligações profundas no interior do Estado (através de uma variedade de meios, desde o financiamento a membros do parlamento até à propriedade dos principais meios de comunicação que constituem uma plataforma para certos políticos). Esta abordagem foi desenvolvida por Yuliya Yurchenko que explicou que foi a crescente divisão entre grupos oligárquicos que levou à emergência da luta entre ucranianos de extrema-direita e separatistas russos, os quais por sua vez fizeram da luta uma escolha civilizacional entre o Ocidente e a Rússia. O próprio Zelensky foi apoiado por uma fação particular de oligarcas pró-ocidentais mas, uma vez eleito, dirigiu a corrupção existente e a pilhagem continuada – e, como líder de um Estado mal equipado e organizado, Zelensky foi incompetente na governação. Os seus índices de aprovação desceram à medida que o nível de vida das pessoas diminuiu. Infelizmente, o crescente movimento para desmantelar o systema e traçar um caminho de desenvolvimento diferente para a Ucrânia foi travado, pelo menos por enquanto, pela invasão.

É claro que muito mais precisa ser feito sobre a análise do papel do capitalismo na criação das condições para a invasão da Ucrânia pela Rússia e a condução da própria guerra. Já para não falar das consequências. Mas, por agora, podemos pelo menos concluir que, como Harold Meyerson defendeu, o mito de que a globalização capitalista irá dissuadir as guerras pode finalmente ser posto de lado.


David F. Ruccio é Professor Emérito na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA), onde foi professor de economia de 1982 a 2019. Foi membro fundador da revista Rethinking Marxism, tendo sido seu editor durante doze anos (1997-2009). É autor de mais de 80 artigos de revistas e capítulos de livros e os seus livros incluem Development and Globalization: A Marxian Class Analysis (Routledge), Economic Representations: Both Academic and Everyday (Routledge), Postmodern Moments in Modern Economics (Princeton University Press) e Postmodern Materialism and the Future of Marxist Theory (Wesleyan University Press). Escreve regularmente no seu blogue Occasional Links & Commentary on Economics, Culture, and Society e escreve frequentemente para o blogue da Real-World Economics Review.

Artigo publicado originalmente a 22 de Abril no blogue do autor. Traduzido por Paulo Antunes Ferreira para o Esquerda.net.


Notas do autor

(1) A contra-narrativa mais significativa – que é dominante nos círculos de política externa mas que tem recebido relativamente pouca atenção nos principais canais de comunicação social – é a perspetiva realista oferecida por John Mearsheimer. Há muitos anos que Mearsheimer vem defendendo que os Estados Unidos, ao fazer pressão para a expansão da Nato para leste (para eventualmente incluir a Ucrânia), lançaram as bases para a posição agressiva de Vladimir Putin em relação à Ucrânia. Assim, há um mês, Mearsheimer escreveu: "O Ocidente, e especialmente a América, é o principal responsável pela crise que começou em fevereiro de 2014. Transformou-se agora numa guerra que não só ameaça destruir a Ucrânia, como também tem o potencial de se transformar numa guerra nuclear entre a Rússia e a Nato".

(2) Sem qualquer respeito pela história, evidentemente, como, por exemplo, foi feito com a insistente tentativa para a não publicação de imagens de cadáveres nos mesmos principais meios de comunicação social extremistas dos Estados Unidos durante a Guerra do Golfo.

(3) Percebo que o capitalismo pode ser utilizado ele próprio como uma explicação essencialista. Isso é algo a que devemos estar atentos e evitar sempre que possível. A minha opinião, por pouco valor que tenha, é a de que o capitalismo é uma, mas apenas uma, das condições que levaram à invasão russa da Ucrânia.

(4) Eles são, ambos, capitalistas, mas é certo que não se trata do mesmo capitalismo – e, aliás, um capitalismo combinado com, e condicionado por, todas as várias formas de não-capitalismo que existem em cada um e em todos os países que atualmente participam no conflito.

(5) Ou, já agora, para refrear ou tributar os lucros das grandes empresas petrolíferas em tempo de guerra, que segundo um recente relatório da Friends of the Earth, Public Citizen e BailoutWatch foram utilizados para recompensar os acionistas (incluindo executivos de empresas) através da recompra de ações e do aumento dos dividendos.

Nota do tradutor:

1 NT: No original “crony capitalism”.

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